Palavras Domesticadas

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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Raul Seixas e os Malditos - Revista Vizoo - 2005 (2ª Parte)

" A marca registrada dos chamados malditos sempre foi a rebeldia. Para Sílvio, Raul Seixas, era um ser à parte, único. Tom Zé, nunca se encaixou. 'Deu apenas uma amansada quando o inglês (o escocês David Byrne - ex-líder dos Talking Heads e proprietário do selo de world music Luaka Bop) o descobriu.
De uma forma geral, eram malditos aqueles que não se encaixavam no esquema mídia-gravadoras-mercado. 'A turma toda que foi caçada pela censura teve um retorno muito bom na mídia. Chico, Caetano, Gil... Depois, quando ela acabou, venderam muitos discos. O Jards e o Jorge Mautner até hoje não conseguem vender, entrar na mídia. Nem sei também se eles querem participar dela. 'Parece haver uma diferenciação entre os que compunham o que realmente sentiam e os que faziam isso objetivando outros fins, numa espécie de farsa. 'Talvez seja por isso que sejam malditos, por serem verdadeiros. Agora, o Chico é um cara verdadeiro...'
A prova disso é que eles continuam sendo as mesmas pessoas. O mundo mudou, e ainda são os malditos-benditos, coerentes com o que está dentro deles.
Lanny Gordin
Até hoje, sempre que possível, Pinhati procura estar presente fotografando quando algum dos seus malditos se apresenta em São Paulo. 'É difícil hoje a gente ver um show do Jards Macalé, do Jorge Mautner. O Luiz Melodia até se apresenta no Rio, mas aí fica difícil'. Emenda citando a efervescência musical do início dos nos 80, de gente que começou no teatro Lira Paulistana. Instalado em um porão da Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, foi polo do movimento conhecido como Vanguarda Paulistana, que revelou nomes como o Ultraje a Rigor e os Titãs do Iê-Iê (depois conhecido como Titãs). Além das apresentações dos novos talentos da época, rolavam também shows de Macalé, Jorge Mautner, Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque e Itamar Assumpção.
Mesmo após tanto tempo, Sílvio acha que ainda tem o que fotografar, que a história de seus malditos não acabou. 'Na época eu fiz muitas fotos. E hoje em dia ainda é muito gostoso, porque é prazer. Acho que só vai acabar quando a gente morrer'. E finaliza; 'Como o Jorge (Mautner) fala, 'é tudo coração'. Esse mundo é muito bacana, muito bonito e espero que apareçam novos que tenham essa coragem para viver esse caminho'.

Breve Registro
Filho de músico, mas segundo ele mesmo com dificuldades nos tons e semitons, Sílvio Pinhati viu na fotografia, outra paixão da família, a chance de estar perto da música. 'Desde criança eu e meus primos fazíamos concursos. Cada um pegava uma máquina e ía fotografar alguma estória. Depois revelávamos os filmes em casa mesmo. Costumo dizer que não procurei a fotografia, ela me encontrou. Hoje não sei fazer nada que não esteja relacionada a ela.'
Passada essa época, Sílvio foi morar em São Paulo, onde a fotografia voltou com força total. Enquanto estava na escola de fotografia da irmã, dividia a casa que morava com um uruguaio, segundo ele, um mestre chamado Americo. Americo havia morado em Paris, era amigo de Dali e da turma do surrealismo. Para  Pinhati, ali a coisa realmente aconteceu. 'Juntei as artes plásticas à minha fotografia, que melhorou muito. Americo falava das cores em graus. Três graus do verde, dois graus do vermelho.' Segundo ele, o pintor ficava às vezes no Masp das oito da manhã às cinco da tarde em frente a um Van Gogh, só fazendo esquemas. 'Esse era um cara maluco, bem maluco. E tinha esse lance muito doido que o despertou: ele falava que tinha que haver uma troca, que o momento certo do clique é quando as coisas olham pra você, e não apenas você olha pra elas. Tem que estar com a mente aberta para captar essas coisas. ' "

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