Palavras Domesticadas

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Caetano Veloso fala sobre o show de Chico Buarque e Maria Bathania em 1975 (1ª Parte)

Em 1975 Chico Buarque e Maria Bethania fizeram uma temporada de shows de muito sucesso no Canecão, no Rio, e que acabou, inclusive, sendo transformado em um disco ao vivo, de também muito sucesso. Na ocasião, Caetano Veloso escreveu sobre esse encontro na revista Música do Planeta Terra nº 1:
"Os mais velhos nada me contaram sobre como talvez Oxalá tenha dirigido o destino de minha gente pelo lado branco. Maria Bethânia é a brecha aberta pelo raio de Iansã, através da qual nós entramos em contato com o lado vermelho. Hoje em dia todos sabemos que sem esse acontecimento nós não seríamos capazes de vislumbrar o que significa a existência de Olorum porque não estaríamos caminhando com a dificuldade necessária para sentir as forças reais que dançam sobre esse planeta. assim é essa estória contada do modo certo, mas o surgimento de Maria Bethânia entre nós já era uma presença vermelha entre nós antes do tempo do seu surgimento no tempo porque a gente intui que tudo se repete sempre e sempre está sempre se repetindo no amor de Olorum, assim é essa estória do surgimento de Maria Bethania entre nós como uma luz vermelha se repetindo no amor de Olorum.
Quando André Midani, chefe da empresa gravadora onde eu trabalho, me falou para trabalhar um espetáculo para Chico Buarque e Maria Bathania, eu aceitei sem medo, sem planos, sem euforia, sem psicanálise, sem julgamento. Quando Chico me disse que a gente já tinha falado nisso antes, eu lembrei da Bahia e de Rony e disse que sim que a gente já havia falado nisso. Quando pensei no espetáculo, decidi que ele abriria com o 'Sinal Fechado' e fecharia com uma música a ser composta por Chico e por mim, tendo como tema a serena e brutal alegria de poder que coisas como Chico e Bethania estarem aí repetidamente surgindo eram incuráveis, invencíveis, indestrutíveis. Quando pedi a Chico para cantar 'Quem te viu, quem te vê' ele entendeu a achou bonito. Quando pedi a Chico para cantar 'Carolina' ele se recusou e eu entendi e achei muito bonito.
Quando o Canecão fez a proposta a Bethania e Chico, eles aceitaram a proposta do Canecão, eu apaguei todas as ideias de espetáculo que eu tinha na cabeça e no coração e tudo o que eu já contei antes, mas continuei religiosamente aceitando o que eu já não sabia o que era. Quando fui ao Canecão para ver o local e o público, Dedé estava comigo e estávamos os dois sozinhos e era a última apresentação do espetáculo 'Brasileiro, Profissão Esperança' e Olga do Alakêtu estava lá e eu senti a severidade do olhar de  Iansã quando ela respondeu secamente ao cumprimento que eu tentei lhe dirigir num tom demasiadamente carinhoso para as poucas relações que eu tenho com ela - que beleza!  que majestade! que força de sinceridade tão profunda que me encheu de sabedoria sobre o que em psicanálise tanto se chama de aceitação das frustrações - e isso depois de ter visto emocionado o espetáculo 'Brasileiro, Profissão: Esperança' (vimos o espetáculo e não o local e o público, uma vez que o público era atento e silencioso e o local bem equipado: o Canecão não é um lugar onde gente barulhenta come e bebe enquanto um show tenta se dar, mas um feio edifício onde uma gente não muito bonita mas muito aplicada se dedica com enorme seriedade ao que se chama diversão, uma gente incrivelmente real, um lugar talvez demasiadamente real).
 Quando saímos do Canecão, eu e Dedé estávamos com dor de cabeça de tanto chorar, por causa do modo como a gente sentiu estranhamente o tempo, vendo esse avesso do Cassino da Urca, um Rio de Janeiro dos anos 50 (as canções tão lindas de Dolores Duran e Maria - que Deus os tenha em bom lugar) apresentando à moda dos 60 (opiniosamente) por e para um Rio de Janeiro demasiadamente real (um impressionante Paulo Gracindo da Rádio Nacional à TV Globo, uma linda Clara Nunes da Rádio Globo, um público como paulistas olhando para o Rio, uns filmes lindíssimos de surfistas do Arpoador)."

(continua)

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