Palavras Domesticadas

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Nara Leão - Eterna Musa (1ª Parte)

Nara Leão foi uma figura ímpar dentro da MPB. Um dos principais nomes da Bossa Nova - dizem que o movimento surgiu em reuniões musicais no apartamento de seus pais em Copacabana - Nara não se limitou a participar somente daquele movimento musical que ganharia o mundo. Ainda no auge da Bossa Nova, Nara já buscava novas formas de se expressar musicalmente, e seu primeiro disco trazia composições de nomes mais identificados com as raízes do samba e da música de protesto. Ao longo de sua carreira Nara flertou com diversas outras manifestações musicais, sem contudo abandonar a Bossa Nova.
Em 2008, quando se comemorava os 50 anos do surgimento da Bossa Nova, a revista Contigo lançou uma caprichada edição especial sobre o movimento, com ótimos textos, mais de 70 fotos e um CD trazendo uma coletânea das principais gravações da Bossa Nova. Entre os artistas que ganharam uma resenha nesse volume especial, Nara não podia ficar de fora, e a ela foi dedicado um ensaio intitulado "Um leão chamado Nara", cuja primeira parte reproduzo abaixo:
"Seria uma tremenda injustiça Nara Leão ser lembrada somente como a dona dos joelhos mais cobiçados da Bossa Nova. O que lhe garantiu o título de musa do movimento. Natural que naqueles tempos pré-minissaia, a exibição de seu roliço par de atributos mexesse com a libido da rapaziada reunida no famoso apartamento da família Leão para fazer música. Eram, afinal, rapazes no vigor dos 18, 20 anos. Nara foi musa do movimento, sim, mas foi muito além. Inspirou a Bossa Nova e depois pareceu dinamitá-la, peitou os os militares numa época em que isso significava suicídio e, quando parecia que a Bossa Nova tinha se transformado numa lembrança na parede, retomou suas canções e brindou os ouvintes com gravações antológicas. Em resumo, Nara foi uma grande mulher.
Quem desse uma espiada na adolescente, porém, jamais imaginaria tamanha transformação. Aos 14 anos, em vez do sobrenome, a personalidade de Nara inspirava outros bichos, traduzidos nos apelidos pelos quais era tratada em casa: 'Jacarezinho do Pântano' e 'Caramujo'. A seu favor, diga-se: não era fácil viver à sombra da esfuziante irmã mais velha, Danuza Leão, em quase todo o seu avesso. Danuza era linda, chique, famosa e só namorava homens idem. A timidez de Nara beirava o patológico. O violão lhe salvava duplamente. Podia se esconder atrás dele e o instrumento lhe abria novos horizontes. O primeiro foi  presente do pai. Começou a ter aula aos 12 anos com Patrício Teixeira, cantor, instrumentista e compositor de Pixinguinha em diversos conjuntos.
A música entraria em sua vida graças a um vizinho de Copacabana, Roberto Menescal, com quem chegou a namorar. Menescal tinha uma academia de violão e uma turma que adorava tocar. Logo estavam todos espalhados pelo chão da sala do apartamento de Nara, o número 303 do edifício Champs-Elysées, bem em frente ao Posto 4. Os 90 metros quadrados da sala pareciam um latifúndio comparado ao palco das boates que muitos ali iriam enfrentar logo mais. Os garotos eram bem-vindos e bem tratados pelos pais liberais da anfitriã, a professora Tinoka e o advogado Jairo Leão. Numa entrevista, a cantora lembrou do clima reinante: 'Todo mundo ia à minha casa. O João (Gilberto), o Tom, o Vinícius, o Carlinhos Lyra, a Silvinha Telles, o Menescal. Era um apartamento amplo, na Avenida Atlântica, entre Santa Clara e Constante Ramos. Meu pai ficava jogando pôquer com o Millôr Fernandes, o Leon Eliachar e outros, enquanto a gente ficava cantando e tocando violão. De manhã, ele saía pra trabalhar, dava um oi pra todo mundo e a reunião continuava. De vez em quando, eu fazia uma macarronada para o pessoal comer'.
Na lista dos frequentadores ela omite uma das figuras centrais daquelas reuniões e de toda Bossa Nova: Ronaldo Bôscoli. É compreensível. Trazido por Menescal ao famoso apartamento da Avenida Atlântica, Bôscoli se encantou com Nara e a conquistou. ele tinha 28 anos, ela 15. Algumas canções da Bossa Nova com letra de Bôscoli foram inspiradas em seu romance com Nara. A mais explícita delas, Lobo Bobo, dizia: 'O lobo mau se derreteu/Pra você ver que lobo/Também faz papel de bobo/Só posso lhe dizer/Chapeuzinho agora traz/Um lobo na coleira'.

(continua)


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