Palavras Domesticadas

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terça-feira, 30 de maio de 2017

Gilberto Gil Fala do Disco Expresso 2222 (2012)

No ano em que completou 70 anos, Gilberto Gil foi homenageado com uma coleção de fascículos, onde sua obra era comentada, sempre destacando um de seus discos, que vinha encartado em CD. A publicação se chamava "Coleção Gil 70 Anos", e o volume 2 destacava um de seus melhores discos, Expresso 2222, que marcou sua volta ao Brasil, após o exílio londrino. Gil fala sobre o disco e sua concepção, em um depoimento exclusivo. Segue abaixo o texto do fascículo, assinado por Marcelo Fróes:
"Após alguns anos iniciais em Salvador, Gilberto Gil trilhou rápida carreira ao chegar no Sudeste - gravando um compacto ao chegar a São Paulo em 1965 e finalmente alcançando o primeiro LP já em 1967, antes mesmo de abafar no Festival da MPB daquele ano com 'Domingo no Parque'. Um dos mentores  - ao lado de Caetano Veloso - do movimento tropicalista, que tomou conta do país em 1968, Gil acabou sendo preso em São Paulo em 27 de dezembro daquele ano, em decorrência da caça às bruxas promovida pela ditadura militar após o AI-5.
Presos até a quarta-feira de cinzas de 1969, Gil e Caetano ainda enfrentaram prisão domiciliar em Salvador até serem finalmente exilados em Londres. Na capital inglesa, Gil familiarizou-se mais rapidamente e gravou dois álbuns durante aquela fase - até surgir oportunidade de retorno ao Brasil em janeiro de 1972. Gil realizou então uma excursão nacional e em seguida tratou de entrar no moderno estúdio de 16 canais da Eldorado, no prédio do grupo Estadão em São Paulo, para, sob a produção de Roberto Menescal, então diretor artístico da Philips (atual Universal Music), gravar um novo álbum - o primeiro trabalho no Brasil em três anos.
O disco contou com a adição do tecladista Antônio Perna e ainda teve Gal Costa fazendo dueto em 'Sai do Sereno'.
'Primeiramente eu fiz um compacto de voz e violão, durante uma entrevista para a revista O Bondinho, gravado num quarto de hotel enquanto eu mostrava para o repórter as novas canções', lembra Gil. 'Aí, em abril começou a gravação em estúdio, já com a banda. Em algumas faixas, como 'Chiclete com Banana', o Bruce teve uma certa dificuldade... porque ele é inglês, teve dificuldade de pegar o sentido do samba, mas o Lanny pegou o baixo e criou - porque ele tinha muito treino, tocava muito na boate do pai dele - a Stardust, em São Paulo. Ele tocava com todo mundo, então tinha uma grande prática e na hora pegou o baixo e saiu tocando. Tutty já era da banda, ele voltou na mesma época que a gente e aqui eu reuni os demais. Perna era pianista da Bahia, tinha feito shows com a gente nos anos 60; e o Lanny já tinha gravado num disco meu, fazendo a finalização do disco que eu havia deixado gravado antes de ir embora pra Londres'.
'Ele e Eu' foi feita em Londres, sobre as diferenças de personalidade entre Caetano e eu. Caetano racionalista, eu místico. 'Expresso 2222' também foi feita lá, refere-se à locomotiva que passava na rua na minha infância mas também à cultura psicodélica da época - cuja forma de representação mais comum desse campo de experiências humanas era 'a viagem', metáfora dos estados alterados de consciência'.
Depois do barato do 'Expresso', 'O Sonho Acabou'. 'Essa eu fiz já no final de minha temporada em Londres - no festival de Glastonbury. Na época tinha saído aquele LP de John Lennon que tinha uma canção chamada 'God', com  a expressão 'the dream is over (o sonho acabou)'. 'Oriente' também foi feita inteiramente lá, mas durante um passeio na Espanha - quando alugamos uma casa em Formentera, ao lado de Ibiza. Eu ficava com o violão o dia todo e me lembro que num final de tarde uma estrela cadente passou no céu, depois de um longo dia claro de verão. Uma colagem de impressões e lembranças, referências a vários momentos da vida, família e de amigos. 'Back in Bahia' eu compus entre Salvador e Santo Amaro, tão logo cheguei de volta. Foi a única composta aqui', lembra.
Capa interna do disco, após aberta - tinha formato redondo
'Expresso 2222' saiu em julho de 1972, com o filho Pedro Gil na capa por ideia do próprio artista, e aberto por uma gravação de 'Pipoca Moderna' com a Banda de Pífanos de Caruaru - canção que  Gil conhecia desde os anos 60, em gravação feita por Carlos Fernando anos antes. 'É o prólogo', traduz Gil.
O disco tinha também 'O Canto da Ema', que o artista já conhecia de uma gravação de Jackson do Pandeiro. O álbum foi puxado pelo sucesso do compacto 'Chiclete com Banana' (versão de Gil para o clássico de Gordurinha que Jackson do Pandeiro também sempre cantara). No lado B, uma faixa não incluída no LP: 'Cada Macaco no Seu Galho', de Riachão, com a participação de Caetano Veloso.
Gilberto Gil animou-se com a banda que montara com Tutty Moreno (bateria), Bruce Henry (baixo) e Lanny Gordin (guitarra), e iniciou, já a partir do segundo semestre de 1972, uma série de excursões - inclusive shows com amigos, ora Caetano, ora Gal - que sucederam-se até 1974. Nesse meio tempo, entre uma apresentação em Cannes com Gal e Jorge Ben e uma participação no evento Phono 73, ocasião em que cantou com Chico Buarque e com Elis Regina, Gil acabou entrando em estúdio para gravar um novo álbum. Mas isso já é outra história!"

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