Palavras Domesticadas

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domingo, 7 de maio de 2017

Caetano Num Show Integral e Natural (1978)

Em janeiro de 1978, o Jornal de Música trazia uma resenha de um show de Caetano Veloso no Teatro Clara Nunes, no fim de 1977. O show tinha a participação especial de Sérgio Dias na guitarra, e foi o show que sucedeu a temporada do Bicho Baile Show, em que Caetano se apresentava ao lado da Banda Black Rio. A matéria é assinada por Antônio Carlos Miguel:
"Eu tinha gostado do Bicho Baile Show, de Caetano com a Banda Black Rio, mas este show atual é bem superior. Tem mais a ver com toda transação caetânica. Se em Bicho a atmosfera parecia um pouco forçada, apesar do repertório e dos últimos músicos da Banda - o melhor grupo instrumental de 1977 - neste novo show Caetano está bem natural, com todo pique e toda suavidade peculiar.
Bicho foi em parte um trabalho conceitual que demonstrava a vontade de Caetano em fazer uma música mais próxima à dança e origens afro-brasileiras. Talvez por isso mesmo o destaque maior foi para a Banda. Havia por parte de Caetano interesse em dar força à música instrumental. Para todas essas ideias se completarem integralmente faltou um melhor entrosamento entre os dois trabalhos. A música de Caetano soava um pouco estranha, não se adaptando aos arranjos 'Black Rios'.
Este é um problema que não existe neste novo show, a impressão é de que estamos em casa. Tecnologia integral e natural. Mesmo voltando ao esquema 'banquinho-violão' temos um espetáculo solto e descontraído. Caetano está tranquilo, conversando bastante com o público, transmitindo toda sua segurança frágil. O show utiliza poucos recursos, nenhum cenário e uma iluminação discreta. Os músicos que o acompanham se integram neste clima todo. Alguns deles têm um contato bastante intenso com Caetano, Arnaldo Brandão (baixo e violão de 7 cordas) e Vinícius Cantuária (bateria e guitarra acústica) participaram do disco Bicho e tocam em 'jam sessions' caseiras; este também é o caso de Tomás Improta (piano acústico e elétrico). Na percussão está Marcos Amma. Nesta apresentação no Teatro Clara Nunes - este show já tinha sido apresentado no Teatro do Instituto de Educação e na Concha Verde - há ainda a participação superespecial de Sérgio Dias Baptista (guitarrista dos Mutantes).
O show começa com uma série de músicas acústicas, 'Leãozinho' é a primeira, na segunda música são apresentados os músicos e entra em cena dando 'uma supercanja', Sérgio. Enquanto Caetano canta Sérgio preenche todos os espaços e voa alto com seus solos mutantes. São apresentadas algumas composições novas, inclusive 'Sampa', o samba que Caetano fez para São Paulo... 'o samba é hoje em dia uma música típica de São Paulo'. Em seguida vem 'Rio'. Estas duas músicas já bastam para mostrar que ele continua sendo o mais instigante poeta/letrista na música brasileira. Algo como a loucura da lucidez. Antes do intervalo uma homenagem a Dylan, todos cantando 'Don't think twice, it's all right'.
Na segunda parte, só ao violão, Caetano interpreta alguns 'standards' da MPB: 'Quem Vem da Beira do Mar' (Dorival Caymmi), 'Eu Sei Que Vou Te Amar' (Tom Jobim- Vinícius de Moraes) e 'De Você Eu Gosto' (Tom Jobim- Aloysio de Oliveira).
No final, com o grupo novamente, são apresentados, entre outras, 'Tigresa', 'Um Índio' e a incrível 'Muito Romântico' - gravada por Roberto Carlos em seu último disco. A interpretação de Caetano tem muita garra, superando a gravação de Roberto. Sérgio contribui com um lindo solo, que desta vez o obriga a se levantar da cadeira - até então ele tinha tocado sentado, com um painel de pedais.
O trabalho do grupo está perfeito. Arnaldo segura no baixo, Vinícius, além da bateria, dando uma boa ajuda nos 'backing vocals' e na guitarra acústica. Outro destaque  para o trabalho de Tomás Improta no piano, com solos saborosos em contraponto ao canto de Caetano - por exemplo a música 'Love, Love, Love' - e a guitarra de Sérgio.
Fechando o show, não podia faltar, 'Odara'. "

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