Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior - O Que Me Interessa É Amar e Mudar (1976)

O Brasil perdeu ontem um de seus grandes cantores e compositores. Belchior foi porta-voz de uma geração, com suas letras reflexivas, repletas de poesia e questionamentos. Sua música atravessou gerações, e nem com seu sumiço e reclusão ficou esquecido. Fica aqui minha homenagem a essa grande personalidade, que marcou profundamente a mim e a todos de minha geração, com a reprodução dessa entrevista que Belchior concedeu a Eduardo Athayde, publicada no jornal Hit Pop, em 1976, ocasião em que lançou um de seus discos mais marcantes, Alucinação:
"A cara larga de vaqueiro. A fome insaciável pelo novo. A rebeldia. A provocação. O indiscutível talento. Tudo isso somado, resulta em Belchior, nascido Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelli Fernandes, cearense de 29 anos.
Ele afirma, apenas, que é um 'rapaz latino-americano'. E eu digo que isso quer significar três coisas: não cede, não concede, se impõe.
O seu novo LP, intitulado 'Alucinação', vai fazer a cabeça de todos os que estiverem atentos, à música e principalmente à letra. É o LP do ano, não tenho a menor dúvida. Quem não se tocar, dançou. Reparem no repertório selecionado, todo de lavra sua: Apenas um Rapaz Latino-Americano, Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, Sujeito de Sorte, Como o Diabo Gosta, Alucinação, Não Leve Flores, A Palo Seco, Fotografia 3x4, Antes do Fim
Vou pecar pela repetição, mas acho que o trabalho de Belchior se resume no verso: quero que meu canto torto feito faca, corte a carne de vocês. O torto, no caso, talvez se reflita na simplicidade do fraseado musical. Mas o afiado da faca pinta em cada um dos versos que faz, ele que é um letrista da pesada.
É esse Belchior que vem com tudo - seu torto canto e sua lâmina afiada - nesta entrevista concedida com exclusividade para Hit-Pop. É um papo comprido, do geral ao particular, sempre denso de ideias e ideias. Eu dou fé. 
Hit-Pop - É possível rotular sua música?
Belchior - Olha. Fundamentalmente, eu faço música nordestina, contemporânea. Transo de xaxado, xote, baião. Mas não dispenso o elemento eletrônico, e tampouco as influências que recebi. E foram várias, variadas: Luiz Gonzaga, Beatles, cantadores de feira, ciganos nas estradas do Ceará, música de igreja. Some esses elementos todos, e você terá, digamos, uma arte mestiça...
Hit-Pop - E a latinidade? Qual é, de fato, a dimensão desse (novo) elemento musical chamado som latino-americano, ou influenciado por ele?
Belchior - O que me impressiona é a possibilidade de nós, latino-americanos, podermos nos comunicar com uma linguagem nova, comovente, revolucionária. Aliás, o tango argentino é a autêntica linguagem das minorias latino-americanas. É claro que não sou contra o blues, forma de expressão dos negros americanos. Nem sou contra o samba, ou contra o rock - um grito da juventude. O que eu não gosto - de música e letras apenas contemplativas, passivas. Eu falo - e devo falar - dos enganos que nós, os jovens, sofremos por ver as nossas esperanças caírem por terra. Assim, não abro mão da agressão. Acho que é preciso fazer um trabalho irreverente e insolente. Caso contrário, vira aquele negócio de música de fundo de restaurante, sabe como é? As pessoas estão comendo e, e a arte serve apenas de relaxante, entretenimento. Facilitador a digestão.
Se o meu canto vai chegar a todas as pessoas, eu não sei. O que sei é que mantenho meu trabalho sob absoluto controle. Eu digo: 'sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco. Por favor, não saque a arma no saloon, eu sou apenas o cantor...'
Hit-Pop - Você imagina ter sua obra imortalizada, assim como os clássicos da música popular brasileira?
Belchior - Não me interessa, como artista, produzir e criar pensando na eternidade da obra. Eu quero dar toques, e isso é fundamental pra mim, pois o homem é o fim e  o objetivo de si mesmo. Eternidade não é um dado humano, comum. Aliás, em qualquer nível é uma farsa, uma mentira. Sou contra. Eternidade é o tédio dos deuses, que gostariam de ser simples mortais. Minha ligação é com a terra, ouça: "Eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. Longe o profeta do terror que a Laranja Mecânica anuncia. Amar e mudar as coisas me interessa mais!' Essa é a minha proposta. Isto é, suportar o dia-a-dia e a experiência com coisas reais.
Hit-Pop - Seu novo LP está na praça, seu talento é reconhecido, a crítica o elogia. Como você encara o sucesso?
Belchior - O sucesso me interessa, porque me dá possibilidade de dizer e cantar até chegar às pessoas. O disco é a chance que o artista tem, em se oferecer integralmente, com suas ideias, mensagens, reflexões. Neste  momento, estou montando uma banda, para correr todo o Brasil. Já estou com o Liminha, o Áureo de Souza, o Rick, e só busco um tecladista.
O meu disco tem um título que eu gosto, 'Alucinação'. Sabe, viver é mais importante que pensar sobre a vida. É uma forma de delírio absoluto, entende? A alegria, a ironia, a provocação, são tão importantes quanto sorrir, brincar, amar. Acho importante provocar. Um trabalho novo só aparece através da agressividade. Eu estou tranquilo quanto às consequências do meu trabalho. Acho importante que ele cause polêmica. É para desafinar mesmo! Desafinar sempre, que esse é o desafio. Hoje em dia, já não se pode criar mais sem correr riscos. E eu quero enfrentá-los. Minha expectativa é para os jovens compositores. Sobre eles recaem todas as dificuldades pra fazer qualquer coisa. E, também, costumo tomar o trabalho de compositores mais velhos como marco para começar tudo de novo. Artista reconhecido é importante, claro, mas no momento, eu quero dar as mãos a Fagner, Alceu Valença, Luiz Melodia, Ednardo, Marcos Vinícius... A todo o pessoal desta geração violentada. Temos que encontrar uma forma de mostrar que estamos vivos. E isso só se consegue fugindo do convencional, optando definitivamente pela juventude. A cultura precisa rejuvenescer sempre voltada para a nossa realidade. O que é velho tem, realmente que morrer. Até agora, com raras exceções, a música tem sido uma forma artística com tendências à fuga, à evasão. Meu trabalho é uma colocação no real, pois nada muda por si mesmo.
Hit-Pop - E essas transas de misticismo, ioga, oriente... Elas têm significado pra você?
Belchior - Fui criado comendo boi com abóbora, no interior do Ceará. Por isso, tenho a mente aberta para ver se existe algo, nisso tudo de que você fala. Mas sou completamente desinteressado. Não acredito, não quero nenhuma nova teoria que me decepcione depois. Sou um cara mais preocupado com toques imediatos, do presente. A arte não pode viver de ilusões. Sinto necessidade de falar das aspirações imediatas: dormir, comer, sentir alegria, dor, prazer, tristeza, coisas claras, entende? Não sou, de fato, místico. Sou mal comportado por opção: 'Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras são navalhas, e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém.'
Hit-Pop -  Como é que foi sua vinda para o sul, a barra que você encarou?
Belchior - Minha família é nordestina , patriarcal. Somos 23 irmãos, vendo com grandeza e honradez o trabalho que fazíamos com as mãos. Aos 16 anos, eu não aguentei a barra, saí de casa, tentando buscar uma alternativa... Não vejo mal nenhum em sair por aí, botar o pé na estrada. O nordestino tem a alma de emigrante, é uma ave de arribação, como diz o Luiz Gonzaga em 'Asa Branca'. O jovem nordestino quer, um dia, voltar pra lá, mas sempre tem necessidade de sair. Agora, quem põe o pé na estrada precisa estar preparado para aguentar a barra. De 71 até hoje, o negócio não foi fácil. Dormi em muita calçada. segurei de perto a barra da Lapa (RJ). Senti fome e frio. Fiquei de pires na mão, nas salas de espera das gravadoras. Hoje, comparando, digo que fazer beicinho porque o papai não deu grana pro cinema é a mais completa infantilidade. Não passa disso. As soluções estão dentro da gente, é lá que a gente deve ir buscá-la. É como digo em 'Fotografia 3x4': 'Em cada esquina que eu passava, um guarda me parava, pedia meus documentos e depois sorria, examinando os 3x4 da fotografia, e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha'.
Hot-Pop - Qual a alternativa que você sugere?
Belchior - Cada um tem a sua. Pelo amor, sexo, conhecimento, experiência de vida, o jovem, isolado, terá tempo de refletir e encontrar o seu próprio caminho. É o toque que eu dou, por exemplo, na música 'Como o Diabo Gosta'... "

4 comentários:

  1. Tantas lembranças! Esse pássaro deu voo rasante em nossas cabeças e cortou nosso coração- a ferida não cicatriza e por isso está sempre lembrando que estamos vivos! Salve Belchior! Grata pelo seu canto torto!

    ResponderExcluir
  2. Sim, Margô. Belchior levantou voo e deixou suas sementes para as futuras gerações

    ResponderExcluir
  3. Márcio, parabéns pelo teu blog. Fico muito feliz de poder ver em vigor projetos que divulguem a nossa estética tropical. Meus sinceros e consternados parabéns!

    ResponderExcluir
  4. Obrigado, Matheus. Comentários como o seu me estimulam a manter esse projeto.Abraço

    ResponderExcluir