Palavras Domesticadas

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sábado, 3 de junho de 2017

Samba Esquema Novo, de Jorge Ben - Discoteca Básica

Existem discos que já nascem clássicos. É o caso de Samba Esquema Novo, lançado por Jorge Ben em 1963. O disco trazia uma renovação na forma de se fazer música, de tocar violão e de cantar. Naquele período em que a Bossa Nova, com sua batida característica, começava a dominar o mundo, Jorge Ben trazia uma coisa nova, uma renovação na forma de se fazer música, e mostrava pela primeira vez sua forma renovadora de compor, com letras inspiradas e despojadas, e melodias com uma marca pessoal que o acompanharia ao longo dos anos. Esse disco, muito merecidamente, é sempre lembrado quando se fala nos grandes álbuns lançados no Brasil ao longo dos anos, por isso não poderia ficar de fora de uma seção da revista Bizz chamada Discoteca Básica, onde um crítico destacava um álbum, nacional ou estrangeiro, e fazia uma resenha, mostrando porque o disco merecia entrar naquela seção. Em sua edição nº 62, de setembro de 1990, José Augusto Lemos fala desse grande clássico:
"O Brasil do início dos anos 60 era um país de grande efervescência cultural, onde o folclore e as artes populares não haviam ainda sido condicionados em frascos de formol e serviam de matéria-prima para as novas gerações. Nesse caldeirão quente cabiam tanto a reinvenção do samba, com a bossa nova, quanto os primórdios da sensibilidade pop- e rock'n roll da jovem guarda. E durante décadas estes extremos - na época, ideologicamente inconciliáveis - só se tocaram na música de Jorge Ben.
De nobre linhagem etíope, e musicalidade maturada na noite carioca, Jorge Ben trouxe para o samba pós-bossa  um novo violão - tão original quanto o de João Gilberto. Foram os dois, aliás, mais Tom Jobim, os grandes artesãos do 'samba híbrido', sincrético, desfolclorizado. Em comparação com a minunciosa dissecação harmônica de João Gilberto, o violão de Jorge Ben também fazia a festa nas síncopes e contratempos. A diferença estava justamente nessa costura: o bordão injetou tanto veneno rítmico que acabou dispensando qualquer tipo de contrabaixo pra as gravações. A voz de Jorge recebe apenas um sedoso colchão formado por uma bateria mezzo jazzy, encorpada com chocalhos e tamborins e do violão alquímico de Ben.
Contracapa do disco
Quando Samba Esquema Novo foi para as lojas, a fissura já estava devidamente instalada pelo sucesso do compacto que o antecedera: 'Mas, Que Nada', e 'Chove Chuva'. Tamanho impacto que dois anos depois Jorge estava nos Estados Unidos, desfrutando o status de hitmaker, ainda que através das pasteurizadíssimas versões de Sérgio Mendes para estas duas canções.
'Mas, Que Nada' abre o disco embalando um êxtase de longos melismas para, no final, entrar em órbita com o scat singing. Nesse tipo de alucinação vocal - e em suas particularíssimas letras - Jorge Ben deu um salto poético enorme. Espécie de novo Noel Rosa, mandou para o espaço preciosismos, parnasianismos, concretismos e entronizou uma fusão da gíria e da prosa malandra de esquina com um vocabulário próprio. Palavras como 'saiubá' e 'sacundin' talvez não signifiquem nada, mas moduladas melódica e ritmicamente podem explicar para nossos Olavos Bilac niu-uêivi-pós-pânqui a fundamental diferença entre versos para ler e versos para cantar. 'Por Causa de Você, Menina', que seria seu terceiro hit, radicaliza essa prosa intergalática ao pronunciar: 'Voxê passa  e não me olha/ mas eu olho pra voxê'.
Se apresentando no programa de Chacrinha
Ao longo da década, enquanto João Gilberto isolava-se cada vez mais no resgate e copydesc dos anos dourados da MPB, Jorge Ben soltava todas as amarras para experimentar. Retornando dos EUA, encostou o violão e passou a tocar uma guitarra elétrica - só por essa razão foi expulso do pseudo-refinado O Fino da Bossa.  Jorge foi jogar no time adversário, num outro programa chamado Jovem Guarda. O resultado dessa associação - o LP Bidú - Silêncio no Brooklin, de 67 - merece ser ouvido: tem baião psicodélico, muita eletricidade e efeitos de gravação de fazer  inveja aos californianos da época. Daí para a confraria tropicalista foi um pequeno pulo, sinalizando uma safra sensacional que amarra o final dos anos 60 ao final dos anos 70. Basta citar 'Que Pena', 'Que Maravilha', 'Charles Anjo 45' (talvez seu magnum opus), 'País Tropical', 'Fio Maravilha' e 'Taj Mahal'. Mesmo na década de 80, o alquimista entrou de sola com discos pioneiros na utilização de samplers - Dádiva (83) e Sonsual (84). O que veio depois não está à altura, infelizmente. Mas quem se arrisca a prever o que ainda vem por aí?"



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