Palavras Domesticadas

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sábado, 7 de janeiro de 2017

Rolling Stones: Zero em Comportamento - Rock, a História e a Glória (1975)

A revista Rock, a História e a Glória é uma das melhores publicações musicais lançadas no Brasil. Integrada por um ótimo time de críticos e jornalistas, a revista além de trazer textos biográficos de bandas e artistas de rock, trazia matérias não necessariamente sobre rock, e análises históricas musicais e comportamentais. Dentre os colaboradores da revista, o conhecido 'guru da contracultura brasileira', Luiz Carlos Maciel sempre trazia um texto abrangendo determinada cena, destacando algum artista ou banda de rock. 
Em sua edição nº 13 (1975), Maciel na seção "Rock a História" analisa a trajetória dos Rolling Stones, num texto intitulado "Rolling Stones: zero em comportamento":
"Pode-se ver o fenômeno do surgimento do pop inglês, nos anos sessenta como um dos resultados imprevistos da democratização do ensino no país, obtida pelos trabalhistas britânicos, depois da Segunda Guerra. Com a tendência socializante que se impôs, dentro das novas condições sociais e econômicas da Inglaterra, a Nova Legislação Inglesa sobre a Educação colocava o sistema educacional britânico, altamente sofisticado e aristocrático - e, até então, privilégio dos jovens das classes superiores ao alcance de jovens das classes sociais mais baixas. O choque cultural provocado por esse encontro inesperado entre jovens modestos e humildes e a cultura ocidental, no que tinha de mais avançado, passou a agitar o tradicionalmente tranquilo panorama cultural britânico, a partir dos anos cinquenta, pelo menos.
O primeiro momento foi de tomada de consciência social, econômica e política; a primeira reação foi de irritação e revolta. Pobres mas instruídos, os jovens das primeiras gerações proletárias inglesas bem educadas, experimentaram uma nítida e ardente revolta em face das injustiças sociais e de outros aparentes absurdos da vida coletiva britânica, em especial o excessivo conservadorismo - revolta que foi expressa literariamente nas obras dos escritores que ficaram conhecidos pelo rótulo de Angry Young Men, os jovens irados.
Se os primeiros sinais surgiram na literatura, as lições desse encontro brutal entre  o jovem sonhador e a realidade nos seus ângulos mais negativos, foram apreendidas pela música. As denúncias vigorosas dos Angry Young Men haviam destruído as ilusões: o  sistema era injusto e nada podia ser feito em relação a isto. Era preciso, agora, descobrir a alternativa, saber o que fazer. E o que os jovens ingleses descobriram para fazer foi o rock.
E se a irritação inicial parecia conduzir à luta - à luta política, por exemplo - ela esbarrou na indiferença e na complascência. Isso sempre acontece porque, afinal de contas, as forças que contestam e que se pretendem revolucionárias, são na verdade dois polos de uma mesma realidade - ou melhor:  - de uma mesma maneira de ver a realidade, as duas faces da mesma moeda. Cada polo supõe o outro; cada face depende da outra. E a sobrevivência de ambos depende dessa combinação tácita e misteriosa entre eles segundo a qual um se alimenta das agressões do outro. O ciclo vital da política é um círculo vicioso. Política significa: a ilusão do poder, a luta pela ilusão e  o olvido do real em nome dessa ilusão. Não oferece saída, por definição. Fazer política é enganar a si próprio.
Os jovens ingleses perceberam isso, chegaram a esse nível de consciência antes dos de outros países ocidentais - e foi por isso que, durante a explosão juvenil de 1968, quando o arquétipo do jovem rebelde se manifestou com extrema violência em todo o ocidente, principalmente através das tranquilas, sem maiores perturbações, foram inglesas.
Pois os seus jovens rebeldes não estavam organizando diretórios acadêmicos, uniões, federações, etc., nem se ocupavam de política, nada disso: antes, haviam simplesmente abandonado as aulas e estavam nas ruas, cantando rock. Como diz Mick Jagger, em Street Fighting Man, um verdadeiro hino guerreiro do jovem rebelde dos sessenta, o que mais um rapaz pobre podia fazer na sonolenta  cidade de Londres, senão cantar numa banda de rock'n roll?
De todos os conjuntos que criaram o rock contemporâneo nos sessenta, os Rolling Stones são o que melhor, com mais força e autenticidade, expressam esse novo espírito: eles são os garotos mal comportados que fizeram gazeta e ficaram na rua. Em vez de ativismo político, preferiram a molecagem; em vez da seriedade revolucionária, a brincadeira do rock; em vez da cultura, a experiência direta da marginalidade.
Todas as celebradas características dos Stones - seu anarquismo, seu sexismo chauvinista  a até mesmo o seu satanismo (à parte, é claro, de uma obra-prima indiscutível, 'Simpathy for the devil', é  de uma noite de muita má sorte em Atamont) decorre diretamente dessa opção simples a de ir transar e viver na rua; a de abandonar o lar e a escola, pais e professores, regras estabelecidas e cultura oficial, pela rua.
Pois é nas ruas que a luz escura deste mundo se revela. Sem proteções e disfarces de convenções, instituições, etc, fora das grades protetoras da civilização organizada, as ruas mostram os aspectos sombrios da realidade humana. O jovem rebelde, em luta contra o poder paterno - e o rock, no fundo é isso: a insurreição dos adolescentes machos, dos filhos homens, contra o pai dominador - vai encontrar na rua todo esse underground proibido e reprimido: marginais, sexo, drogas, barra pesada, etc. E são exatamente esses alguns dos temas dominantes na obra dos Stones. Pois é na rua o reino de Exu - 'O Povo da Rua' como dizem os macumbeiros - e essa é a verdadeira origem do famoso satanismo dos Stones. Tudo acontece simplesmente porque os meninos mataram a aula e ficaram na rua.
Milhões de adolescentes de todo o ocidente se identificaram ardentemente com os Stones e a visão violenta e juvenil, romântica e sarcástica, que eles têm da vida. Para os muitos jovens, a graça da vida está frequentemente apenas nos extremos: a exaltada fruição orgiástica, por um lado; a rebordosa dolorida e cheia de angústia, por outro.
Em outras palavras: a festa da meia-noite e o duro despertar, ao meio-dia. A arte dos Stones é feita dessa visão. Anjos da meia-noite, eles parecem promover, com seu rock, a festa final de uma cultura. "

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