Palavras Domesticadas

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domingo, 22 de janeiro de 2017

Chico Buarque - Primeiro Show (1966)

Em 1966 Chico Buarque faria seu primeiro show, chamado "Meu Refrão", na boate Arpège, no Rio. Na época Chico vinha de um sucesso retumbante, por conta de "A Banda", e já começava a despontar como uma grande revelação de nossa música. Em sua edição de 17 de abril de 2005, o jornal O Globo trouxe uma matéria sobre o show, por ter sido encontrada uma fita com o áudio do mesmo. A matéria é assinada  por  Hugo Sukman, e é intitulada "Quem É Chico Buarque de Hollanda?": 
" 'Quem é Chico Buarque de Hollanda?', pergunta, que dali a algumas semanas e para todo o sempre soaria completamente despropositada na boca de um brasileiro comum, foi a que o cineasta Antonio Carlos Fontoura fez assim que desembarcou em São Paulo, naquele dia de julho de 1966. É que ele ouvira no rádio, prestes a embarcar no Rio, um samba cantado por Alaíde Costa que lhe impressionara profundamente: 'Carnaval, desengano/Deixei a dor em casa me esperando...'.
O título do samba, o locutor foi claro, era 'Sonho de um Carnaval'. O autor: 'Chico Buarque de Hollanda!' Do Rio esse tal de Chico não era, bem sabia Fontoura, tão enfronhado no meio artístico local. Como a carioca Alaíde já era radicada em São Paulo, Chico deveria ser de lá, por isso Fontoura consultou amigos paulistas.
-É um estudante de arquitetura que faz música, filho do Sérgio Buarque de Hollanda - disse um deles.
Fontoura ligou para a casa do autor de 'Raízes do Brasil' para falar com seu filho  Chico.
- Naquele dia mesmo, Chico foi ao meu hotel, sentou à minha frente com o violão e cantou 18 músicas, entre as quais 'Olê Olá', 'Pedro Pedreiro', 'A Rita'. Meu queixo caiu - recorda-se, hoje, Fontoura.
De volta ao Rio, o cineasta está no camarim do Teatro Opinião, onde sua mulher, a atriz e cantora Odete Lara, e seu amigo Hugo Carvana participam da encenação da peça 'Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come', insistindo:
-Temos que produzir um show do Chico no Rio... - dizia talvez sem se dar conta da estranheza de um cineasta iniciante propor a dois atores a produção de um show de um compositor desconhecido.
Carvana foi enviado a São Paulo para finalmente acertar a vinda de Chico para o Rio.
-Ele marcou comigo no escritório de seu empresário na época, o Marcos Lázaro, na TV Record. Chegou atrasado, pedindo desculpas, dizendo que estava de ressaca. Mas me levou para conversar no botequim em frente. E bebemos muito conhaque. Pensei: Esse aí é profissa... - recorda-se Carvana o início de uma amizade que dura até hoje. - Ele topou e marcamos um novo encontro, desta vez no Rio, com Fontoura e a Odete. O Chico chegou ao Opinião dias depois, entrou pela porta dos artistas e ficou esperando terminar a peça. Naquela noite mesmo, fomos conversar sobre o projeto do show no velho bar Zeppelin, em Ipanema. Fomos Fontoura e Odete, minha mulher Marta e eu, Chico e a Marieta Severo, que também trabalhava na peça e conheceu Chico naquela noite.
Quando, na semana passada, um pequeno grupo de pessoas reuniu-se na casa do músico carioca Felipe Radicetti, no Humaitá, para ouvir o CD que ele enfim conseguiu fazer da velha fita de rolo que achou em seus guardados, ninguém sabia dessas histórias por trás da gravação. Apenas ouviam, encantados, a íntegra do show 'Meu Refrão', que estreou em setembro de 1966 na boate Arpège, no Leme, com Chico Buarque, Odete Lara e MPB-4.
O show seria marcante por tantos motivos. É o primeiro de Chico (então com apenas 22 anos) que em São Paulo se apresentava, mas em TV e em shows universitários. Marca seu encontro com o MPB-4, grupo que o acompanharia pelos nove anos seguintes. Marca sua mudança para o Rio, sua cidade natal, mas onde quase ninguém o conhecia (só poucos do meio musical e quem ia muito pra São Paulo), e onde se casaria (com Marieta, que Carvana lhe apresentara logo no primeiro dia) e onde ficaria para sempre. Seria, por fim, o último momento em que, antes do estouro de 'A Banda', Chico não seria tratado como um fenômeno, quase um mito.
- Antes de começar a temporada, Chico já dizia que num dia tal não poderia fazer o show, pois teria que ir a São Paulo participar de um festival - lembra-se Carvana - Era 'A Banda', que nós vimos pela TV, torcemos... Depois, em uma, digamos, jogada de marketing (risos), incluímos a música no repertório e mudamos o nome do show para 'A Banda'.
- Mas já era sucesso - lembra Fontoura. Chico conquistou a cidade em uma semana.
A gravação a qual o Globo teve acesso, inédita até semana passada, é dos dias seguintes à volta de Chico vitorioso com 'A Banda'. O público é delirante durante todo o tempo.
Mas o show em si, para além da dimensão histórica, é um impressionante retrato do artista quando jovem. Traz, no repertório, os sambas do primeiro disco de Chico, que seria lançado no fim  de 1966, e do segundo, 'Chico Buarque de Hollanda Vol.2', de 1967.
Do segundo disco, o MPB-4 canta a pouco conhecida 'Fica' (já bem no clima da época, dos versos 'Diz que eu sou subversivo/Um elemento ativo/Feroz e nocivo ao bem estar comum'), Odete Lara canta 'Será que Cristina Volta?' (na verdade parodiando para 'Será que Chiquinho volta?', como uma resposta a 'Odete levou meu sorriso...', Chico trocando 'A Rita', por 'Odete') e Chico e Odete lançam o dueto 'Noite dos Mascarados', feito para o show para o lugar 'Tamandaré', samba em que Chico ironizava a nota de cinco cruzeiros, que não valia nada e tinha a efígie do Almirante Tamandaré, patrono da Marinha, fora censurada (o primeiro da longa série de entreveros entre Chico e Censura).
Do primeiro disco, há desde os sucessos óbvios - 'Meu Refrão', 'Olê, Olá' (apelidado na época de 'Samba do padre' pelo verso 'Seu padre toca o sino...'), 'Pedro Pedreiro' - até grandes sambas de Chico inexplicavelmente esquecidos, como 'Você Não Ouviu' e 'Amanhã Ninguém Sabe', ou da canção 'Ela e Sua Janela', intricada melodia que Odete Lara desfia.
Mais obscura ainda é 'Malandro Quando Morre', samba da pré-história de Chico só gravado pelo MPB-4 e que tem nessa velha fita o único registro conhecido feito pelo autor.
- A intenção do show era revelar a obra do compositor - diz Fontoura. - Nós alugamos o Arpège, uma boate decadente que pertencia ao (organista) Waldir Calmon, e reformamos. O artista plástico Antonio Dias, sobre quem eu fiz um filme ('Ver Ouvir'), decorou a boate e fez o cenário. Ganhamos tanto dinheiro que todo dia eu saía do Arpège e ia comer caviar e beber vodka num restaurante russo no Posto 6, o Doubianski.
- Bebi o lucro do show e paguei a bebida para os amigos - confessa Carvana. - Tanto que depois me internei no Sanatório Botafogo para desintoxicar.
Ninguém sabia que o show fora registrado. Alguém gravou-o da cozinha. A fita de rolo, de ótima quaklidade, foi passada a Radicetti (que além de compositor  é organista) por um amigo organista que já morreu. Pode, tecnicamente, virar precioso disco. Os arranjos de Magro são ótimos, tem Raul de Barros no trombone, o niteroiense Balu na flauta, Miltinho e Chico nos violões.
Chico ainda não ouviu. O pessoal do MPB-4, já.
- Éramos inexperientes, mas bem ensaiados. O resultado é bonito - atesta Magro.
No mínimo, a gravação pergunta e responde 'quem é Chico Buarque de Hollanda?' "

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