Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Odair José Lança Ópera-Rock (1977)

Odair José foi, nos anos 70, um dos grandes vendedores de discos do Brasil. Apesar do preconceito por parte de setores mais elitistas, o trabalho popular de Odair era olhado com respeito por uma parcela do público consumidor da boa música que era produzida no Brasil no período. Alguns colegas artistas, como Caetano Veloso, não poupavam elogios ao trabalho de Odair, a ponto do compositor baiano tê-lo convidado a dividir o palco em seu show no evento Phono 73, causando estranheza em parte de seu público.
Para surpresa de  muitos, em 1977, Odair José resolve lançar uma ópera-rock, chamada "O Filho de José e Maria". Odair, numa atitude ousada resolvia sair de sua zona de conforto, num período em que ainda era um bom vendedor de discos, e contrariando sua gravadora, resolve se aventurar numa área não habitual de seu público, após sete discos lançados. A revista Música nº 13, de 1977 trazia uma matéria sobre a nova aventura e Odair:
"Acompanhado por seus músicos, duas vozes femininas, cenário (apenas um estandarte) de Rodrigo Argolo, que também é o responsável pelos figurinos, grandes efeitos de luz, Odair José já apresentou sua ópera-rock, 'O Filho de José e Maria' em várias cidades - Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Campina Grande e Belo Horizonte. Esse é o seu primeiro trabalho com o empresário Guilherme Araújo.
'Sempre tive vontade de fazer um trabalho popular', comenta Guilherme. 'Ligado a artistas da chamada elite eu não sabia se devia fazer um novo trabalho mais ligado ao samba ou à música romântica. Foi quando conheci Odair José, vi o que ele estava compondo e gostei.'
Com seu novo contrato, Guilherme, que participou ativamente do tropicalismo, tendo sido responsável durante alguns anos pelo trabalho do chamado grupo baiano, lança agora, se não um movimento, um novo rótulo na praça - o rock-cordel, nome escolhido para o novo trabalho de Odair José. E o que é esse trabalho? Uma história, contada através de 18 músicas, que mais se aproxima da linguagem utilizada nos dramas levados ainda hoje nos picadeiros de circos em cidadezinhas do interior, do que o pomposo e desgastado nome - ópera-rock - escolhido pelo próprio Odair José para designar esse espetáculo que ele começou a mostrar em teatros e estádios do Norte e Nordeste.
A história tem o nome de 'O Filho de José e Maria', e teve sua estreia nacional no dia 17 de junho, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, e já foi lançada (não totalmente, apenas 12 músicas) no primeiro elepê de Odair José em sua nova gravadora, a RCA, e ainda não tem marcada a sua apresentação nos chamados grandes centros, Rio e São Paulo. E o que ela conta? Segundo seu autor, é a história de um jovem que sai de casa e procura encontrar o amor, o sentido da vida e da própria morte. Autobiografia? Ele diz que não, embora tenha muita coisa para contar sobre sua vida, sua chegada ao Rio, noites passadas em bancos de praças e areia da praia, guitarrista de inferninhos da Lapa, morador da Casa do Estudante (ele foi fazer o que na época era chamado de Artigo 99, o científico em um ano), frequentador do extinto restaurante Calabouço.
Nascido em Morrinhos, cidade a 100 quilômetros de Goiânia, na infância chegou a formar com um amigo uma dupla caipira. Aos 16 anos, foi retirado de dentro de um ônibus que seguia para São Paulo, 'onde eu queria tentar fazer o meu trabalho', pelo seu irmão mais velho. No ano seguinte, 66, conseguiu permissão da família para 'tentar a sorte no Rio de Janeiro, como músico'. Mas só em 1970 conseguiria gravar seu primeiro disco, tendo nesses quatro anos feito de tudo para viver. E como integrante da 'Grande Orquestra de Bob Lane', o guitarrista Odair José viajou pela América do Sul, foi para a Europa - na Espanha o grupo fazia apresentações antes das touradas - e conseguiu, finalmente, realizar seu grande sonho: conhecer Londres, a cidade onde pretende morar, a partir de 1979.
Com sete elepês gravados, 3 milhões de discos vendidos, ele diz que entre suas frustrações inclui o fato de 'não ser um cara dotado de genialidade, pois eu gostaria de fazer as letras que o Chico Buarque faz'. E, aos 28 anos, separado da mulher, a cantora Diana, pai de uma filha, Odair reconhece que 'a solidão é uma coisa que me incomoda muito'.
'Mas eu sou uma pessoa muito sonhadora', acrescenta. 'Criei um mundo para mim, nele tudo é possível, nada é proibido. Nesse mundo, tudo que eu faço é bom, mesmo os meus defeitos. Não gosto de viver em gaiola, de perder a minha liberdade, por isso pretendo continuar só, até quando, não sei. Quando vejo um pássaro preso numa gaiola, tenho vontade de soltá-lo, de deixá-lo voar ao menos durante dois minutos, pois para o voo é que ele foi feito.
Com imagens simples como essa, Odair José vai falando do que gosta, do sucesso, do trabalho de outros artistas,de suas ambições. Apartamentos? Não tem muitos.
'Nunca pretendi ser um Sérgio Dourado', observa. 'Cheguei a comprar um apartamento na Delfim Moreira, Rio, mas logo vendi, as prestações eram muito caras. E para quê continuar morando nele, se eu não poderia realizar minhas vontades, comprar meus instrumentos, aparelhagem de som? Sei que o sucesso é uma coisa perigosa. Mas, ao mesmo tempo, ele é uma coisa incrível, sabe? Ele se torna perigoso se você não tiver uma consciência de sua posição diante da vida. Eu sempre acreditei em mim, então eu o recebi como uma coisa gratuita, mas sim como algo conquistado. Agora, o perigo é ainda maior, se o cara começa a misturar o que ele é realmente com aquilo que as pessoas pensam que ele é, ou o que ele faz. É preciso ter a consciência de que as pessoas gostam do que você faz e não de você pessoa, igual a todas as outras.'
Seus planos incluem, como um velho sonho, a criação de uma gravadora própria, 'onde eu possa fazer meu trabalho e dar chance a bons músicos'. Até o final do ano, Odair José pretende também lançar um novo disco, acompanhado por uma banda que ainda está formando. O disco terá o título de 'Os Fora da Lei', 'porque pretendo fazer um trabalho muito aberto, no campo musical, gravando samba, rock, caribe'. Em 78 ele não quer gravar, talvez apenas soltar o disco com a gravação ao vivo de 'O Filho de José e Maria'.
'Quero também voltar a estudar música. Durante seis anos estudei piano e gostaria de ser um bom músico. O primeiro instrumento que toquei foi um cavaquinho, que ganhei de presente do meu pai, quando eu tinha sete anos. Sei que não sou aceito em várias áreas e por diversas pessoas. Tudo isso porque a elite sempre escolhe e até cria os artistas que ela quer ter para o seu próprio consumo. Por isso foi que houve aquela vaia na Phono 73, quando cantei junto com Caetano. A elite se sentiu ameaçada pela minha presença, ela foi contra o encontro de um cantor como Caetano - o cantor e o compositor que ela sempre quis só pra ela - comigo, um cantor popular, do povão. Mas isso tudo é uma coisa que eu sei e da qual não guardo raiva, porque o que e interessa é colocar para fora, através das minhas músicas, essa coisa que fala dentro de mim.' "

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