Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Caetano Veloso e o Rock - Jornal do Brasil (1997)

Em 1997 Caetano Veloso lançou o livro Verdade Tropical. Na ocasião, em sua edição de 26/10, o caderno cultural do Jornal do Brasil (chamado Caderno B) fez uma edição especial somente falando do recém-lançado livro. Dentre os vários depoimentos e matérias, um deles fala sobre a relação de Caetano com o rock. O jornalista cultural Jamari França destaca o que Caetano fala sobre sua relação com o rock ao longo do livro. A matéria é intitulada "A rejeição e o desafio do rock, de Elvis a Raul":
"Caetano Veloso tem uma relação conflituada com o rock ao longo das 524 páginas de Verdade Tropical. Demonstra uma estranheza inicial em relação ao rock pela estrutura musical primária, se comparada ao universo do jazz e da bossa nova de João Gilberto, a quem chama de 'mestre supremo'. Mais adiante, tem sua atenção despertada para a Jovem Guarda através da irmã, Maria Bethânia, que lhe apontou a 'vitalidade' de Roberto, Erasmo & Cia.
O fascínio chegou ao ponto de ele transformar uma música concebida como marchinha, Alegria, Alegria, num rock tocado pela primeira vez com o grupo argentino radicado em São Paulo The Beat Boys no reduto sagrado da MPB tradicional, o festival da TV Record. Fala Caetano: (...) 'Enquanto o meu currículo era anunciado pelos apresentadores, os Beat Boys (...) apareceram no palco para ligar seus instrumentos e tomar posição, surpreendendo a plateia com seus cabelos longos, roupas cor-de-rosa e guitarras elétricas de madeira maciça. Iniciou-se uma vaia irada que eu interrompi entrando em cena com uma cara furiosa antes que meu nome fosse anunciado, o que assustou locutores, diretores, produtores e público. (...) O curto silêncio que se seguiu ao meu surgimento foi interrompido pela voz da apresentadora dizendo meu nome e, quase sem intervalo, pelas guitarras e bateria, que atacaram a introdução. Os três acordes perfeitos, executados por instrumentos elétricos, se impuseram, e o silêncio da plateia, conquistado pelo susto da minha entrada não foi mais ameaçado; o que seria uma tumultuosa vaia se transformou em atenção redobrada. E a canção caiu no gosto dos ouvintes, que terminaram aplaudindo com entusiasmo.' Caetano hoje queixa-se de não ter-se livrado de Alegria, Alegria como Chico Buarque se livrou de A Banda. Não devia fazer isso: Alegria é a sua Satisfaction.
Caetano acabou tendo uma preferência escancarada por Roberto e Erasmo, os principais nomes do que se chamava na época de iê-iê-iê, nome inspirado no coro de um dos sucessos dos Beatles, She Loves You (yeah yeah yeah). E os tropicalistas tiveram completa adoração pelos Mutantes. 'Os Mutantes, ainda semi-amadores pareciam não copiadores dos Beatles mas seus pares criativos na mesma linha. Quando (o maestro Rogério) Duprat os apresentou a Gil, este comentou comigo assustado: 'São meninos ainda e tocam maravilhosamente bem, sabem de tudo, parece mentira.' A banda de Rita Lee, Arnaldo e Sérgio Batista foi das primeiras formações brasileiras a colocar diversos gêneros musicais no caldeirão dos experimentalismos.
Um conterrâneo de Caetano, Raul Seixas, foi na mesma linha, mas a postura de rocker dos anos 50 lhe tirou a credibilidade diante de Caetano: 'No fim da primeira metade da década de 60, enquanto Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Alcivando Luz, Djalma Correia, Tom Zé e eu ensaiávamos uma antologia de clássicos da Música Popular Brasileira dos anos 30 aos 50, algumas obras-primas da bossa nova e algumas canções inéditas compostas por nós mesmos para apresentar na inauguração do Teatro Vila Velha, (...) Raul Seixas ensaiava covers de rocks americanos para cantar no Cine Teatro Roma. (...) Ao contrário de Erasmo, Raul tinha ambições estéticas cuja natureza não facilitava uma receptividade por parte das gravadoras: ele só veio a tornar-se nacionalmente conhecido como cantor e compositor depois da onda do neo-rock'n roll inglês e, sobretudo, depois do Tropicalismo.' Caetano diz que ele e sua turma tinham uma aceitação maior junto aos formadores de opinião, provocando ressentimentos em Raul, que era bem aceito pelos jovens mas rejeitado pelos intelectuais e Mr. Veloso reivindica a preparação do terreno para Mr. Seixas: 'Raul sabia de nós tanto quanto nós dele. Possivelmente mais. E se suas queixas quanto à nossa atitude esnobe eram fundadas e justificadas, ele próprio deixava ressurgir o tom agressivamente irreverente com que ele e sua turma se referiam à 'turma a bossa nova' (...) Nós éramos os inventores do Tropicalismo (que) tinha trazido o rock'n roll pra o convívio das coisas respeitáveis, o que fora decisivo para que Raul pusesse em prática suas ideias (...). 'É bom lembrar que essa hostilidade aconteceu nos anos 60, depois houve uma aproximação e cumplicidade entre tropicalistas e Raul.
Quando ouviu as  primeiras manifestações do rock, Caetano rejeitou-as como muito primárias - ele diz que, se dependesse dele, Elvis Presley jamais seria uma estrela -, adotando uma postura intelectual underground, numa espécie de versão tropical dos beatnicks. Em termos musicais, ele cita alguns músicos que Jack Kerouac, por exemplo, menciona como favoritos no livro On The Road, como Thelonius Monk, Miles Davis, Chet Baker e Billie Holiday.
Nos anos 70, Caetano anuncia que seu som era frequentado por alguns biscoitos finos da música internacional, como o revolucionário e anárquico grupo Mothers of Invention, liderado por Frank Zappa, o então pouco conhecido bluesman John Lee Hooker, que só nos anos 90 conseguiria sucesso de massa, o grupo The Doors, liderado pelo devastador Jim Morrison. Claro que não faltava a admiração pelos  Beatles, especialmente por músicas como Strawberry Fields Forever, apontadas como modelos a seguir."

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