Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sergio Dias Fala Sobre o Flower Power (Parte 3)

"Contudo, o sonho também foi uma grande utopia. Você não pode buscar um sonho em LSD, por exemplo. Ou ele vem concreto ou é apenas um sonho. Todos tiveram de cair na real quando começaram a ver os amigos se perdendo e a potencialidade negativa do LSD, que na verdade era uma grande farsa. A gente não foi feita para viver naquele universo lisérgico. Tudo parece muito bonito, lindo, mas quando você vê o Hendrix morrer percebe que grande idiotice é isso. Não posso compactuar e dizer: 'Nossa, que gênio, morreu quando estava no auge' O cacete, meu! Queria que ele estivesse vivo, arrebentando a minha cabeça com sua música. Outra enorme babaquice foi a Janis Joplin ter se destruído daquela maneira. São egos que foram completamente devastados. Brian Wilson, Syd Barret... Quanta dor e desperdício. Esse foi o lado triste da coisa.  Meu irmão (Arnaldo Batista) com toda a problemática, que foi estupidamente terrível para todos nós. Foi uma das maiores dores da minha vida. O Timothy Leary estava certo quando foi ao Senado americano pedir que só fosse distribuído LSD puro, de empresa Sandors, que não fosse misturado com outras substâncias ou feito sem nenhum controle. O uso de LSD deveria ter sido regularizado e analisado com mais cuidado.  Mas, com toda aquela busca pela liberdade, ninguém queria saber de controle, ainda mais sobre os efeitos do ácido lisérgico.
Cartela de LSD (Liserge Saure Diethylamid)
Além disso, havia a inexperiência, a falta de conhecimento, que é comum entre pessoas tão jovens. Para tudo você precisa de alguém mais experiente. No México, se você for tomar peiote, vai achar um guia para te acompanhar. Com a ayahuasca é a mesma coisa, tem sempre um mestre te acompanhando. Mas o LSD era dez vezes mais potente e não tinha ninguém pra te guiar. É a mesma coisa que pegar um garoto de 15 anos e lhe dar um Ferrari de Fórmula 1. Ou ele é muito bom e não passa da segunda marcha ou ele simplesmente morre.
A maior problemática que aconteceu com essa postura radical da juventude, com a quebra das estruturas tradicionais, foi não colocar nada em troca depois dessa devastação cultural. O sonho dançou por questões práticas e técnicas. O americano não é comunista, como ele iria realmente dividir as coisas? Acho que a vida comunitária não é muito praticável em lugar nenhum. A humanidade é individualista e necessita de altos e baixos, líderes e povo, índio e cacique. Senão não tem essa beleza. O que seria da gema sem a clara?
Mas a herança daquele tempo é positiva e incalculável. O mundo sofreu uma reviravolta da qual não vai se recuperar tão cedo. O final dos anos 60 veio para ficar, mesmo que o John Lennon tenha dito que o sonho acabou.
Os Mutantes, por exemplo, têm uma projeção mundial hoje com a qual jamais sonhou. Não houve tantas coisa simultâneas acontecendo nas outras décadas. Quando os Beatles lançavam um disco, o mundo parava para ouvir. Quem viveu o crescimento musical de todas essas bandas, ano a ano, disco a disco, é privilegiado. O rock era extremamente forte na época. Miles Davis e John McLaughlin foram ouvir rock porque era impossível ignorá-lo. Como o McLaughlin poderia ouvir Jimi Hendrix e deixar passar em branco?
A profundidade do rock era imensa, absurda. 'Eleanor Rigby', dos Beatles, por mais pop que seja, faz você cair de costas. Um músico de jazz que escutar essa música vai pensar muito antes de julgar como uma coisa de garoto. Nada disso. A harmonia de 'Julia', do Lennon, é incrível. Os gêneros musicais não tinham outra opção a não ser olhar para o rock'n roll. Sou um enorme privilegiado por ter vivido esse período. Sou resultante disso tudo."

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