Palavras Domesticadas

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domingo, 30 de junho de 2013

Celso Blues Boy - Jornal Rock Press (1984)

O cantor, compositor e guitarrista Celso Blues Boy, falecido no ano passado, deixou sua marca no rock brasileiro. Surgido em plena safra de artistas e bandas que se destacaram nos anos 80, Celso fazia um trabalho diferenciado, mais voltado ao blues - uma vertente em que poucos se destacaram naquele período,  Celso acabou se tornando um de nossos maiores representantes desse gênero. Abaixo transcrevo uma matéria com Celso, publicada no jornal musical Rock Press nº 2 - novembro de 1984, assinada por Silvia Camargo:
"Celso Blues Boy é um cara comum. Celso Ricardo Furtado de Carvalho é que é um cara especial. Alguém que já nasceu com as antenas ligadíssimas no mundo, que aos 6 anos já ouvia e gostava de Ray Charles e que aos 15 pediu; 'uma guitarra ou a morte'. Alguém que próximo aos 13 anos de carreira (Celso tem 28), nunca abriu mão de tocar entre amigos: 'Sou afetivo', costuma dizer, 'todos tem que ter muito sentimento pela música e pelos que estão em volta para ficarem comigo'. Um cara místico, leitor de textos sobre 'seres elementares', algo cujo princípio é crer 'que todos os seres têm vida', cujos segredos estão contidos na obra fundamental de sua vida: O Senhor dos Aneis, do inglês Tolkien. Isto além de vascaíno e corintiano doente, fissurado por Fórmula Um. Desquitado, sem filhos, casado uma três vezes, Celso é capricórnio com ascendente em capricórnio, e isso o torna - como no símbolo do carneiro que não olha em frente, mas que sempre segue com seus chifres em riste - um completo obstinado.
Celso Ricardo se uniu definitivamente ao Celso Blues Boy quando, desistindo 'do clima frio que era tocar na banda dos outros', abriu mão de tudo (inclusive da grana) para brigar por sua carreira solo estourando agora com seu primeiro Lp solo (Som na Guitarra- Polygram).
'Conheço Celso Blues Boy, meu lado profissional, melhor do que conheço o Celso Ricardo. Pouco sei de mim. O único momento em que me sinto eu mesmo é quando componho ou ouço uma coisa de que gosto muito. A música é nosso ponto de de intercessão. Por isso é que se eu não for guitarrista, não sou nada...'
Celso Blues Boy está do jeito que gosta: sentado num bar, bem vazio e tranquilo, bebendo cerveja. Os amigos o cumprimentam, ou param para uma conversa mole. O telefone - apesar de público - já é praticamente seu. Uma extensão de sua casa:
- Aqui é o melhor lugar para se fazer entrevistas, explica.
Não que ele tenha medo, ou deteste. Só fica apreensivo diante de tantas perguntas:
'Acho esquisito alguém sentar aqui e, em pouco tempo, querer saber de minha vida'.
Mas pior do que isto, para ele, são as fotos: verdadeiras sessões de tortura.
- Este negócio de fotos fala muito do lance de ídolo, estrela. E eu não sou isto. Sabe, muita gente não toca bem, mas opta por ser estrela. Daí a produção, os climas. O cara veste uma camisa do que não é. No dia em que eu me tornar uma estrela, prefiro sofrer uma morte rápida...'
Neste ponto o Celso Ricardo cuida do Celso Blues Boy. Não deixa que ele ganhe ares estranhos ou saia por aí fazendo caras e bocas. 'O público sabe o que eu tenho para dar e eu também sei o que eles querem de mim'. Diante de qualquer tentativa de mistificação, cuidado, poranto: certa vez Blues Boy foi assediado por um garoto nos camarins, que pediu para ficar com a guimba de seu cigarro e uma lata de cerveja. Blues Boy ficou impressionado. Abraçou-o, tirou uma corda de sua guitarra, que deu junto com a palheta e o conselho:
'Não faça isso, cara, não é bom pra mim, nem pra você...' O mesmo quando vieram lhe pedir um botão de sua camisa.
A comunicação entre eles, público e Blues Boy, é sempre feita diante das músicas: 'No meio do som eu sempre os sinto próximos, ali, me admirando', explica Celso. Um público que tem de tudo: new wavers, rock'n rollers, heavy metals. Mas, principalmente, amantes da guitarra. Gente que sempre para diante do solo de Blues. Isto num país em que, dizem: 'O instrumento é desconsiderado'. Mas, no que Celso pensa mesmo, quando está compondo?
- Ou estou completamente depressivo, ou muito bem-humorado. Aliás, eu sou mesmo assim. Ninguém entende melhor a minha dor do que eu mesmo. Às vezes quando componho um heavy estou triste, às vezes irado, indignado, rancoroso. A única coisa que exige de mim um clima não depressivo é o rock'nroll, porque rock com letra de blues não existe...'
Como seu próprio nome diz, tudo em Celso Blues boy é um estado de alma. Blues é um estado de alma. Por isto Blues Boy detesta demarcações, rótulos, limites, províncias:
- Nunca me considerei um brasileiro ou um estrangeiro. Nasci na Terra, e isto basta. Interiormente sempre fui um cidadão do mundo. Por isto dizer que samba ou blues são brasileiros não existe. Música é arte, e, se apropriar de arte como regionalismo, é pobre. O bairrismo geográfico atrasa tudo, sabia? É causador até de muita tristeza...'
Porque então o blues ou o rock foram pouco ouvidos em certas épocas, e só agora ganham mais atenção? Numa visão mais estreita, para Celso, simplesmente 'porque a tribo errada de colonizadores veio pra cá'. Num sentido mais amplo, no entanto, ele vê tudo 'explosões de música'. Flashes periódicos que acontecem aqui e ali e que, agora, estão recebendo melhor atenção.
- A coisa acontece de tempos em tempos. Em 1977, por exemplo, no meio da discotéque e de todos aqueles patins, existiu o Apaloosa, um reduto de público compatível e fiel, onde criamos o Aero Blues e onde caras como Marcelo Sussekind e Renato Ladeira se apresentavam. Hoje, vemos uma explosão maior talvez, mas apenas em termos numéricos. Tudo ainda está se criando, para daqui a duas gerações, os novos ouviram realmente, a essência do rock..."

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