Palavras Domesticadas

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sábado, 19 de janeiro de 2013

Entrevista de Belchior ao jornal O Pasquim - 1982

O compositor Belchior anda recluso ultimamente. Mais do que recluso, está desaparecido mesmo. Após um sumiço recente, quando num trabalho jornalístico quase detetivesco, foi encontrado numa cidade do Uruguai, Belchior sumiu novamente. Mas anos atrás, ao contrário, ele era uma figura fácil na mídia, e com uma agenda lotada, desde que estourou em 1976, após a gravação de "Como Nossos Pais" e "Velha Roupa Colorida" por Elis Regina em seu disco "Falso Brilhante", e depois, quando ele gravou seu segundo disco, "Alucinação", que fez um sucesso enorme Brasil afora.
Em junho de1982, ainda no auge do sucesso Belchior concedeu uma longa entrevista ao jornal O Pasquim, que se notabilizava por suas boas entrevistas. Participaram da conversa Jaguar, Ricky, Haroldo Zager e Mara Tereza. Como se trata de uma entrevista longa, reproduzirei abaixo alguns trechos:
" Jaguar - Belchior, a primeira vez que te vi foi em 72, 73, batendo papo na casa de Sérgio Ricardo (cantor e compositor), você bem tipo retirante. Tomamos uma cachacinha e armamos o negócio do Disco de Bolso, que foi o teu lançamento como autor.
Belchior - Bom, eu tinha vindo pro Rio de Janeiro em 70-71. Sou do norte do Ceará, do Sobral. Família nordestina típica de 23 filhos. Nordestino trabalha de dia e de noite: de dia no arado e de noite na aranha. Sou o 13, o galo. Vivo de canto e beleza. Meu pai pretendia fazer os 25 bichos (se referindo ao jogo do bicho), mas parou no 23, o urso, porque não queria viado nem vaca. Mas é interessante isso de ter muitos irmãos. No meu caso, destinado à vida artística, já tinha plateia em casa.
Ricky - Quantos ficavam do lado do palco?
Belchior - Ninguém se dedicou profissionalmente à arte. Meu avô, um coronel do sertão, tocava sax e flauta. Minha mãe cantava no coro de igreja. Foi ouvindo eles, as músicas de violeiros, o serviço de alto-falante, que comecei a gostar de música. O alto-falante era uma maravilha, sonorizava toda a amplidão do sertão.
Ricky - De onde vem esse nome 'Belchior'?
Belchior -  Meu nome é Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, portanto, um dos grandes nomes da música popular brasileira. Carlos Gomes foi em homenagem ao compositor campineiro, e Belchior é um nome tradicional no Nordeste. No meu caso italianizei um pouco, porque normalmente você pronuncia Belshió, mas quando cheguei na universidade o pessoal começou a a me chamar de Belquiôr, e aí achei interessante.
Ricky - Vamos falar do lado religioso de sua vida.
Belchior -  Estudei muito tempo em colégio de padre, em Fortaleza, no Sobral, e, dois anos como noviço franciscano, num mosteiro no interior do Ceará. Nesse tempo completei o curso de Filosofia, o que foi muito importante, tendo aprendido latim, pois podendo ler os textos no original me desvencilhei de todo o entulho religioso que até ali tinha atravancado minha cabeça. Ainda hoje leio os textos religiosos tradicionais - Bíblia, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho - em latim.
Ricky - Você participou do movimnto estudantil de 68?
Belchior - Participava, mas de de forma alternativa, achando que devia seguir outro rumo, pois era voltado à própria instituição, quando cabia ao universitário repensar todo o ato político brasileiro naquele momento. Por exemplo: eu achava que cabia aos estudantes pensar as alternativas para uma mobilização política que não fosse capitalista ou socialista. Queria uma experiência anarquista, no sentido mais rígido da palavra, uma experiência desordenadora. Imaginava que podíamos aproveitar a oportunidade do movimento estudantil pra ser algo mais que caudatário do movimento político institucional. Pretendia uma coisa mais concreta e inovadora que fazer passeatas de 'abaixo o imperialismo'. Mas ao ultrapassar o movimento retórico fui vencido.
Ricky - O pessoal de 68 continuava agindo como nossos pais?
Belchior - Ah, minha música colocou isso de modo mais nítido e possível. Acho o seguinte: sem prática anarquista, não dá pra reformar ou transformar as sociedades. Mesmo nas democracias, existe excesso de poder. O Governo deve ser um organismo de serviço e não de autoridade. O critério de manutenção do poder deve ser a competência em prestar esse serviço. Devemos lançar fora esse negócio de carisma, de visão mística da autoridade, ligada a preconceitos religiosos antigos. A visão contemporânea do poder hoje é a visão contemporânea do poder hoje é a Pax Mercatoria, a paz dos interesses.
 Ricky - Como foi sua chegada no Rio?
Belchior - Passei dez dias em Fortaleza esperando oportunidade de viajar pelo Correio Aéreo Nacional. Como tava muito cabeludo, o comandante disse que eu não podia viajar em avião que comandava, e tive que descer em Salvador e cortar o cabelo. Não conhecia ninguém no Rio de Janeiro, sequer a cidade.
Ricky - Você continua apenas um rapaz latino-americano?
Belchior -  Claro, sou um brasileiro comum.
Ricky - Só que agora com dinheiro no banco.
Belchior -  Não é bem isso. Eu não confiaria nos bancos a esse ponto., né. Ainda tenho uma formação brechtiana.
Ricky - Cearense é como mineiro, quer guarda dinheiro no colchão?
Belchior - As pessoas que falam em guardar dinheiro não sabem ou se esquecem de que existem os charutos perfumados, as mulheres bonitas, os bons vinhos, de que é importante a gente ver o Oriente, a Europa, e de que a acumulação do dinheiro, além de ser chato, não tem mais significado numa sociedade contemporânea de serviços e de comunicação eletrônica veloz.
Jaguar - Queria que você desse sua opinião sobre aquele crítico que tem nome de planta venenosa, o Tinhorão?
Belchior - É um arqueólogo da música. Gosta de coisas que já passaram, do lado histórico. Gosta de visitar os museus da MPB. Isso é importante. Agora, pessoalmente, não estou a fim de morrer ou de envelhecer pra ser querido pelo Tinhorão.
Jaguar - Quem é o melhor letrista da MPB?
Belchior - Caetano Veloso, o autor da modernidade musical do Brasil. Junto com Chico Buarque, Gilberto Gil e Jorge Ben.
Jaguar - E Vinícius? 
Belchior - É a figura mais fantástica da MPB: abandonou a diplomacia e a poesia institucional para ser o grande trovador do cancioneiro popular. Está ao lado de Newton Mendonça, Tom Jobim e Toquinho. Ele amou o que fez. As pessoas tem se esquecido de que a Arte é um exarcebamento do Amor. A Arte é uma forma de exuberância. A gente faz cartum, música, letra, quadros, porque nosso amor é demais. A minha participação também na estética do Brasil é porque amo muito. E é incrível agente ganhar muito dinheiro com aquilo que ama."

27 comentários:

  1. Fantástica entrevista e texto. Grande Belchior, um cara mais jovem e moderno a cada ano que vivemos. Muito obrigado pela entrevista! Adoraria ver o texto na íntegra.
    Abraços

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  2. Obrigado pelo comentário. Belchior é realmente uma grande cabeça. A entrevista é bem interessante, mas como é muito longa, selecionei apenas alguns trechos.
    Abraço

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  3. Caro, sou pesquisadora da obra de Belchior. Já procurei essa entrevista, mas não achei. O senhor poderia por favor me enviar por e-mail o texto integral? Meu endereço é josyteixeira@usp.br. Obrigada!

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  4. Cara Joseli, assim que puder providenciarei seu pedido.
    Um abraço

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    1. Oi, Márcio, qual seu email pessoal? Te agradeço muito. Preciso colocar a referência dessa entrevista em minha tese de doutorado.
      Veja: http://www.usp.br/agen/?p=131730

      Abração!

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    2. Márcio,como vai? Estou na mesma situação que esteve a Josely, sou pesquisadora do Belchior e preciso desta entrevista.Pode me mandar também? Meu e-mail é melissa.vel@hotmail.com

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  5. Meu email é marcio.aquinorj@uol.com.br. Vou dar uma lida em sua tese.
    Abraço

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  6. Tristeza é colocar o nome de Belchior no Google e encontrar ""notícias"" de "dívida no Uruguai" até a página 10. Alegria é encontrar essa entrevista!

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  7. Realmente. É triste ver que um fato envolvendo a vida particular de um de nossos mais representativos artistas ganha destaque sobre sua obra. Obrigado pelo comentário

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  8. Que maravilha de postagem. Bem que eu queria ler essa entrevista na íntegra, mas nem no último volume daquela antologia do Pasquim deve ter. Valeu, Márcio. Keep on truckin

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  9. Valeu pela visita e pelo comentário.Abraço

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  10. Belchior é o cara!!!!na minha opinião melhor do que Roberto Carlos que tinha Erasmo ao seu lado p fazer suas musicas!!!

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  11. Belchior está vivendo sua anarquia pessoal. Está dando uma lição em todas as formas de poder.
    Pena que as pessoas não enxergam isso.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Belo comentário, amigo... 👏

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    4. Belo comentário, amigo... 👏

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    5. Certa vez vi alguém comentando que Belchior estava em uma prisão (mental) que ele mesmo tinha criado, bom discordo dessa opinião a meu ver ele talvez tenha apenas se libertado.

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    6. Às vezes é bem difícil se entender o que se passa na cabeça das pessoas. Espero apenas que a decisão de sumir do cenário o esteja fazendo feliz. Obrigado pelo comentário

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  12. Parabéns por este arquivo! Tive p prazer de comprar este Pasquim e a manchete, era " O maior nome da MPB, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes", tive durante muitos anos esta entrevista em meus guardados porém, mudanças e mudanças e perdi!
    Se você puder disponibilizar esta sua preciosidade inteira muito ajudaria aos novos fãs deste incrível homem.
    Um abraço

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  13. Obrigado. A entrevista era bem longa, e eu a resumi, mas é muito boa. Vou postar outra matéria com Belchior, em várias partes. Abraço

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  14. Encantador e lendário, querido Belchior!

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  15. Obrigado pelo comentário, Claudia. Belchior foi genial

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  16. Também gostaria da entrevista. Lélio Falcão - falcaoll@terra.com.br. Fantástico Belchior, muito a frente de seu tempo.

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  17. Por favor se puder me mande a entrevista integral.Preciso para uma pesquisa.Meu emai: arlinďenor@Gmail. Com. Desde já agradeço. Arlindenor

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