Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

The Who - The Kids Are Allright


Para qualquer fã do The Who, é imprescindível assistir ao documentário The Kids Are Allright, o filme definitivo sobre a banda. Em 1980 foi lançado nos cinemas, e nos anos 90 saiu emVHS, e com certeza deve ter uma versão em DVD.
Na ocasião de seu lançamento o jornal quinzenal Canja, em sua edição de nº 11, de 20 de agosto a 3 de setembro de 1989, trazia uma resenha da obra, escrita por Kid Vinil.
Segue abaixo o texto:
"A música já quase nos acordes finais, quando a bateria de Keith Moon, com o bumbo cheio de pólvora, explodiu. Só que desta vez foi diferente: o lunático baterista subornou o o encarregado da montagem para que colocasse mais pólvora que o programado. O homem caprichou. Colocou dez vezes mais. A explosão atirou Keith por cima da bateria, os pratos voaram, cortando seu braço. Pete Townshend recebeu todo o impacto da explosão e teve o ouvido seriamente afetado. Os monitores e as câmeras de tv partiram-se em milhões de estilhaços.
A abertura dessa obra-prima, The Kids Are Alright, ou Os Garotos Estão Numa Boa (de longe, de todos os filmes de rock 'n roll da face da terra o mais fantástico e sensacional) não podia ser mais feliz: o palco era o show de televisão The Smothers Brothers Comedy Hour. O ano, um dos mais insanos de que se tem conhecimento na caminhada da Humanidade, 1967. The Who - o filme conta 15 anos de sua história - executava My Generation, com todos os efeitos possíveis e imagináveis daqueles crazy days: bombas de fumaça, milhares de cintilantes spotlights, guitarras, amplificadores e microfones sacrificados em nome da anarquia e do rock'n roll.

Os Garotos Estão Numa Boa é atualmente um dos cinco filmes de rock que vêm arrepiando as plateias norte-americanas e europeias. Talvez eles cheguem até o Brasil, talvez não. Depende da boa vontade das exibidoras vocês assistirem a essas alucinantes maravilhas da sétima arte. Desde o momento em que você compra seu ingresso à saída da sala de espetáculos. Os Garotos Estão Numa boa soterra os espectadores em toneladas de watts de excitação e a comoção gerada por ele exige pelo menos uma vidraça estilhaçada, ou seu coração saltará boca afora.
A história do The Who, um dos grupos mais conscientes da música contemporânea, conta desde uma obscura apresentação num clube londrino, em 1965, ao último concerto com o tragicamente desaparecido Keith Moon, nos estúdios de Filmagem Sheppererton, com as imagens desfilando perante nossos olhos estarrecidos e na maioria das vezes, rasos d'água.
É um clima de devastação que permanecerá por mais de duas horas na tela, fornecendo argumentos para os fiéis fãs do The Who confirmarem, orgulhosos, que eles são a maior banda de rock'n roll do universo. E se era devastação que o diretor Jeff Stein queria mostrar, ele não poderia deixar de incluir em seu documentário as antológicas apresentações nos festivais de Monterey e Woodstock, onde Townshend, Daltrey, Moon e Entwhistle consagram-se como estrelas de primeira grandeza no firmamento do rock. Esses dois memoráveis concertos dentro do contexto de Os Garotos Estão Numa Boa causam tanto impacto, que eu mesmo vi, com esses olhos que a terra há de comer, dezenas de teenagers se urinarem de tanta emoção.

Mas é nas três últimas canções, My Generation, Won't Get Fooled Again e Long Live Rock que Jeff Stein brilhantemente sintetiza toda a mensagem do documentário, que é o recado do mais lúcido dos grupos de rock, tudo o que a minha geração veio a fazer e a ser.
O próprio Stein explica: 'Quando éramos mais jovens, My Generation era tudo o que queríamos dizer em termos de revolta e autodestruição. Won't Get Fooled Again fala de uma geração que queria se tornar uma força e como todos nós nos decepcionamos. Agora nós somos os novos chefes. E somos exatamente como os antigos. Nos tornamos cínicos ao invés de revoltados. Nos desviamos de nossos princípios e acabamos fodendo tudo'.
Ele termina: "Apesar de termos fodido com tudo, o rock'n roll ainda é algo por que vale a pena lutar, algo que valeu a pena ter amado. E não importa o quanto tenhamos nos tornado cínicos, que o rock'n roll tenha longa vida. Nós precisamos dele todas as noites.'
Quando vimos as cenas finais dessa música, o último grito de Roger Daltrey, a Gibson vermelha de Townshend se arrebentando no chão, Keith se levantando de sua bateria, abraçando e beijando Entwhistle e os demais membros do grupo num derradeiro adeus, e a câmera retroceder, mostrando a multidão, um oceano de mãos e braços estendidos, teremos a certeza de que não há maior catalizador de idealismo e paixão que o rock'n roll."

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