Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Gal Costa - Revista AZ (1990)

Em março de 1990 a revista AZ trazia uma matéria de capa com Gal Costa. Na matéria, escrita por Eduardo Logullo, Gal fala de seu início de carreira, sua veneração por João Gilberto, fatos de sua vida e autocríticas A matéria traz em destaque uma frase de Waly Salomão: "A voz de Gal dá calma ao Caos". Abaixo, alguns trechos do depoimento de Gal à revista:
"Eu sou totalmente autodidata. A coisa da emissão da voz, da respiração. É claro que já tenho uma emisão espontânea, isso veio comigo do além. Quando eu era criança, minha mãe tinha uma panela enorme, dessas de feijoada, e eu enfiava a cabeça na panela para ouvir meu timbre. Era uma forma de estudar canto. Minha mãe, quando estava grávida de mim, só ouvia violão clássico, Segóvia. Ficava concentrada para influenciar o filho a ser musical. Ela queria que o filho fose violonista clássico. Todo dia ouvia religiosamente, para aquilo entrar... Sempre fui muito exigente. Na Bahia, havia um programa chamado 'Escada para o Sucesso', na TV Itapoan, onde muitos iam se apresentar. Os amigos, todos, e parentes, pediam para eu ir. Mas eu já sentia que iria chegar aonde eu queria. Não daquela maneira, num programa de calouros. Era uma coisa muito maluca que eu tenho até hoje, uma espécie de premonição, meu lado de artista, a coisa sensitiva. Eu tinha intuições, entendeu? Uma vez, Gilberto Gil deu uma entrevista dizendo que eu era uma estrela teleguiada. Acho que ele tem toda razão. Sou exigente, seletiva, rigorosa, só fazia aquilo que queria. Sempre fui corajosa de buscar coisas novas para mim."
"Eu era louca por João Gilberto. Quando João pintou, eu fiquei louca por ele. Lembro-me que ouvia tudo dele com atenção especial. Antes dele surgir, eu ouvia Luiz Gonzaga, Anysio Silva, essas coisas. A primeira vez que ouvi João Gilberto no rádio eu nem sabia o que era aquilo, mas me apaixonei de cara. Como nesta época eu não tinha vitrola, ficava procurando João nos rádios, o dia inteiro atrás dele. A partir daí comecei a mudar minha forma de cantar e emitir. A divisão da poesia na música eu aprendi com João Gilberto. Comecei a me preocupar em dividir certas frases em determinados momentos. Mas a forma de dizer a palavra com música é natural em mim. Um dia (naquela época), eu estava na casa de Dedé e Sandra Gadelha, quando Silvio Lamenha aparceu lá e dise que ia se encontrar com João Gilberto. Aí eu gritei: 'ah, me leve, pelo amoerde Deus!'. E fui com ele. João estava no prédio em que a mãe dele morava, na Barra. Quando cheguei, Silvio me apresentou: 'esta é Gracinha'. João disse que que já tinha ouvido falar de mim, pois naquele tempo eu cantava em casas de amigos, em reuniões, etc. Ele perguntou se eu tinha violão, e eu fui correndo buscar. João ainda estava casado com Miúcha naquela época. Depois pegou meu violão e ficou dedilhando. Aí virou pra mim e disse: 'cante Mangueira'. E, fora 'Mangueira', cantei o repertório dele inteiro. Ele não dizia nada, enquanto eu pensava: 'meu Deus, que situação...' No final, ele me disse: 'você é a maior cantora do Brasil'. No dia seguinte encontei Caetano e contei que tinha ficado com João. Caetano ficou com o olho assim, pois também era apaixonado por ele. Eu fiquei catatônica uma semana. Depois deste encontro, me tornei uma pessoa radical. Não existia mais nada, eu não gostava de mais NADA!! Era Deus no céu e João Gilberto na terra. Radicalizei tanto nesta época que quanto depois, quando me joguei na coisa do grito, da guitarra, da maneira mais louca e corajosa. Mas com João Gilberto eu entrei em estado de graça. Ainda naquela época, eu encontrei Sérgio Mendes na Bahia, e ele me convidou para ir cantar nos Estados Unidos fazendo parte do grupo dele."
"Na fase da repressão eu fiquei no Brasil, tantando manter mais ou menos viva a imagem de Caetano e Gil, através do meu canto. De repente, eu nem tenho muita consciência de como fiz aquelas coisas, aquele discos (...) O ritmo, o vigor da coisa rítmica negra sempre me faascinou muito. Embora não tanto como Gil, Djavan ou Jackson do Pandeiro, sempre assimilei bastante os elementos percussivos em meu trabalho. Creio mesmo que isso mantém em algumas antigas gravações minhas, até hoje. Claro que diferente. Agora tenho uma técnica vocal muito maior, outra compreensão musical, outro feeling; tudo flui junto, harmonia e música. Atualmente questiono alguns trabalhos meus. Mas essa coisa de altos e baixos está sempre ligada ao artista. Todo mundo erra, né? A capa de Minha Voz, por exemplo, eu não gosto, acho fake. Não tenho o costume de ouvir sempre o que gravei. Quando estou fazendo um disco, eu ouço muito, até ficar pronto. Quando é entregue para a gravadora, eu paro de ouvir. Outro dia,  por acaso, fiquei ouvindo Caras e Bocas e achei um disco forte, com músicas bonitas. Não ouvia há anos, e adorei. Já Lua de Mel não gosto mesmo."

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Centenário de Walter Smetak

Na data de hoje Walter Smetak, um pesquisador de sonoridades e inventor de instrumentos musicais inusitados, faria 100 anos. Suíço de nascimento, veio parar no Brasil aos 24 anos, e daqui não mais saiu. Aqui no Brasil desenvolveu suas pesquisas, e aqui viveu até sua morte, em 30 de maio de 1984. Chegou a lançar dois discos, o primeiro, em 1974, com produção de Caetano Veloso, e o segundo em 1980 e chamado Interregno, cuja versão em vinil eu possuo.
Smetak deixou uma série de instrumentos por ele desenvolvidos, que já ganhou até exposição. Pouca coisa foi publicada sobre Smetak e seu trabalho experimental de pesquisa. Um bom texto sobre ele saiu em 1979 na série Nova História da Música Popular Brasileira, da editora Abril, que saia em bancas de revistas. O exemplar dedicado a Smetak trazia ainda Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. A matéria apropriadamente intitulada "Gepeto da Nova Música Brasileira" dizia: "A criatividade de Walter Smetak se insere também numa dimensão diferente da arte de ordenar notas. Suas pesquisas sobre música convergiram para a necessidade de criar - somando material simples e equipamento eletrônico - instrumentos não convencionais que pudessem transmitir uma gama infinita de novos sons antigos, abrindo caminhos de razão e sobretudo de coração para a musicalidade. E para a vida." Abaixo a transcrição da matéria:
"A sensibilidade crítica de Caetano Veloso colocou lado a lado em sua composição Épico, Smetak e Musak. Entre os dois, estaria a razão da música brasileira. 'Musak' é a marca registrada internacional de um sistema de música ambiente. Por extensão, a palavra passou a ser usada para definir o que é veiculado por esse sistema: uma música padronizada, comercial, que serve de fundo para conversas em bares, para a monotonia do elevador, para o chofer de táxi não cochilar. 'Musak', na canção de Caetano, serve como uma metáfora da música sem criatividade nenhuma. 'Smetak' seria o oposto: a música inovadora, radicalmente experimental e que, por isso, está à margem do circuito comercial. Mas não é uma palavra nova, criada só para rimar e contrastar com 'Musak'.
Não. 'Smetak' vem de Walter Smetak, o alquimista, o inventor, o bruxo. Um artista tão inovador que os instrumentos convencionais não conseguem expressar suas sensações sonoras. Por isso, ele inventou mais de cem instrumentos musicais, na tentativa de reproduzir na íntegra os sons que ele ouve interiormente.
Smetak não se contenta mais nem com a própria música: ele agora persegue o 'mistério do som':
- Tenho procurado diferenciar claramente o fazer som, um meio de despertar novas faculdades da percepção mental, e o fazer música, apenas um acalanto para velhas faculdades da consciência.
Por isso, ele se abre para novos caminhos, para outra notação musical, para outra utilização dos recursos sonoros, inclusive os eletrônicos.
- Este é o grande problema da música contemporânea: os músicos geralmente não conhecem eletrônica. E as pessoas que conhecem eletrônica não sabem nada de música.
Em sua verdadeira 'oficina de música', o suíço naturalizado brasileiro Walter Smetak vai construindo um repertório de instrumentos. Inicialmente ele trabalhou muito com cabaça (que já era utilizada como caixa acústica do berimbau) como no 'Mundo', um de seus primeiros intrumentos, que levava ainda um cabo de vassoura, um prego e a corda de um violão; ou no 'Vina', construído com três cabaças que 'permitem a passagem do som ocidental - mais imprensado - para o oriental, muito prateado e curto', como ele explica.
Nascido em Zurique, a 12 de fevereiro de 1913, ele logo aprendeu a tocar o zither, instrumento da família da cítara. Veio para o Brasil em 1937, para integrar a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, mas seu primeiro escândalo, para o público brasileiro, aconteceu em 1971, durante um concerto na  Igeja de São Francisco, em Ouro Preto. À medida que ia extraindo sons estranhos e ensurdecedores de um órgão elétrico, o lustre de cristal começou a girar, as paredes tremeram, as pipocas pularam fora dos saquinhos.
- Quase todas as pessoas saíram correndo. Me chamaram de bruxo, quando se tratava apenas de uma mera reação física.
Smetak é aquele estranho professor do seminário de música da Universidade Federal da Bahia, que percorre as ruas de Salvador, montado na Prostituta da Babilônia (uma velha motocicleta BMW preta). Em 1974, ele gravou um disco na Philips, apresentando algumas de suas composições e alguns de seus instrumentos.
Vive sonhando com a construção de um imenso instrumento-laboratório, que se chamará 'Ovo'; ou em ir para o Planalto Central instalar uma universidade de som, onde físicos e músicos trabalharão juntos. Ou qualquer outra coisa: palavras jamais seriam suficientes para exprimir a imaginação solta, a infinita inventividade de Smetak. Mesmo porque, como ele gosta de dizer, 'falar sobre música é uma besteira, executar é uma loucura.' "

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Yes - Revista Pop - Junho 74

Nos anos 70 o rock progressivo vivia o auge de sua popularidade, e dentre as bandas do gênero, uma das mais populares era o Yes. Em junho de 74, a revista Pop trazia uma matéria sobre a banda, que estava lançando o álbum Tales From Topographic Oceans. Com o título de "Os Feiticeiros do Rock" a matéria dizia "Eles vivem à procura da perfeição, misturando jazz, clássico e pop. O resultado é um som incrível e místico". Assim era definida a música do Yes, e suas variações sonoras, bem típicas do som progressivo que faziam. Abaixo a reprodução da matéria:
"Foi como uma revelação mágica: o líder do Yes, Jon Anderson, num quarto de hotel em Toquio, folheava a autobiografia de um iogue e achou quatro escrituras que abrangiam todos os aspectos da vida. Excitado, visualizou ali as bases de uma composição longa que queria escrever há muito tempo. Cada escritura era como um movimento de um concerto. Chamou o guitarrista Steve Howe e os dois começaram a a passar as noites em claro enquanto a excursão os levava do Japão para a Austrália e dali aos Estados Unidos. Durante todo o ano passado, o Yes viveu esse clima de criação e trabalho. E o resultado foi o álbum Tales From Topographic Oceans, que teve o mesmo sucesso dos LPs anteriores: os primeiros lugares nas paradas de sucesso dos grandes centros de música pop.
Em Tales From Topographic Oceans (lançado aqui no mês passado), as encucadas letras de Jon Anderson - um feiticeiro das palavras - mostram que 'a vida é uma luta entre os mananciais do diabo e o amor puro', que se desenvolve nos quatro movimentos desse tremendo concerto pop, interpretado com a força e a dignidade que caracterizam o Yes desde a sua explosão em 1971, com The Yes Album e Fragile. Nesses dois LPs estava claro que o grupo andava à procura da perfeição. E essa busca chega a ser obsessiva. Tanto que Rick Wakeman, quando se juntou ao grupo para substituir Tony Kaye nos teclados, chegou a ficar assustado. Faltava apenas uma semana para a gravação de Fragile e a turma vivia discutindo furiosamente os arranjos. Nas sessões de gravação, as brigas esquentavam. E Wakeman, com mulher e filho pra sustentar, foi perguntar a Anderson o que estava acontecendo, se o grupo ia se dissolver e ele ficar na mão. O líder do Yes respondeu que isso era comum, fazia parte do trabalho deles.
Aí, Rick Wakeman ficou tranquilo, tão à vontade que em pouco tempo estourou como o melhor solista de teclados da música pop. E emplacou o maior sucesso com seu primeiro álbum-solo, As Seis Esposas de Henrique VIII. No mês passado ele lançou em Londres seu segundo disco, Viagem ao Centro da Terra. A patota do Yes não se grila com o sucesso individual de Rick. Pelo contrário, isso é mais uma prova que o conjunto reúne o que há de melhor na música pop. São caras que podem muito bem estourar sozinhos., mas também sabem criar juntos um som puro, uniforme, bem elaborado, sem estrelismos. Rick Wakeman conta: 'Antes de entrar para o grupo, tudo o que eu fazia era na base do solo. No Yes, a música tinha arranjos elaborados e eu tive que aprender a me integrar no conjunto. E descobri que, às vezes, tocar vinte por cento da melodia é mais importante do que tocar cem por cento'.
Essa parece ser a chave do som do Yes: uma mistura incrível de tendências passadas pelo coador do bom gosto e da elaboração. E os próprios caras do grupo revelam isso. Steve Howe, guitarrista líder e autor de quase todas as músicas, diz que é uma espécie de filho musical de Bob Dylan. Chris Squire, do contrabaixo, é ligadão em Paul Simon. Rick Wakeman, mágico dos teclados, não esconde sua formação clássica. Alan White, baterista, mistura influências do jazz com Beatles. E Jon Anderson, vocalista, autor das letras e a grande cuca do Yes, atribui tudo o que sabe a 'dez anos de estrada'."

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Show dos Mulheres Negras em SP - 1988

Nos anos 80, em meio à avalanche de bandas que surgiam no Brasil, impulsionadas pelos bons ventos que o mercado proporcionava a esse gênero musical, surgiu uma dupla que trazia um trabalho bastante criativo, fugindo do padrão normal das bandas da moda. Os Mulheres Negras, formado por André Abujanra e Maurício Pereira representavam algo novo. Segundo afirmaram em entrevista na época "nosso som é uma mistura de tudo o que a gente ouviu em rádio desde a infância. A nossa formação cultural é pop. Nós não ficamos ouvindo nossos avôs tocando toada, nós escutamos Beatles, Jovem Guarda, Caetano, Gil, música americana, jazz..Quando se fala em pop, se fala em mistura e 'falta de raiz'. E é isso, é uma cultura urbana, o pop típico de uma cidade como São Paulo".
Autodenominada "A terceirra menor big-band do mundo", os Mulheres Negras gravariam dois excelentes discos. Após a separação, André formaria o Karnak e Maurício seguiria em carreira-solo. Abaixo uma resenha de um show dos Mulheres Negras em 1988, no Centro Cultural (SP), escrita pelo jornalista Antonio Carlos Monteiro, para a revista Roll:
"O que pode acontecer com um músico peso-pesado que se atreve a entrar em cena de patins? Isso mesmo que você pensou: o tombo do ano. E foi o que aconteceu com André Abujanra, guitarrista e vocalista d'Os Mulheres Negras, no início da temporada que o grupo fez no Centro Cultural, em São Paulo.
Assim, no dia 1º de maio, estava no palco do Centro o grupo 'Mulheres de Emergência', com os músicos Théo Werneck (guitarra e vocal), André Gordon (teclados) e Nadio Feliciano (baixo), convocados às pressas pelos Mulheres André e Maurício Pereira (sax e vocal), já que o trabalho desenvolvido pela dupla exige que ambos sejam multiinstrumentistas. Maurício não perdeu a chance de dizer que os três músicos adicionais haviam sido convocados dentro da campanha 'S.O.S Braço'.
Aliás, o bom humor é a tônica do grupo. Não o humor infantil e pastelão que alguns grupos fazem, mas a coisa refinada, cínica, até mórbida levada adiante pelo duo, que ri de todos e de si mesmo, principalmente quando se chamam de 'tecno-pobre' e de 'a terceira menor big-band do mundo'.
Os três convidados, principalmente Werneck, vestiram com facilidade a camisa d'Os Mulheres, e entraraqm na dança e na música com todo o bom humor a que tinham direito. E tome o repertório debochado e inteligente do grupo. Maurício e André satirizam tudo: teve hip-hop em italiano, reggae em francês e muitas brincadeiras com a plateia - especialmente com as crianças, em grande número por se tratar de um domingo à tarde. E, ao contrário do que normalmente acontece nesses casos, tudo isso foi permeado por um instrumental da melhor qualidade, provando que a preocupação do duo se estende também ao conteúdo do que apresentam.
Louve-se também as bem executadas vocalizações de Maurício e do engessado André - que, por sua vez, não perdeu a chance de satirizar, por diversas vezes, com seu próprio braço na tipoia.
Não é por menos que Sampa vem aclamando, de alguns meses pra cá, os Mulheres como a mais nova cult band da praça. Afinal, em termos de criatividade musical, é sempre agradável ver que ainda existe vida inteligente além das FMs - onde, aliás, a coisa anda mais preta que goela de urubu. No Brasil inteiro - e São Paulo em particular - já não é mais possível se girar o dial sem esbarar em alguma brega-chic da vida."

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Revista Os Anos 70 da MPB

A Editora Imprima era especializada em revistas sobre música, dando uma ênfase às cifras de violão. A partir de meados dos anos 70, e até os anos 80, a editora publicou algumas revistas, sendo a principal, a revista Música, publicava também algumas edições especiais, abrangendo um determinado tema. Em 1980 um número especial foi lançado, fazendo uma espécie de inventário sobre a MPB nos anos 70, a década que terminava, trazendo uma série de inovações no cenário de nossa música. O texto introdutório diz:
"Neste início de década, os órgãos de comunicação fazem uma retrospectiva de tudo que aconteceu nos anos 70, pois é conhecendo o passado que esclarecemos o presente. Aliás, tudo que já foi iniciado e o que será intimamente ligado às experiências anteriores. Sendo assim a revista Música não poderia deixar de registrar os maiores acontecimentos musicais da década de 70. Pretendemos não só informar, mas também levá-lo à compreensão dos movimentos que agitaram nossa música nessas últimos 10 anos, e da influência que esses movimentos exercerão no futuro."
A revista traz ainda um texto escrito pela jornalista Sheila Hissa, intitulado "Dez anos depois - um saldo positivo":
"A MPB conseguiu, nos anos 70, reafirmar nomes, revelar talentos e trazer ao público antigos intépretes e compositores. Sem dúvida, foi uma década muito produtiva. Os remanescentes dos Festivais da Record até hoje estão brilhando. Elis, mais amadurecida, continua conquistando sucessos. Bethânia, nem se fala. É uma das mais vendáveis. Jorge Ben, Gal e inúmeros outros estão sólidos no seu canto. Nem Gil, Caetano e Chico, que precisaram se ausentar do país, no início da década, por motivos políticos, deixaram de acontecer. Muito pelo contrário, são uns dos mais representativos intérpretes/compositores do nosso cancioneiro.
Chico, pela coerência de seu trabalho, alcança ano a ano uma posição privilegiada. Suas músicas de conotação social e política e sua linguagem criativa estão presentes nas discotecas das mais diferentes classes sociais. Ele é um dos raros artistas, que consegue atingir da alta burguesia ao proletariado. O alto nível literário de suas canções não o afasta do público menos letrado. Na verdade, o apelo para o cotidiano, seja numa canção denúnica como 'Construção', ou numa música romântica como 'O Meu Amor', vai ao encontro das expecativas de cada um. A identificação com  suas palavras é imediatata.
Chico é um artista de outras artes. sua atuação no teatro, cinema e literatura é extremamente significativa e fecha todo um trabalho em torno das ideias que defende. Chico já ficou pra história e sua obra sempre vencerá o tempo.
Caetano e Gil também possuem um papel de destaque de nossa MPB. Ao contrário de Chico, já foram acusados de incoerentes e alienados. A imprensa e os 'intelectuais' do Brasil afirmam que eles abandonaram o posto das preocupações sociais para integrar o universo do oba-oba geral. De 'Domingo no Parque' a 'Realce', de 'Alegria Alegria' a 'Joia' muita coisa aconteceu. O trabalho de hoje, não é exatamente uma continuidade do trabalho anterior, mas uma consequência. As experiências de cada um, as transformações sociais e políticas e, acima de tudo a capacidade criativa e até revolucionária, fizeram dos baianos os porta-vozes da descontração e da cor. Os 'intelectuais' não aceitam. Preferem o protesto.
Mas quem são eles? Gil e Caetano não são inconsequentes, como se faz pensar.. São, na realidade, artistas conscientes da necessidade de abrir caminhos e descobrir lugares. A postura é apolítica, pois não é reivindicatória. Mas é política, na medida que se propõe a liberdade de pensamento e de comportamento. Os baianos possuem uma linguagem própria, que foge às normas pré-estabelecidas. Uma linguagem que avança para a liberdade individual.
O trabalho artístico, quando sério, é sempre carregado de intenções e propostas e na nossa música popular, não são poucos os que procuram novas formas e defendem novas ideias. Milton Nascimeto, também compositor das coisas do Brasil e América Latina, é acima de tudo um músico de rara competência. A sofisticação das melodias, a voz negra, forte, doída e alegre tornam Milton um dos intérpretes mais conceituados do mundo.
Nossa música, sem dúvida, está bem defendida. Na década de 70 os consagrados João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, claro, continuam em evidência. Os talentos esquecidos de Clementina de Jesus e Cartola, para não citar outros, surgem do anonimato e encantam o público. Sem falar naqueles que morreram e foram ressuscitados. Como Lupiscínio Rodrigues, que Bethânia tem interpretado com êxito, e Pixinguinha, que através do 'renascimento' do choro, passou a ser executado.
Ainda nos anos 70, os novos. O trabalho discursivo de Belchior, com as estórias da juventude 60. O saudosismo das ideias e comportamentos de então, as melodias leves. Já Fagner, mais corrosivo. As canções duras, tão agrestes quanto o sertão cearense.
E daí vai. Quanto nome! João Bosco, Simone, Ivan Lins, Zé Ramalho, Rita Lee, Francis Hime, Gonzaguinha, Zezé Motta e outros. Muitos outros. Cada um contribuindo à sua maneira. Gonzaguinha, por exemplo, mais lado a lado com a realidade brasileira. Com  a fome e a esperança. Rita Lee, que vem da década de 60, com seu rock descontraído e apelos debochados, que agradam os adeptos da libertação do corpo e da cabeça.
Cada um no seu canto, cumpre a parte que lhe cabe. Rock, bolero, bossa-nova, samba-canção, partido alto, são algumas das tendências que fazem nossa música."

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Jorge Mautner - 1976

O documentário "O Filho do Holocausto", sobre Jorge Mautner, e dirigido por Pedro Bial, está trazendo à tona o nome de um de nossos mais inquietos e brilhantes artistas. Trazer o nome de Mautner para a atual geração, que não teve a oportunidade de conhecer a obra desse mestre da palavra e da cultura nacional  torna esse documentário um registro histórico dos mais importantes, e redime Bial de ter seu nome associado a um dos símbolos da pobreza mental que invade a tevê brasileira: o Big Brother Brasil.
Em 1976, o Jornal de Música e Som, que vinha encartado na revista Rock, A História e a Glória, trazia uma matéria com Mautner, escrita pelo hoje colunista de O Globo, Joaquim Ferreira dos Santos. Abaixo, a trancrição dos principais trechos da matéria:
"Embasbacados, os repórteres que procuram Jorge Mautner para entrevistas sobre rock, marchinhas e afins costumam ouvir raras citações de Lamartine Babo e Chuck Berry abafadas por montes de Hegel, Nietzshe e Goethe, encerrando suas anotações com Mc Luhan: 'o supersofisticado é como o tribal aparentemente primitivo, os dois são ideogrâmicos'. Se houvesse um caderno de impressões na saída do cineclube em que Cacá Diegues assistiu a 'O Demiurgo', de Mautner, ele teria escrito: 'Nunca vi um filme tão casto'. O seu braço direito passava sobre os ombos da esposa, a cantora Nara Leão, que deve ter se lembrado dos idos de 67, quando ouviu 'Radioatividade', canção de Mautner, e comentou com Caetano Veloso: 'Que temos nós brasileiros a ver com a bomba atômica?' Alguns anos depois, o Brasil assinava um acordo atômico com a Alemanha e o crítico Ezequiel Neves via um show em que Mautner dançava com a inspiração de uma foca bêbada num trigal: 'É o Buster Keaton dos trópicos', escreveu na finada 'Rolling Stone'. Na mesma banca de jornais, Millôr Fernandes expulsava Mautner Pasquim afora depois que o cantor assinou um artigo relacionando músicas de Noel Rosa a anti-semitismo. Os amigos protegeram-no e Caetano Veloso lhe fez uma homenagem a seu jeito: 'Ele não tem medo do ridículo. Escreve clichês com a originalidade de um marciano.' Não menos baiano e sem jeito para hosanas, Gilberto Gil afirmou: 'É uma criança distraída e tola'. E mesmo Mautner fez questão de que ficassem bem grandes e visíveis as letras que compõem  o título de um de seus livros, para que não restassem dúvidas sobre o que pensava de si próprio: 'O Vigarista Jorge'. Em 1976, visto no palco com um ligeiro colete que descobre farta pelosidade torácica e acionando um violino eletrificado muitos decibéis acima de sua frágil voz, as dúvidas sobre o valor artístico de Mautner permancem. Chamam-no, às vezes de um vago 'maldito'. Mas é justamente o contrário, refuta, 'Nunca vi pensamentos mais positivos que os meus. Como chamar de maldito um cara que diz que a fauna flora grita de amor, faz esportes, toca violino e dança frevo?'
 Talvez uma campanha negativa contra o supremo amante do mal, o diabo, que na lenda sempre foi visto acionando o violino de um de seus mais célebres e clássicos executantes, o italiano Paganini. Ou algo ligado à sobrenatural capacidade de Mautner em imitar portas se abrindo, telefones tilintando, o cricrilar do grilo e liquidificador fazendo creme de abacate, como se de repente essas coisas se humanizassem na forma de um ser com olhos claros e cavilosos, geralmente escondidos por lentes escuras.
Quem sabe se parte desse preconceito contra os eflúvios da cultura negra que o acompanham desde os 6 meses de idade, apesar da mãe iugoslava, o pai judeu vienense e o padrasto alemão? Pois dessa época até os 7 anos, Mautner teve o crescimento acompanhado pela negra babá Lúcia, que aproveitava as viagens dos seus pais para levá-lo ao terreiro de candomblé onde era mãe de santo."

domingo, 3 de fevereiro de 2013

The Who - Revista-Poster

Nos anos 80 a revista Somtrês publicava revistas-poster contando a história de bandas clássicas do rock. Eram posters medindo 1,10 X 0,80m, que ao serem desdobrados traziam um texto falando sobre a banda, trazendo discografia e fotos. Várias bandas foram destacadas, como Pink Floyd, Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin, The Who, Genesis, Jethro Tull, Rolling Stones, etc. Os Beatles ganharam uma edição especial, com uma revista-poster para cada um de seus discos, representando um excelente material. Bons tempos aqueles. Alguns grupos ou artistas não tão populares também foram publicados, como Frank Zappa (já comentado aqui) e o violonista progressivo Jean-Luc Ponty. Grupos dos anos 80 também foram destacados, como Dire Straits Siouxie and the Banshees e The Cure. Foi uma boa época para quem se interessa por material sobre rock.
A edição sobre o The Who, publicada em 1985 trazia um bom texto, escrito pelo jornalista Waldir Montanari, que começava assim:
"O rock nasceu na América do Norte, não há como negar isso. Entretanto, durante a primeira metade dos anos sessenta, quem tomou o poder nesse gênero musical foram, sem sombra de dúvida, os artistas ingleses. Os primeiros conjuntos britânicos que se projetaram para o mundo, a nível astronômico, foram os Beatles e os Rolling Stones. Se tivéssemos de citar um terceiro nome, é certo que seria muito difícil. Todavia, um sério candidato ao posto seria The Who."
The Who em ação nos anos 70
 O texto faz uma referência ao fenômeno que aconteceu nos anos 60, e que ficou conhecido como "Invasão Britânica", quando vários grupos ingleses começaram a aparecer e se destacar no mercado do rock. 
A revista continua a falar no The Who:
"Foi essa banda que teve a coragem ímpar de sair gritando aos quatro ventos que era a vez dos jovens. Vejamos um trecho de My Generation:
'As pessoas tentam colocar a gente num lance inferior/Falando sobre a minha geração/Apenas porque nós chegamos bem perto/As coisas que eles fazem são frias e terríveis/Espero morrer antes de ficar velho'.
Frases como essas rasgaram os céus até há, aproximadamente, três anos, quando a banda se despediu do público durante uma grandiosa turnê pelos Estados Unidos e Canadá."
Falar na história do The Who, passa obrigatoriamente pela citação de My Generation, uma das músicas mais emblemáticas do rock, e a revista, como todas as citações ao início da carreira da banda, traz em destaque a letra da composição de Pete Townshend. Falando no guitarrista, uma outra característica da banda, e que virou uma marca, era a destruição de guitarras nos shows. O texto da revista, traz a origem desse atrativo a mais que a banda usava para dar mais impacto em seus shows:
Townshend quebrando uma guitarra

"Numa bela noite, num pub de nome Railway Tavern, Townshend bateu o braço da guitarra, acidentalmente, no teto. Irritado, e incentivado pelo delírio da plateia, que pensava fazer aquilo parte do número, acabou por estraçalhar o instrumento. Um assistente de produção cinematográfica, Kit Lambert, ao tomar ciência daquela postura de Pete, achou que podia levar aquilo adiante, e resolveu investir na banda. Para tanto, contou com a contribuição de outro nome que passaria à história do Who: Chris Stamp. Poucos dias depois, ambos faziam com que o grupo estreasse no Marquee Club de Londres, com alguns ingressos distribuídos, gratuitamente, entre os mods, e outros vendidos a preços bem baratos (afinal, precisavam lotar a casa). O resultado foi tão bom, que garantiu a permanência deles em cartaz por mais algumas semanas. É importante citar que Lambert foi o responsável por fazer o conjunto retomar o nome The Who."
A participação do The Who no festival de Woodstock foi sem dúvida, um dos grandes momentos da banda. A revista traz um destaque para essa participação, que ajudou a divulgar o nome do The Who em escala mundial:
"Em agosto de 1969, The Who se apresentou no Woodstock Festival. Ali, muitos tumultos aconteceram, além daqueles usuais. Tudo começou quando Pete solicitou aos organizadores para receber o cachê antes do show, pois precisava tirar logo de lá sua mulher, que estava grávida. Comenta-se que até hoje não recebeu um tostão. Para completar, houve o episódio do tal de Abbie Hofman, que queria discursar antes do The Who entrar, e saiu com uma guitarra na cabeça."
Sobre os anos 70, período em que a banda se firmou no cenário do rock como uma das melhores de todos os tempos, a revista destaca:
"A entrada da década de setenta trouxe alguns desencantos para os roqueiros em geral. O desaparecimento de Jimi Herndrix e Janis Joplin, mais o 'fim do sonho', apregoado por Lennon, muito contribuíram para isso. Quanto ao Who, a frustração maior recaiu sobre o próprio Pete Townshend, que não se conformava com o fato de a indústria da cultura ter transformado sua fúria em produtos. Sentia-se, ainda, desiludido com o público, que ia aos concertos na expectativa de vê-lo, meramente, a arrebentar a guitarra e cantar os velhos trechos de Tommy. Em Who's Next ele dá sua resposta a esse estado coisas como quem perguntasse:
- Who's Next Victim? (Quem é a próxima vítima?)
 
Em Quadrophenia encerrou-se, praticamente, a fase áurea das criações da banda. Os discos posteriores não passaram de medianos. Nos concertos, o sucesso era grande, mas sempre embasado sobre os primeiros hits da carreira. Fora isso, havia por trás dos bastidores, o sintoma de que as coisas não andavam bem entre os músicos. Essa evidência de desacordo se acentuava em função do lançamento de discos-solos, bem como da banda que John Entwistle mantinha, paralelamente. O fato era um só: Townshend roubava a cena para si, e os demais não se conformavam com isso. Roger, embora o vocalista, ficava ofuscado a cada voo do colega guitarrista. Entwistle chegou a declarar:
- Nem adianta solar no baixo, me soltar mais, pois o público seria capaz de pensar que tudo era obra de Pete. 
O único que parecia continuar nas boas com Townshend era Keith Moon. Alguns críticos internacionais chegaram a até a apontá-lo como o membro amalgâmico da situação. Entretanto, Moon veio a falecer em 1978 (a causa oficial dizia que foi por ter tomado dose excessiva de um remédio contra o alcoolismo). Depois desse episódio, ficaram a um passo do fim. Contrataram um novo baterista - Kenney Jones - e chegaram a pensar na incorporação definitiva de um tecladista."
O texto da revista foi escrito em julho de 1985, pouco tempo depois da apresentação do The Who no Live Aid, no dia 13 daquele mês. A banda continuaria sem o mesmo pique, após a morte de Moon, mas pelo conjunto da obra, o Who sempre representou uma grande atração, por sua história e tudo que ainda significa. Em 2002 o baixista John Entwistle morreria, deixando outra lacuna numa das maiores bandas da história do rock.