Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Show de João Gilberto em São Paulo - O Globo (2003)

Reconhecido por muitos como um dos mais perfeitos intérpretes do mundo, João Gilberto tem uma história das mais brilhantes entre os músicos e cantores do Brasil. Ao mesmo tempo, não é muito comum vê-lo no palco. Sua vida reclusa e seu perfeccionismo, fazem com que seus shows sejam cada vez mais raros, e por isso mesmo, acabem virando um grande acontecimento. Assim foi em 2003, quando ele fez o show de inauguração da casa de shows Tom Brasil Nações Unidas, em São Paulo. Na ocasião, o jornal O Globo publicou uma crítica do show, assinada por Hugo Sukman;
"Costuma-se repetir, tantas vezes quantas João Gilberto canta 'Garota de Ipanema', que ele 'dá sempre o mesmo show'. Mas o que os lorpas não percebem é que - além de a cada vez que obsessivamente repete as mesmas canções descobrir novos coloridos rítmicos e harmônicos e nuances de interpretação - na verdade o cantor busca deixar mais claro o sutil recado contido em sua música: a arte é o que um povo tem de mais revelador, o samba é a ponta da arte brasileira, levá-lo a sério, com respeito e qualidade (de som, sobretudo), é sinal de desenvolvimento humano e econômico, inclusive.
Na inauguração do Tom Brasil Nações Unidas, nova mega-casa de shows em São Paulo (filial ampliada do Tom Brasil), na quinta-feira, isso ficou ainda mais evidente. Entre 'Canta Brasil' (Alcir Pires Vermelho e Davi Nasser) e 'Aquarela do Brasil' (Ary Barroso), não por acaso dois ufanistas sambas-exaltação com Brasil no título - tudo parecia ser 'o mesmo show'. Não era: entre 'Sem Compromisso' (Geraldo Pereira) e 'Morena Boca de Ouro' (Ary Barroso), JG pede, flor de obsessão, 'mais médios e graves' no excelente som da nova casa.
- Porque estamos construindo o Brasil, depois do grande presidente Lula - justificou. - Não quero nada com política, quero render uma homenagem contida aqui no peito.
Não por acaso os donos do Tom Brasil, Paulo Amorim e Gladston Tedesco, chamaram JG para  inaugurar sua nova casa (como já haviam feito em 95 com o Tom Brasil original): o som que passa pelo crivo dele está aprovado. São Paulo ainda se lembra estarrecida da espinafração de João no som do Credicard Hall:
- O som daqui é horrível. Tem que fazer Brasil, não pode ser assim.
Nesta nova inauguração, som aprovado, ele só pediu um ajuste nos graves e médios para 'fazer Brasil', ou seja, ajudar o presidente Lula e os brasileiros a construir o país.
Todo concerto de João Gilberto em São Paulo - com versões surpreendentemente concisas das mesmas velhas canções - parecia indicar esse caminho, desde os acordes tortos, sofridos, de sua versão para 'Canta Brasil', melancolia da forma contrastando com o ufanismo do conteúdo.
Mas, mesmo que pudesse fazer apenas isso, João Gilberto não se contentou em apresentar versões ainda frescas para sambas velhos de mais de 40 anos em sua voz e violão como 'Saudade da Bahia' (Dorival Caymmi) e 'Bolinha de Papel' (Geraldo Pereira) e lançou pequenas novidades. Como uma minimalista interpretação de 'Sem Você', velho samba-canção de Tom e Vinícius, nunca gravado por ele. Ou mais uma variação para a letra de 'Lígia (Tom Jobim), diferente das gravadas por Tom, por Chico Buarque e mesmo da do próprio João Gilberto, que seria a primeira escrita pelo autor.
Ao lembrar de Ary Barroso pouco antes de cantar 'Morena Boca de Ouro', João Gilberto falou sobre o centenário do compositor, de quem foi amigo, e disse que tem pensado muito na morte, no medo de morrer mas também na 'inveja de quem já passou pela alfândega da morte'.
Mas surpresa João guardou para o fim. Cantava 'Garota de Ipanema', naturalmente sozinho ao violão, quando se ouviu som de cordas. Enquanto o público se entreolhava, a cortina se abriu mais um pouco e apareceu Caçulinha - 'meu velho amigo', exclamou João - nos teclados. O resgate musical de Caçulinha, hoje mais conhecido como 'escada' do 'Domingão do Faustão', mas que foi bom músico na velha TV Record e liderou seu regional tocando acordeão (fez arranjos para ótimos discos, como 'Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro'), só podia ser obra de um músico atento e de prodigiosa memória como João Gilberto.
Enquanto o público de convidados saía para a festa, alguém notou que  o Brasil estava um pouco melhor. Como toda vez que João Gilberto canta. "


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