Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Rory Gallagher - Jornal de Música - 1976

O guitarrista irlandês Rory Gallagher (1948/1995) foi um dos grandes guitarristas brancos de blues. Um músico que sempre bebeu na fonte dos grandes bluesmen, Gallagher infelizmente nos deixou muito cedo, mas nos deixou uma obra maravilhosa,  não só com sua antiga banda Taste, como de seu trabalho solo. Em 1976, o Jornal de Música, que fazia parte da revista Rock, a História e a Glória publicou uma matéria com esse fantástico guitarrista, assinada por Okky de Souza, que trazia na chamada uma frase de Gallagher, que resume um pouco de sua trajetória e suas influências: "É preciso ouvir os velhos mestres do blues para ver quanto tempo é necessário para ser um guitarrista". Segue abaixo a matéria:
"Desde que deixou os campos de açúcar e algodão, para fundir-se com os ritmos mais sofisticados da cidade grande, o blues tem sido a maior e mais completa escola de guitarra elétrica. O country & western, o jazz e outros gêneros tiveram grandes nomes no instrumento, mas foi o velho blues americano, de doze compassos, que permitiu o surgimento de um Jimi Hendrix e, paralelamente, de toda uma revolução musical baseada na amplificação e no ruído. O blues deixou de ser música folclórica norte-americana, passando a ser propriedade de toda a revolução pop, ficando ao alcance de quem fosse capaz de 'senti-lo' e executá-lo, fossem brancos ou negros.
Rory Gallagher nasceu muito longe das plantações americanas de açúcar e algodão, mas é um grande guitarrista de blues em uma de suas formas modernas, ou seja, o rock. Desde os tempos do Taste, um dos grupos pioneiros do heavy-metal-rock, o blues tem sido a principal motivação da carreira de Rory Gallagher, seu sangue e suor. Foi a partir de 1972, com o lançamento do LP Live In Europe, que ele se tornou um dos guitarristas preferidos da juventude em todo o mundo. Um rosto jovem, tocando guitarra com a mesma garra dos velhos bluesmen americanos.
Gallagher é irlandês de Ballyshannon, condado de Donegal, mas foi criado em Cork, uma pequena e encantadora cidadezinha medieval, na costa leste da Irlanda. Sua primeira guitarra foi comprada aos nove anos e custou o equivalente a CR$ 180,00. Mas mesmo antes disso, uma bem acabada guitarra de plástico servia para Rory divertir os amigos com imitações de Roy Rogers e Gene Autry. Após os inevitáveis grupos formados com colegas de escola, Rory Gallagher foi convidado, com apenas quinze anos, a se juntar à Fontana Showband. Naquela época, as big-bands americanas já estavam em franca decadência, mas ainda eram atração obrigatória em bailes e concertos populares. O próprio Rory recorda aquela época:
- Eu nunca gostei muito de showband (ou big-bands), mas os empresários não admitiam grupos com menos de quinze músicos. Cheguei a fazer várias tentativas de formar grupos menores, de música progressiva, mas os projetos duravam poucos dias, sempre pela mesma razão: absoluta falta de quem acreditasse em nós.
Mais tarde, a Fontana Showband foi rebatizada com o nome de Impact e chegou a obter muito sucesso em excursões pela Irlanda, Espanha, Inglaterra e outros países da Europa. Segundo Rory, 'aquela época foi muito divertida, mas também, nada mais que divertida'. Na verdade, a alma musical de Rory Gallagher estava com os mestres do blues americano, que ele reconheceu como os verdadeiros pais da música popular contemporânea:
- Mesmo que você não goste do gênero, é preciso ouvir muito os velhos mestres do blues, para ter consciência de quanto tempo é necessário até se chegar a ser um grande guitarrista. Eles é que entendem do riscado.
- Gosto e me sinto influenciado por qualquer artista que tenha garra, fogo interior: Leadbelly, Big Bill Broonzy, Woody Guthrie, Johnny Winter, os Stones - que às vezes não parecem, mas estão sempre muitos anos na frente - e John Harmmond, que eu considero o melhor intérprete branco de blues.
Em 1965 o Impact foi dissolvido e os contratos desfeitos. Para Rory Gallagher, era a grande oportunidade de desenvolver o trabalho que ele sempre quis: rock em cima das raízes de blues. Ele convidou o baixista Charlie McCraken e o baterista John Wilson, ambos do antigo grupo, e formou o Taste. Junto com Hendrix e o Cream, o Taste foi um dos pioneiros do heavy-rock, da violenta amplificação de grandes clássicos do blues rural, como Sugar Mama, uma das preferidas de Gallagher.
O estilo do grupo já estava definido, inclusive pela garra e sucesso de suas apresentações, mas o Taste só iria gravar o primeiro LP em 1969, quando eles abandonaram o circuito de apresentações na Irlanda e Alemanha, para se fixarem em Londres. Nos estúdios da Polydor, o grupo gravou apenas dois LPs, antes da dissolução definitiva, no início de 1971: Taste e On The Boards. A grande força do Taste, no entanto, sempre esteve nas apresentações. Por isso mesmo, após o fim do grupo, a gravadora lançou ainda mais dois LPs ao vivo: Live Taste e Taste At The Isle of Wight, ambos com excelente vendagem. Desfeito o Taste, Rory partiu para o trabalho solo, em cima de uma formação de trio. Convidou o baterista (também irlandês) Wilgar Campbell e o baixista Gerry McAvay para acompanhá-lo e, com Vincente Crane (do Atomic Rooster) dando uma ajuda nos teclados, gravou seu primeiro LP solo, chamado Rory Gallagher. O grupo excursionou pelos Estados Unidos em 1971, tomando conta das plateias onde quer que se apresentassem. Nesse mesmo ano, Rory gravou seu segundo álbum, Deuce. No ano seguinte, com base nas fitas gravadas durante uma excursão pela Europa, foi lançado o terceiro LP: Rory Gallagher Live In Europe, que estourou ns paradas americanas e europeias, consagrando o nome de Gallagher como um dos grandes guitarristas do rock atual.
Ainda em 72, o grupo foi aumentado com a contratação do pianista Lou Martin, com quem Gallagher gravou Blue Print e Totoo, em 1973 e Irish Tour'74, em 1974. Esses dois últimos LPs foram editados no Brasil. No início deste ano, Rory completou seu novo LP, Against The Grain, que ainda não tem data de lançamento entre nós. Para Rory Gallagher, ouvir música é um processo simples, mas ele tem uma receita muito especial:
- Quando estou ouvindo uma música, gosto de ser arrancado da cadeira e jogado pelos quatro cantos da sala. Eu gosto de garra, pique, o que pode ocorrer com músicas lentas também. Não existe essa história de autenticidade em música, se ela é bem tocada e o sentimento sincero, a música é boa. "


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