Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Revista Música Popular Os Poetas - Edição Especial (1986) - 2ª Parte

" Com o Ato Institucional nº 5, os letristas da MPB veriam surgir a era da censura e suas tesouras vorazes. Foi um período em que a criação poética era mutilada, ou auto-censurada, quando não era simplesmente proibida em todo o Brasil em nome da 'segurança nacional'. Muitos dos que sobreviveram aos cortes dos censores, trabalharam duro nesta época. ('Se me cortam um verso eu escrevo outro') em que falar da realidade social não era permitido por ser subversivo e falar de amor só com muita cautela para não atentar contra a moral e os bons costumes.
Mas o povo brasileiro deve ter, mesmo, alma de poeta, pois os nossos principais ídolos populares não pararam de produzir: enfrentando todo o tipo de problema com os órgãos policiais e militares que controlavam as comunicações, as canções de Chico, Vinícius, Gonzaguinha, e outros continuavam a ser gravadas e até mesmo o disco de Milton Nascimento, Milagre dos Peixes, cujas músicas tiveram suas letras vetadas pelos censores, obteve grande sucesso de público, embora tenham prevalecido os arranjos instrumentais e  o canto vocal sem letra. Nada disso, porém é de se estranhar, num país em que, na mesma época, os principais jornais estampavam na primeira página receitas de bolos ou trechos de Os Lusíadas, em substituição ao noticiário 'tesourado' pelos defensores da segurança nacional.
É de se notar, porém, que o mesmo período é fértil em 'sambões' bem ao gosto da classe média, com letras inofensivas e cheias de lugar comum, como os de Benito de Paula, ou a marchinha de triste memória, utilizada pelo governo Médici para fazer a propaganda do regime, que cantava Eu te amo/Meu Brasil/ Eu te amo/ Meu coração é verde amarelo/branco, azul anil. Coisas da música popular.
O fato é que são precisos mais do que alguns anos de 'fechadura', para fazer a criação poética de um povo desaparecer. Por isso, mesmo durante os anos negros, os grandes poetas da MPB, como Gil, Caetano, o próprio Chico, continuaram lançando suas músicas, trabalhando apesar do governo e, no alvorecer da 'abertura política' proposta à Nação no final do governo Geisel, podiam mostrar um trabalho concreto, fruto de uma lenta e segura evolução, incorporando as conquistas da poesia brasileira da música popular durante seus sessenta anos de história.
Julinho da Adelaide, 'um rapaz muito sofrido', amigo de Chico Buarque, é letrista de alguns sambas gravados pelo compositor, nasceu em 1974, quando 'a repressão política atuava com energia total a 'a censura proibia tudo' (Revista Música', nº 48). E morreu no ano seguinte, em 1975, quando a Censura descobriu que sob este nome se ocultava o próprio Chico Buarque que, para escapar às inevitáveis tesouradas, apresentava  a música 'Você não gosta de mim, mas sua filha gosta' (*). A música foi liberada e gravada, o mesmo acontecendo com 'Acorda Amor' assinada  por Julinho da Adelaide e Leonel Paiva (E era dura/Numa muito escura viatura/Minha nossa, santa criatura/Chame o ladrão).
'O pseudônimo - escreve o repórter Edu Cruz - serviu então como forma de burlar a censura castradora, a mesma que obrigou a gravar um LP como intérprete (o próprio Sinal Fechado), cantando apenas composições alheias. Entraram aí Gil, Caetano, Paulinho da Viola, Walter Franco e... Julinho da Adelaide.'.
Entretanto o artifício acabou transpirando através dos jornais e  os censores descobriram a 'dupla identidade', em virtude do que 'tomou providências para não ser novamente lograda por pseudônimos: passou a exigir que, junto com a letra da música viesse também a carteira de identidade do autor, CIC, etc'.
Recentemente, uma outra música do 'Julinho', 'Milagre Brasileiro', que havia sido proibida para execução em disco, show, rádio e TV, foi liberada e gravada num LP de Miúcha, irmã do compositor.
Em todo esse tempo, da bossa-nova para cá, é inegável a renovação que nossa música sente todos os dias. Novos poetas e compositores surgem e desaparecem todos os dias, em função de uma indústria das comunicações sempre ávida de novas criações, de novos nomes, de novos produtos a serem colocados no mercado. Assim é que, ao lado dos já consagrados poetas que citamos anteriormente, junta-se uma longuíssima lista de nomes, composta de poetas  maiores e menores, onde pode-se perceber de tudo: as influências dos clássicos, as tentativas de caminhos novos, a picaretagem pura e simples, o folclore, o samba tradicional, o rock e o jazz, para citar somente alguns exemplos. Nomes como Patinhas e Tuzé (letristas do grupo Bendegó), completamente desconhecidos, aparecem ao lado de Walter Franco (este com mais história e com um obscuro mas seríssimo trabalho), da desconhecida Faffy (Fátima Figueiredo), Cátia de França e mais uma série de poetas-compositores ou compositores-poetas, como Fagner, Belchior, Zé Ramalho e os sempre constantes Caetano, Gil, Vinícius, Chico - que parecem ser os 'maiores', dos 50 pra cá.
Walter Franco
De qualquer forma a lista é muito longa e, certamente, esta pequena resenha faz omissões, pois na realidade alguns poetas do mais alto calibre, como João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira, Cecília Meirelles e até mesmo Olavo Bilac só agora estão sendo citados, mas mesmo assim tiveram alguns de seus poemas musicados mais ou menos recentemente e fazem parte efetiva da relação dos grandes poetas da MPB. O que dizer, então, das dezenas de outros artistas, alguns deles poetas inspirados, que a cada dia, trazem novas e importantes contribuições à nossa cultura popular. Desculpem-nos portanto, os que aqui não aparecem. Mas estejam certos de que esta matéria é especialmente dedicada aos que, anonimamente têm feito a poesia da MPB. "

(*) O título correto da música é 'Jorge Maravilha'.

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