Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

domingo, 24 de março de 2013

Jorge Ben Fala de Alquimia - 1974 (Parte 3)

"Maciel - Agora, quer dizer, você se interessou por esse assunto a vida toda, desde garoto?
Jorge - É, desde garoto eu gostava disso.
M - Mas isso é uma coisa, por exemplo, que ninguém sabia. Quer dizer, você nunca tinha falado, você já tinha utilizado pra música, e você nunca falava muito disso.
J- Desde garoto eu sempre fui muito ligado, sempre gostei, mesmo sem saber antes dos vitrais, eu sempre me amarei em vitrais de igreja, juro. Eu fui quase seminarista, gostava do som da igreja, e gostava daqueles vitrais, achava lindo, entendeu?, olhar aqui no Brasil. Depois nos livros de alquimia eu vim saber que nos vitrais tinha coisas lindas todas, entendeu?...
M - E a decisão de fazer música com o assunto, veio porque você descobriu que a música também era importante na alquimia?
J- A música era importante na alquimia. Porque eu descobri - nos livros conta - que o alquimista tinha o próprio músico dele, que trabalhava junto com ele no laboratório. O músico que era ligado em alquimia, tocava seu alaúde.
M - A música era um elemento daquela transmutação química que estava sendo feita.
J - Isso. E eu achei bacana, e eu tentei fazer a minha música, a minha alquimia musical.
M - Pegou o laboratório do alquimista, onde a música funcionava como, o que um químico chamaria, catalisador; usando os elementos sonoros para movimentar...
J - ... pra movimentar. E ele também, ele também devia ser um alquimista, que ele escreveu as fórmulas, punha no papel sobre música, que tocado - o cara que entendesse de música - sabia da fórmula, então anotava várias fórmulas.
Na alquimia, também, os sopradores, que não eram os alquimistas - também tiveram muito valor, porque tentando fazer a pedra filosofal, eles misturavam tanta coisa, que descobriram ácido, água régia, entendeu?, descobriram mil coisas. Bottger, o que descobriu a porcelana, tentava fazer a pedra, porque ele ganhou um pó de um alquimista que gostou dele, que achou que ele era um boticário. então quando acabou ele não sabia fazer, então ele ficou preso numa torre de um castelo, porque o rei falou - 'Pô, esse cara é alquimista, vai ter que fazer ouro, senão, não sai daqui'. E ele misturou tanta coisa que um dia descobriu a porcelana, entendeu?...
M-  A química se desenvolveu de alquimia mal sucedida
J - A química se desenvolveu muito nesse negócio. Por exemplo, o banho-maria, que todos nós usamos agora, que nossa mãe usa, o banho-maria foi descoberto na alquimia. Veio de uma judia que se chamava Maria, por isso é que é designado o banho de Maria. Ela é que descobriu a maneira de esquentar o recipiente sem usar direto o fogo, ao banho-maria, ao fogo brando, viu... essas transas todas.
Solta o Pavão, de 75, também fala de alquimia em várias músicas
M - E as músicas? Qual foi a primeira que você fez?
J - A primeira que fiz foi 'Os Alquimistas Estão Chegando', depois eu fiz a do Hermes Trimegisto e a música do Paracelso.
M - E a letra do 'Hermes Trimegisto' você pegou a tradução do Fulcanelli.
J - Da tradução do Fulcanelli.
M- E aí você mesmo ajeitou os versos?
J - É, ajeitei os versos. Porque do jeito que tá traduzido é um pouco obscuro. Esse livro que eu tenho é um livro português, já tirado do latim pro português, do jeito que o Fulcanelli traduziu. Então ele é muito... não dá pra entender, ele é muito obscuro. Então eu ajeitei mais ou menos, mas sem perder a continuação do que ele fez, da tradução do Fulcanelli.
M - Na gravação uma das coisas que eu mais gostei é porque a música parece que esclarece mais ainda a tradução, reage com a letra, dá ênfase nas partes importantes, repete certas coisas.
J-  Graças a Deus eu fui muito feliz na música que eu botei, que eu queria fazer uma música... que fosse quase igual a do tempo, entendeu?, da tradução, que pudesse encaixar, e aí consegui...
Quer ver, há um caso interessante do Nicolas Flamel, ele é casado, foi casado. Essa viúva dele, que é uma viúva rica, foi Dame - o nome dela, Terremeli - já era viúva de dois maridos. Então, isso me inspirou aquela música 'O Namorado da Viúva. (canta) 'O namorado da viúva passou por aqui...'
M -  É tanbém música de alquimista.
J-  É, de alquimista, de Nicolas  Flamel. E aquela outra - 'Errare Humanu Est', também tem umas transas com os alquimistas, mas assim mais moderno, aproveitando o negócio dos deuses astronautas, entendeu?, 'Errare Humanun Est'. Eu continuo agora também fazendo música assim.
M - Quer dizer, você continua na linha...
J - É, eu continuo também.
M - Aproveritando temas...
J - ... aproveitando temas também. Eu achei válido e eu fiquei contente aqui, quando eu mostrei o meu trabalho, porque eu gostava, pra mim, eu acho que tava bom. Mas quando eu mostrei o trabalho aqui, mostrei aqui na Phonogram aos produtores, Paulinho Tapajós, mostrei pro Menescal, houve aquela... entendeu?. É um disco assim, meio difícil, entendeu?, tava fugindo do que eu já tinha feito.
Fulcanelli
M- Tava parecendo muito esotérico demais, de repente.
J- De repente, eu fiz um disco assim, porque sempre fiz disco fácil, músicas assim, bem água com açúcar. Aí, eu fiz um disco meio fechado, um disco hermético, e os caras - poxa...
M - É um disco que tem uma unidade todo ele.
J -  Logo a capa também. A capa. Mas aí houve uma reunião e a companhia aceitou, achou que era bacana, que era a hora mesmo de eu fazer um disco assim. Então me senti satisfeito.
M - E deu muito pé, deu muito certo. Vendeu muito bem, inclusive. Criou um interesse.
J - Criou um interesse, quer ver: eu tenho feito shows aí, rapaz, é incrível, todo mundo canta junto. Cantam junto - 'Eles são discretos e silenciosos, moram bem longe dos homens', pô, mas é bacana, rapaz. Cantam juntinho, se ligam. A moçada se liga mesmo. Eu achei muito bacana. Achei uma vitória.
M - E você transou toda essa sozinho?
J - Sozinho. Sozinho mesmo.
M - Você estuda sozinho?
J - Sozinho, mas enfim... se encontrar um cara que goste... Já tive contatos assim, mas só de conversa, nunca tive um cara também que gostasse, pudesse estudar junto, pudesse falar.
M - E tudo então, a ideia do disco...
J - Tudo sozinho. Agora depois do disco ter saído é que eu vi muita gnte que já... Já conhece várias pessoas que gostavam., porque achavam que ninguém ia entender. Agora muita gente já fala comigo sobre isso, já conversam, entendeu?... e acha que deve fazer mais, continuar, que é uma boa. Eu acho que valeu.
M - Eu também acho, tanto é que estou fazendo esta entrevista aqui com você."

sábado, 23 de março de 2013

Jorge Ben Fala de Alquimia - 1974 (Parte 2)


"Maciel- A alquimia tem um sentido mais superficial - exotérico - e um sentido mais profundo, que é esotérico.
Jorge - Isso mesmo.
M - E eesse sentido profundo, no final, é a transmutação do próprio alquimista.
J - ... do próprio alquimista.
Há várias reuniões, uma vez por ano eles se reúnem. Em 1968 na Etiópia, em 69 na Europa, todos anos eles se reúnem, e quando acaba a reunião eles deixam pro pessoal que entende, que conhece, pra sábios ou cinetistas, uma indicação do lugar onde houve uma reunião. Deixam uma transmutação, um metal. É sempre provado que há esta reunião, porque, por exemplo - o metal que eles deixam, é tão puro que só poderia ser feito na base de como pode ser feito um ouro puro.
M - Pelos meios científicos.
J - Pelos meios científicos de agora, atômicos - entendeu/ -  pode ser feito, mas o ouro que eles deixam é um ouro..., além de ser super leve é um ouro bonito, puro, sem nada. Então os próprios cinetistas viam que aquele ouro, ou vinha de outro lugar que aqui na terra não existe...
Eles deixam isso, uma moeda ou um troço cunhado, que aquilo foi feito no da graça tal... foi feita a transmutação de um metal. Os próprios cientistas são ligados na alquimia. É provado que Einstein era um alquimista contemporâneo, famoso na época dele, entendia disso tudo. Os próprios físicos são guiados na alquimia.
Porque a alquimia teve um problema na época da Inquisição. Mandaram queimar o pessoal. Haviam muitos charlatões e os sopradores na época se aproveitavam, então a alquimia teve uma época em que caiu em desgraça. O papa Silvestre III era um alquimista, mas foi provado que ele era um alquimista depois que ele morreu. Encontrou vários ouros, entendeu?, enormes riquezas, ficou comprovado que só um alquimista poderia fazer tanto ouro assim. Ele, para a alquimia não cair em desgraça, citou uma bula, a maldição à alquimia. Mas fez isso pra alquimia não cair em desgraça, porque havia muitos sopredores charlatôes, enganadores que chegavam, faziam uma transmutação, mas era falsa.
M - A alquimia já havia virado bagunça.
J - É... já havia virado. Então ele fez isso...mas só pros caras assim, pros charlatões pararem com isso, sopradores... Que tinha o alquimista e o arquimista. O alquimista é o que sabia de tudo da pedra filosofal mesmo, era o aberto. O arquimista é o que trabalhava no laboratório, ele sabia fazer a transmutação, mas não sabia como fazer a pedra, o pó pra chegar à transmutação. Se desse pra ele o pó, ele sabia fazer, ele sabia fazer o ouro, mas se não desse ele não sabia como fazer.
M - Agora, quando você diz na música 'Os alquimistas estão chegando', isto é uma situação imaginária, você simplesmente imaginou um lugar onde os alquimistas estivessem chegando, ou você, de alguma maneira, sentiu que a arte da alquimia está renascendo hoje?
J - Não, as duas coisas eu senti. Na primeira, por eu ter sentido que os alquimistas estão chegando, mesmo, então, eu no meu sonho senti também, e fiz a música sabendo que os alquimistas estão em algum lugar, estão chegando...
Eu estive agora, embora eu estive pouco tempo, eu procurei saber muito sobre Santo Alberto, o Grande; e São Tomaz de Aquino, que eram alquimistas na época. E também com Nicolas Flamel - eu estive na casa dele, onde ele morou, é na Rua de Mont Morrancy, em Paris, no Boulevard de Mont Morrancy. Eu estive lá na casa, a taverna, tá lá escrito tudo. Tem essas figuras do Abrahão, as figuras lá na casa onde foi feito, onde ele morou. Perguntei lá...
 Porque o Conde de Saint German, ele está vivo até hoje, que ele  aparece nessas reuniões também. Ele está em outro estágio, ele é superior, ele vive, pode se dizer, em outra dimensão.
Porque eu acho que ele existe. Fulcanelli é alquimista contemporâneo, ele vive até hoje. Ele foi procurado na... procurado não, se ele aparecesse ele ia ser preso - na Segunda Guerra Mundial ele foi por várias potências, pela CIA, pela potência russa, alemã. Tinha dito que haveria uma bomba que seria a destruição do mundo, e ele tinha a fórmula desta bomba, ele falou pra não desencadear os átomos, que isso ia ser uma catástrofe. Então eles viram, e quando Von Braun fez aquele foguete, quando os americanos lançaram depois de 54. Aquilo tudo o Fulcanelli já sabia., e aí o Fulcanelli sumiu na época, sumiu, desapareceu. Ele aparece em contato com com o Monsieur Consalier, que é o editor dele em Paris, que vendo os livros dele, mas ninguém sabe direito. Ele aparece, também, nessas reuniões.
M- É isso. Naquele livro, 'O Despertar dos Magos' se refere ao Fulcanelli, e de aparições dele em Paris, sempre misteriosamente, ele aparece, transa, e depois  ninguém sabe mais onde é que está.
J- Isso mesmo."
(Continua)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Jorge Ben Fala de Alquimia - 1974 (parte 1)

Em 1974 Jorge Ben lançaria um de seus melhores e ousados discos: A Tábua de Esmeraldas. Jorge Ben na época estava envolvido com a leitura sobre a prática da alquimia e seus principais estudiosos. Por se tratar de uma temática um tanto hermética, o músico encontrou resistências por parte de sua gravadora, mas no fim, o diretor da Phonogram, André Midani deu-lhe carta branca, e ele pôde enfim lançar seu álbum.
Naquele mesmo ano, o Jornal de Música trouxe uma longa entrevista com Jorge, feita pelo jornalista Luiz Carlos Maciel. Considero essa a melhor e mais esclarecedora entrevista concedida sobre o histórico álbum. Por se tratar de uma entrevista longa, vou dividir em três partes. Segue abaixo:
"Esta entrevista foi um dos trabalhos mais fáceis que já fiz em toda a minha vida. Encontrei Jorge Ben por acaso nos corredores da Phonogram e falei que queria entrevistá-lo. Muito gentil e até amistoso, ele respondeu que podíamos marcar dia, hora e local. Sugeri então, que fizéssemos ali mesmo, naquele momento mesmo, pois senti que devia aproveitar a oportunidade que o destino concedera., fazendo com que nossos caminhos se cruzassem de repente de modo tão informal e descontraído. Ele hesitou. Mas quando expliquei que eu pensava numa entrevista só sobre Alquimia, ou sobre a sua relação com a Alquimia revelada no LP Tábua de Esmeralda, ele concordou logo. Daí em diante, só tive mesmo o trabalho de ligar o gravador e ficar escutando.Jorge fala com entusiasmo sobre o assunto e tenho a certeza de que flaria ainda horas seguidas sobre ele, se tivéssemos tido mais tempo e mais fitas para gravar. Como ele diz, a Alquimia é o seu hobby - e ele a vê com o mesmo olho simples e o mesmo sentimento espontâneo que estão na fonte pura de sua música.
Maciel - Bom, Jorge, o negócio é o seguinte: é você falar do disco da 'Tábua de Esmeralda'. Como é que foi a transação da alquimia? Como é que você entrou nesse barato, conheceu, e teve a ideia do disco?
Jorge - É sempre um prazer falar do disco 'Tábua de Esmeralda', que eu sempre fui ligado nessa transação de alquimia, porque desde garoto, embora eu não entendesse muito, eu lia alguns livros que tinha la em casa, que eram do meu avô. Meu avô era Rosa-Cruz e eu sempre gostei da maneira dos filósofos herméticos, entendeu, dos Rosa-Cruz, da maneira deles, a perseverança deles no trabalho. Assim como Paracelso, Fulcanelli - que é um alquimista contermporâneo que vive hoje por aí, acho até que ele está vivendo na América do Sul, e eu acho um trabalho bacana que me incentivou a fazer música; onde eu usei um texto um pouco obscuro.
Este texto, 'A Tábua de Esmeralda', foi escrito pelo faraó Hermes Trismegisto, isso dois mil, três mil antes de Cristo, ele foiu achado nas pirâmides de Guizé pelos soldados de Alexandre, o Grande, quando marchavam pela Macedônia, e daí, esse texto foi sendo traduzido. Do árabe passou para o grego, do grego pro latim. Há várias traduções, mas a melhor tradução, menos obscura, é a do Fulcanelli, aonde eu me encontei e consegui fazer a música pro Hermes Trimegisto, que foi o iniciador da alquimia. Alquimia Universal, como ele diz. Ele recebeu estudos de Oros. Oros é o filho de Isis e de Osires, e Oros foi professor de Hermes Trimegisto também, que levou a alquimia do Egito para a Europa. Levou diretamente pra meta, quando ele levou a meta da alquimia pra Espanha e depois espalhou por Paris,e de Paris tomou a Europa toda. Sempre fui ligado nesta arte, e eu vi que nesta arte também existe música. Quis fazer uma alquimia musical também. Há vários textos onde a fórmula era em música. E hoje, você encontra em algumas livrarias no Quartier Latin, se você chegar lá e pedir, naquelas livrarias bem velhinhas que você não dá nada, o cara te mostra. Você chega lá e pergunta - 'olha, eu queria um livro que falasse sobre alquimia, mas que tenha música, texto musical' - então o cara tira lá do baú. Tem quilos Ali as fórmulas eram escritas em música, ou senão de outro tipo: eles comunicavam sobre vitrais de igrejas.
M - Fulcanelli tem um trabalho sobre vitrais de igreja.
J - Maravilhoso! Fulcanelli tem um trabalho sobre isso.
M - 'O Mistério das Catedrais'
J - É 'O Mistério das Catedrais o livro dele, é maravilhoso! Eu não tinha esse livro, eu consegui comprar agora na minha viagem que eu fiz a  Paris. Eu fui na livraria, me equipei de vários livros lá que eu precisava.
M - E esses em que são usadas fórmulas musicais? Esses eu não conhecia não.
J - Eu já gostava de alquimia , pela forma dos vitrais Achava bacana a comunicação deles por vitrais, por exemplo, eu vi agora , não no Louvre, mas na Notre Dame... No livro que eu tenho do Nicolas Flamel existe a torre que ela fala em na Note Dame. São todas as fórmulas ali escritas que só eles entre si entendiam. Por exemplo, ele dizia pra um alquimista amigo e contemporâneo - 'Olha, então igreja tal, vitral número tal, figura tal, está uma fórmula, - Então um alquimista, que fosse alquimista mesmo, sabia, chegava lá, e sabia aonde estava. Então ele passava para o papel e dali sairia uma fórmula para obter uma química; como Paracelso na base do remédio, da homeopatia; ou como um alquimista que estivesse interessado em descobrir...
M - ...a pedra filosofal...
J - É a pedra filosofal, pra fazer ouro, entendeu?
Nicolas Flamel, que foi um dos alquimistas da época, ele era livreiro, e do livro ele passou a ser escrivão, e daí ele descobriu... num livro escrito por Abrahão, um judeu, as figuras, aquelas que tem uns dragões. E Fulcanelli cita, ele conseguiu aquele livro. Não é um misticismo, bem dizer, mas é um troço... é muito profundo Ele conta que teve um sonho que o anjo apareceu pra ele  - 'você vai encontrar um livro que você vai passar vários anos, que você não vai entender nada, mas com sua perseverança um dia você vai descobrir'. Ele um dia encontrou esse livro lá, comprou sem querer esse livro do Abrahão, o Judeu. E tem essas figuras todas, e por essas figuras ele estudou. Depois de vinte tantos anos perdidos, que ele falou. Não perdidos... de lutas, perdidas de dinheiro, tempo, ele conseguiu achar a pedra filosofal. E nisso tudo eu gosto muito de alquimia, eu lei muito e eu fiz a música em homenagem aos alquimistas - 'Os alquimistas estão chegando'. Cito na música o que eles sempre fizeram, que eles sempre foram discretos e silenciosos, os alquimistas mesmo.. Um alquimista alemão, Bottger, sem querer também, tentando fazer uma mistura pra pedra filosofal, descobriu a porcelana.. Então os sopradores que trabalhavam com alquimistas iam embora já sabendo que sabiam fazer aquilo. Então quando se via -ele conta nos livros -  um cara falando muito, mostrando pros outros, ou o cara era charlatão, ou um alquimista mesmo querendo mostrar pro pesoal que alquimia existia, que alquimia era verdadeira. Disso tudo foram nascendo os estudos sobre a alquimia musical. Sobre a alquimia de Paracelso que eu citei, 'O Homem da Gravata Florida'.
Parece para mim que eu conheço Paracelso., entendeu?, do jeito que eu li sobre ele, parece que eu conheço ele. Que era um cara maravilhoso, um doutor excepcional, conhecia a química, a pedra filosofal. Ele curava qualquer um. Ele achava que se o cara tivesse a perigo, perigo mesmo, mas se ainda tivesse uma metade um pulmão, se tomasse aquele aquele remédio dele, recuperava todas as células, o cara ficava bom e continuava a viver vários anos."
(Continua)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Anos 60 - Lisergia e Psicodelismo

A revista AZ nº 123, de março de 1990 trazia uma edição especial sobre o movimento hippie, a lisergia e o psicodelismo dos anos 60. Em uma das matérias, intitulada "Só Doidão", havia um bom texto sobre o assunto, assinada por Mauro Borges:
"Flower Power. São Francisco, 1966, a bordo do Jefferson Airplaine. Começa a viagem.
Ao contrário do que se possa imaginar, muito antes de invadir os gramados de Altamont e Woodstock e ser símbolo da loucura hippie, o LSD frequentou e animou muitas parties and caves dos 60. As boates do psicodelismo ou psychodelic nightclub eram os pontos de encontro de mocinhos com cabelos tijela, batas indianas com calças jeans e garotas com ar de permissividade enrustida, saias curtíssimas e cílios longuíssimos. Mesmo nos clubs, a música pop queria ser adulta, e não mais teenager, como havia sido até então. Nada mais de Yé, Yé, Yé ou Stop In The Name of Love. Agora é a vez das acid bands. Grateful Dead, Steve Miller Band, Doors, Pink Floyd, Yardbirds, Beatles e Rolling Stones revisitados.
A coisa toda era sacudir os cabelos sem se importar com uma coreografia. Ninguém dançava igual a ninguém; afinal, todos criavam suas próprias viagens e eram adultos o suficiente para decidir como queriam dançar. O que não era de todo verdade. Basta rever um dos famosos capítulos de Maxwell Smart - o Agente 86 - em que as Vacas Sagradas, um lisergíssimo grupo pop, pretende hipnotizar - através de um programa de televisão - todos os jovens da América para concluir que a coreografia era a mesma para todos. Podemos dar um desconto apenas à pretensão.
Com todas estas mudanças na alma dos frequentadores, os night clubs também tiveram de se modificar. E a principal coisa a mudar foi a iluminação. Com uma música mais pesada, agressiva e, ainda por cima, elaborada, os proprietários se viram obrigados a investir na trip de todos e encherem suas cavernas de luzes estreboscópicas, luzes bolhas (aquelas dos desenhos do Homem Aranha), luz negra e sequenciadores. Além de um arsenal de projetores de slides e filmes. Tudo com o objetivo de dar mais vazão à loucura dos dançarinos e criar um perfeito ambiente psicodélico. Dessa maneira, os clubs perderam o ar elitista ou teeneger e assumiram uma terceira vertente. Oficialmente nascia o dance underground. O legado é muito mais forte do que se possa imaginar. Forma base para as discotecas dos anos 70 e as megadisco de agora, onde a iluminação assumiu proporções de ficção científica mas não impulsiona à dança. Talvez seja realmente a falta de um aditivo extra. Quem sabe boa música. Mas apesar de toda a parafernália, a primeira metade dos anos 70 foi dos festivais ao ar livre. Deitar na grama e sonhar. Os clubs foram deixados de lado e lisérgica passou a ser a natureza.
A palavra lisérgico ficou relegada aos anos 60. Até um belo dia em 1988, quando jovens ingleses resolveram deixar a house music um pouco mais histórica e repetitiva. Adotaram o velho smile em suas camisetas, bottons, calças, bonés, enfim, em todos os cantos e criaram a Acid House. Naquele ano, a Inglaterra viveu o segundo verão do amor e os clubs foram  palcos dessa reedição. A droga foi o XTC ou Ecstasy, a droga do amor. Consumida como pipoca no circuito Ibiza, Rimini (Itália) e Londres, o XTC conforme seus usuários, é a herdeira do LSD.
Ela deixa seus consumidores dóceis e felizes, com um espírito fraternalista e a libido a mil. Por isso a música soa inexplicável (ou insuportável) aos ouvidos de quem não consome a droga. As noitadas acids em Milão eram verdadeiros laboratórios Reichnianos. Margareth Tatcher também no final de 88 fez questão de acabar com a farra e reprimir judicialmente, fechando algumas casas clubs.
Mas Londres não desiste. E os endiabrados londrinos sempre querem mais. Para fugir do horário-limite para o fechamento das discotecas, que na capital inglesa ocorre às 3 da manhã, eles criaram as Raves. Estas festas acontecem fora da cidade, em fazendas ou lugares abandonados, movidas a XTC e house new age (a batida house com teclados intermináveis, na linha viagem, mesmo). É o que parecia ser uma nova fase na cultura pop já está sendo desmantelado. A Dama de Ferro ataca outra vez com todo seu aparato policial, bloqueando estradas e acabando com estas raves durante a noite. Um dos promotores destas festas foi condenado a 10 anos de prisão por incentivar o consumo de drogas. O fato é sério e já ocupou as capas dos principais jornais e revistas europeus, incluindo um dos últimos números da The Face. Com certeza a palavra lisérgico  não se adapta à mão pesada da primeira-ministra. Talvez ela sinta falta do não-lisérgico dos punks e, quem sabe, até promova mais este revival..."

quarta-feira, 20 de março de 2013

A Explicação do Mundo Segundo Jorge Mautner

O pensamento existe como uma energia que invade e comanda todas as coisas. Ele invade o átomo e mora dentro dele e em todas as suas partículas e também fora do átomo, que também é cheio de átomos. Todos nós caminhamos num mesmo barco velejando em direção ao abismo que é feito de sol. Nós andamos em direção ao Sol. Depois da morte, nós nos transformamos em partículas de Sol e de outros sóis que há pelo universo.
A grande roda que é o fim do infinito está sempre cheia de acontecimentos e prenhe de novidades. Nós sentimos estas realidades como profundas batidas no coração, como suspiros alongados e visões de serenidade profunda.
A escuridão nunca existe. O universo e os ínfimos recantos do espaço são sempre iluminados por alguma luz branca, azul, amarela ou cores nunca vistas. Mas a escuridão não existe.
Nós contemos a luz que ilumina e em cuja velocidade a eternidade existe. Nós somos fruto desta luz e algumas vezes nós a irradiamos em plenitude nos raros momentos em que entramos em contato com a respiração cósmica, que é diferente em cada momento.
As pedras não pensam, mas eu acho que pensam. Elas têm em si o grande germe do pensamento, porque tudo é pensamento no universo conhecido e desconhecido. As pedras pensam, os átomos pensam, a água pensa, o fogo do cosmos pensa, e até o homem pensa.
As coisas rolam num movimento incessante e todas as coisas rolam numa direção e, às vezes, isto acontece ao mesmo tempo em que estão rodando numa direção. Há muitos ritmos no universo, as coisas rumam em várias direções ao mesmo tempo e não se rasgam. Depois há um ponto no universo em que tudo começa a voltar e onde o tempo gira sobre si mesmo. Mais veloz que o raio da luz corre aquela energia que nos deu a vida e o pensamento. E nesta velocidade maior o tempo volta para trás revendo todas as coisas que foram mas sempre com novidade. As grandes esferas se amam mutuamente com um amor de fogo e água.
Não há verdade alguma no cosmos, só um ritmo de paixão. Os deuses usam coroas de louros e são lindos e sussurram mistérios enquanto dançam requebrando ao som de tambores tocados por adolescentes nus.
Os mortos não estão mortos quando mergulham na velocidade que corre para trás e que é maior do que a luz. As sombras que são os mortos começam a adquirir cores não visíveis e viajam para trás. Algumas sombras escolhem voltar, ou para eras mais antigas ou mais novas, e elas se confundem porque não há delineação precisa de mais nada. Tudo é como se fosse uma enorme onda de oceano quente que se repete muitas vezes. Há os leões que rugem e estranhas arenas de luta e sacrifícios. Há sangue.
O sangue e a luz estão misturados. A carne é feita de luz e os ossos são luminosos, enquanto a alma é feita daquela energia que é maior do que a luz e que vai para trás.
Tudo é mantido por uma grande mão que é o tempo, ela segura os astros e as coisas e a carne e os fogos e as águas. Há muitos fogos assim como há muitas águas, mas há só uma energia que vai para trás. Todos nós somos filhos da mesma coisa e somos a mesma coisa.
Jorge Mautner

terça-feira, 19 de março de 2013

Os Cafajestes - Clássico do Cinema Novo

Em 1962 o cinema brasileiro passava por uma revolução estética promovida por jovens cineastas - o Cinema Novo, e naquele ano foi lançado um dos mais controvertidos filmes nacionais do novo movimento: Os Cafajestes, filme de estreia de Ruy Guerra, um moçambicano envolvido com cinema, e que depois de deixar seu país, e ir para a Europa, passando por Portugal, e depois para Paris, onde estudou cinema, veio parar no Brasil.
O filme causou um grande impacto na época, pela audácia do tema - a devassidão e falta da caráter de dois malandros cariocas, daí o título do longa. Tendo como protagonistas Jece Valadão e Daniel Filho, Os Cafajestes ainda trazia no elenco Norma Bengell, Lucy Carvalho, Hugo Carvana e Glauce Rocha em participação especial, dentre outros.
Jece Valadão e Norma Bengell
O mundo dos vícios, da exploração sexual e da falta de caráter domina o filme. Dois cafajestes, um pobre (Jandir, vivido por Jece Valadão), e um rico (Vavá, interpretado por Daniel Filho), convencem duas mulheres, interpretadas por Norma Bengell e Lucy de Carvalho, a tirarem fotos em uma praia deserta com a intenção de chantageá-las mais tarde.
Vavá, o cafajeste rico e playboy de Copacabana é quem arquiteta o plano, pois vivia preocupado com a situação financeira de seu pai, um rico banqueiro que corria o risco de ir à falência. Com a possibilidade de perder a mesada para seus excessos, e um dia ter que trabalhar para se sustentar. Vavá recorre ao amigo Jandir para executar seu plano, e afirma que o objetivo da chantagem seria evitar a ruína do pai, mas na verdade, o que ele pensa é em sua própria sobrevivência. A vítima da chantagem seria o tio rico de Vavá, que é o maior depositante do banco de seu pai, e amante da personagem Leda, interpretada pela jovem e exuberante Norma Bengell. Os dois planejam forçar Leda a tirar fotos completamente nua na praia, para aplicar a chantagem em seu rico amante, porém a personagem frustra os dois ao não se importar em ser fotografada naquelas condições, demontrando não temer ser vítima da chantagem dos dois cafajestes, pois segundo ela seu velho amante não se importaria , pois não a queria mais. Porém, a jovem propõe que o plano dos playboys tenha prosseguimento, dessa vez tendo como vítima a filha do seu ex-amante, por ela ser responsável pelo afastamento dos dois. Essa é a trama do filme, que se notabilizou por mostrar o primeiro nu frontal do cinema nacional, protagonizado por Norma Bengell, numa cena de quatro minutos.
Jece Valadão e Glauce Rocha, em participação especial
As cenas ousadas, logicamente causaram escândalo. No meio da semana de estreia o filme passou a ser exibido com cortes, por ordem de seu produtor. O próprio Jece Valadão, que atuou na produção também como produtor executivo, cortou algumas cenas, sem autorização do diretor Ruy Guerra. O governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto proibiu a exibição do filme em todos os cinemas do estado. As autoridades alfandegárias dos Estados Unidos negaram o ingresso de Os Cafajestes em função da situação em que o filme se encontrava no Brasil: proibido em vários estados, tratado como mercadoria pornográfica pelas autoridades.
O filme, porém, era reconhecido como uma obra de valor artístico, e inovador. Glauber Rocha, por exemplo afirmou; "Os Cafajestes possuía certa transcendência: densidade existencial, clima de determinado universo fechado numa mise-en-scène agressivamente pessoal, apesar de todas as influências facilmente identificáveis, principalmente de Resnais e Antonioni... é histórico: a formalização... não resistindo à evolução do cineasta em busca da unificação cultural logicamente estilística. Insolente, corajoso, anárquico e talvez moralizante. Um cinema bossa nova."
Hoje, mais de 50 anos depois, Os Cafajestes é visto como uma obra clássica, contestadora, ousada e transgressora. Um dos grandes representantes do movimento do Cinema Novo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Beat Generation - Revista Boom (1996)

Em 1996 a revista alternativa Boom nº 8 trazia uma boa matéria sobre a Beat Generation. Esse é o único número que possuo dessa revista, e devo tê-la comprado no Rio, pois naquela época eu morava lá. A matéria é interessante, e traz vários textos, de diferentes autores, sobre o assunto. No índice da revista, um texto introdutório diz:
"Uma estrada, um Cadillac, pacotinhos de sopa de ervilha e café. Vinte dias, uma máquina de escrever e mais de cem mil palavras datilografadas. Esses são alguns ingredientes que geraram a bíblia da beat generation, o livro 'On the Road', escrito por Jack Kerouac em 51."
Na ocasião On the Road estava nos planos de ser adaptada para o cinema, tendo Francis Ford Copolla como o diretor. Porém, Copolla desistiu do projeto, e o filme só seria adaptado muitos anos depois, a convite, pelo brasileiro Walter Salles. Abaixo transcrevo alguns trechos da matéria:
"Era um fim de tarde outonal do ano de 1945. O céu violeta filtrava a luz de um sol minguante - raios púrpuros envolviam a Times Square, NY - deixando as fachadas dos edifícios imersas numa áurea de sonho. Próximos dali, dois jovens poetas fumavam um baseado enquanto trocavam impressões sobre a natureza do Universo.
Allen Ginsberg
'Tenho a nítida impressão de que a matéria do Universo é real e ao mesmo tempo irreal', refletia o jovem poeta Allen Ginsberg, 'mas a questão é sabermos qual a natureza da inteligência que construiu esta vastidão tão velha e infinita como o Primeiro Dia...'
A conversa matafísica prosseguia à medida em que o sol ia se pondo.
'O que me intriga, disse o outro, de nome Jack Kerouac - é a grandeza do Universo, a vastidão do espaço que nos envolve.'
E a conversa entre os dois poetas prosseguiu durante noites, dias, semanas, meses e décadas a fio, estendendo-se a outros poetas e escritores igualmente interessados na natureza da consciência humana. É deste concílio que se formou, nasceu o que os dois, naquele fim de tarde, denominaram 'Nova Consciência' ou 'Nova Visão'. E que a mídia, alguns anos depois, batizou de Beat Generation, movimento definido por Allen Ginsberg como 'um pequeno grupo de amigos vivendo excitadamente numa idade compativelmente tolerável, interessados na textura da consciência e em como tranportá-la para o papel'.
Jack Kerouac
O termo beat foi criado por Jack Kerouac em 48 e levado ao público quatro anos mais tarde pelo jornalista John C. Holmes do New York Times, no artigo 'This is the beat generation'. A palavra beat traduzida para o português quer dizer 'derrubado'. O nik foi emprestado do satélite Sputnik, que acabava de ser atirado no espaço pela extinta União Soviética, e anexado só em 58.
O termo beatnik 'cheio', nasceu a partir de uma reportagem de comportamento do jornal San Francisco Chronicle que apontava na direção da legião de jovens que migravam para as praias do norte da Califórnia.
Os caras mais expressivos dessa turma foram William Burroughs, Allen Ginsberg, Gregory Corso, Robert Frank, Lawrence Ferlighetti, Neal Cassady, Gary Snyder, Michael Mclure, além do pai de todos, Mr. Jack Kerouac.
Willian Burroughs
No Brasil quem incorporou a literatura beat de maneira mais direta foi o poeta Roberto Piva. Segundo Cláudio Wiler, o pioneiro tradutor - Uivo de Allen Ginsberg - o contato com Ginsberg e Kerouac, no início dos anos 60 provocou uma explosão na poesia de Piva, que escreveu na época um longo poema chamado Ode a Fernando Pessoa.
O clima com os simpatizantes brasileiros da Beat Generation não era dos mais amistosos. 'Viramos um assunto no qual literalmente não se falava, lembra Cláudio Willer, éramos marginalizados pela esquerda, pelos conservadores e pelos poetas formalistas. Piva e eu escrevemos vários manifestos de provocação dirigidos a estas correntes que nos marginalizavam. Era um assunto polêmico.'
O fato é que somente em 1983 chegaria ao público brasileiro a primeira tradução de uma obra beat, On the Road, de Jack Kerouac. Logo a seguir vieram Subterrâneos, de Kerouac, Parque de Diversões da Mente, de Ferlinghetti e Uivo de Allen Ginsberg. Questões de âmbito editorial explicam, em parte, a escassez de obras de escritores beats nas livrarias brasileiras. A dificuldade de traduzir os textos - também contribuiu para explicar essa escassez."