Palavras Domesticadas

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domingo, 17 de março de 2013

Entrevista de Chico Buarque ao Jornal HITPOP - 1976 (parte 3)

"Identificado com as raízes genuinamente brasileiras da música popular, não é por isso que Chico deixa de se manifestar a respeito da chamada latinidad, tão em voga:
- Há um apelo dos músicos latino-americanos por uma união com os músicos brasileiros. Nossos problemas são comuns, mas o brasileiro alega o problema da língua, para se isolar dos movimentos culturais do continente. Acho que há necessidade de maior entrosamento, de uma aproximação maior. Cantar um bolero não representa nada. O problema da contribuição está na forma, e tenho certeza que eles tem muito a ensinar à gente. Isso não quer dizer que vamos sair por aí de mãos dadas. Vamos é fazer uma música mais ligada à terra e, aí, aproximar os problemas comuns. Seria um intercâmbio de ideias, pois, formalmente, nós temos mais coisas a dar que receber, e como conteúdo, eles têm muito mais a oferecer. De nada adianta importar um músico argentino ou exportar um ritmista brasileiro. O negócio deve ficar na troca de ideias. Isso o Milton Nascimento está fazendo, e muito bem. Agora, por exemplo, ele gravou com Mercedes Sosa e o grupo chileno Agua. E no seu  próprio disco. Esse é o caminho, a comunhão. Acho bonito, útil e muito necessário. Milton é um cara de sorte, pois quando está gravando, surgem Mercedes e o grupo chileno. A gravações do Milton são verdadeiras festas. Quando coloquei voz com ele na versão de 'Dona Flor...' havia mais de 30 pessoas dentro do estúdio, num clima marvilhoso. Eu nunca vi coisa igual. No meu caso, infelizmente, tenho mais recebido que dado. Há, por exemplo, o uruguaio Daniel Villete, um grande amigo, que gravou um LP com músicas minhas e do Edu Lobo. Eu gostaria de muito de fazer um trabalho com ele, mas soube que está morando em Paris. Daniel é um ótimo compositor, um homem sério. Essa comunhão é da maior importância.
Chico com Francis Hime e Milton Nascimento
E por falar em forma, Chico chega ao ponto crítico. Isto é, num dos poucos assuntos que gostaria de deixar em branco, talvez porque canalizem discussões intermináveis e até desimportantes. Ele diz:
- Essa música Corrente, de fato, é um trabalho muito elaborado, mas tenho um pouco de aversão a teorizar sobre isso. O trabalho é elaborado no sentido de buscar a simplicidade da forma. É como um serviço de culinária, para limpar tudo e não deixar transparecer a elaboração, entende?
E Chico não mais falou, a não ser para comentar sobre seu dia a dia - neste início de de ano, e sobre futebol. Sobre o dia a dia:
- Parei um pouco com aquele ritmo pesado pra poder continuar o que estou fazendo. Acabei de fazer as versões de Os Saltimbancos, dos irmãos Grimm. Gravamos um LP infantil: Miucha, minhas filhas, Bebel, Helena, Nara, MPB-4 e outras meninas no coro. Talvez, desse disco, saia uma peça infantil.. Acabei de escrever, com Paulo Pontes, uma comédia pesada: 'O Dia em que Frank Sinatra Veio ao Brasil'. Dessa maneira não tenho tempo para para shows. Mas não penso, nem de brincadeira, em parar com meu trabalho artístico não...
Sobre o futebol:
- Você me pergunta o que me atrai no futebol, se é o jogo em si ou a torcida. Eu diria que, no jogo, gosto de gol, do passe perfeito, da catimba. Na torcida, vejo a maior manifestação de liberdade coletiva que a gente tem."

sábado, 16 de março de 2013

Entrevista de Chico Buarque ao Jornal HITPOP - 1976 (parte 2)

"Pelo que fala e pelo que briga, Chico pode até dar a impressão de ser um artista amargo, pessimista. Trata-se, porém, do contrário. Fiel às exigências de seu tempo, Chico considera que lutar pela sua arte é o mínimo que pode fazer, para poder sobreviver como homem. Em outras palavras, suas canções não teriam o menor sentido se ele não brigasse pelo direito de cantá-las.. Essa atitude implica tomadas de posição que não se esgotam apenas no terreno musical. É por isso que, coerente e otimista (que o pessimista não sai de sua passividade), Chico se recusa ao acomodamento. Nesta altura, ele resolve fazer um retrospecto de sua participação na nossa vida artística:
- Eu me orgulho, e muito, de fazer parte de um processo cultural, não só dentro da música, como também dentro do teatro e do cinema.  Acho que tenho muito o que dizer, e disso não abro mão. No entanto, toda a liderança e individualidade são muito nocivas ao bom resultado desse trabalho. E sempre recusei qualquer liderança, ou possibilidade de liderança. O trabalho do artista brasileiro, a cada dia que passa, está sendo levado mais a sério, com o amadurecimento, inclusive, de união de classe. Sinto isso, principalmente, agora que estou ligado a vários setores da arte popular brasileira. Por isso acho que não tem nada a ver, alguém se arvorar em líder de movimento ou de grupo. Portanto, o que há anos atrás podia ser considerado como Chico Buarque, garoto bonito de olhos verdes, ou porta-bandeira disso e daquilo, tudo isso foram imagens impostas. E, o simples fato de terem o caráter de imposição, me forçou a rejeitá-las.
A rejeição de que fala Chico aconteceu com a célebre peça 'Roda Viva', de 1968, encenada pelo também célebre grupo teatral Oficina. Chico retoma seuas lembranças:
- Quando escrevi 'Roda Viva', porém, não tive a intenção de pôr um ponto final em nada. Simplesmente, a colocação em termos de imagem estava errada, desde o princípio. O bom menino não existia, não era verdade. Era falsa a rotulação de tímido que me atribuíam, isso só interessava à televisão, na época. Nunca contribuí para manter essa imagem e, tão naturalmente, quanto permiti que ela fosse além do desejável, escrevi a peça. Não foi uma atitude do 'vou escrever Roda Viva para acabar com esse negócio'. Na verdade, desde o início, eu estava preocupado com problemas sociais, o que não significa que não tenha meu lado lírico. De qualquer maneira, sempre tomei posições espontaneamente, sem precisar que ninguém me cobrasse - como ocorria nos circuitos universitários, dos quais resolvi me afastar. É que, nesses circuitos sempre havia debates após o espetáculo, e isso começou a ser desgastante, pois as pessoas vinham me cobrar posições. Eu tenho certeza de que, caso tenha alguma contribuição a dar, ela será mais forte e presente com meu trabalho, que com exibições ou eventuais pronunciamentos. Acho que tenho muito mais o que fazer ao lado do teatro e do cinema, dois campos de trabalho sensacionais, do que ficar aceitando rótulos ou bandeiras.
À excessão de Olhos nos Olhos, as faixas do LP de Chico são trilhas de peças ou filmes. Ele comenta o fato: 'Isso não altera grande coisa, é sempre um trabalho meu. Não seria música de encomenda, e sim de sugestão. Me pedem música sobre passarinhos, e lá vou eu pôr letra em Passaredo, do Hime. No caso de Que Será, Que Será, tema do filme 'Dona Flor...' tem gravação minha, e do Milton, ficou uma gravação sensual, muito bonita. Por falar nisso, o Milton se encontrou comigo no estúdio da Phonogram. Ele se ligou na música e, nesse entusiasmo, resolvemos gravar juntos.'
Outro tema polêmico: televisão. Chico é a favor ou contra?
- Nada tenho contra a tevê em si. Seria tolice negar sua força de penetração, mas a televisão que se está fazendo no Brasil hoje se restringe praticamente à Globo. E, ao contário do que ocorria há alguns anos atrás, não há interesse nenhum da tevê pela música. Ou você faz música para novela, ou não faz mais nada. Olhe, isso não é uma queixa pessoal minha. Há uma novela aí que tem Carolina como um dos temas, mas isso é problema das editoras, não meu. É algo que não posso impedir, pois não tenho escritório nem editora. O que posso dizer é que a tevê está prestando um grande desserviço à MPB. Há um quadro musical no 'Fantástico', e não gosto da maneira como é apresentado. Assim, com todo o seu poderio, a tevê nada faz pela música. Antes era bem rentável pegar um cara, naquela efervescência dos festivais - e, diga-se de passagem, não foram os festivais que inventaram a música - e explorar ao máximo o seu talento. Vem daí a tal imagem do lírico, do tímido garoto de olhos verdes. Com tudo isso contra, como é que eu posso me interessar pela tevê? Fazer uma coisa bem cuidada, talvez só seja possível na TV Bandeirantes (SP) e isso eu toparia de cara." (Continua)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Entrevista de Chico Buarque Ao Jornal HITPOP - 1976 (Parte 1)

Em 1976 Chico Buarque se preparava para lançar seu álbum Meus Caros Amigos, e concedeu uma entrevista ao jornal HITPOP. Eram outros tempos, de censura e marcação dos órgãos repressores, e Chico era uma das maiores vítimas dos censores. Cada disco seu era aguardado com grande expectativa, mas ao mesmo tempo era uma batalha para conseguir liberar muitas de suas canções, e poder lançar seus álbuns como foram concebidos. Essa entrevista, concedida ao jornalista Eduardo Athayde, será reproduzida aqui em três partes. Em seu texto de apresentação, em uma espécie de editorial o jornal diz:
"Para Chico Buarque, produzir um disco não significa exatamente o mesmo que para outros artistas. O envio de letra e música para a Censura Federal, hoje é uma rotina para as gravadoras brasileiras, pode significar, no caso de Chico, muitos meses de trabalho e muito dinheiro jogados no lixo, com remotas possibilidades de recuperação. Apontado pela crítica como o poeta mais consistente de nossa música popular, Chico Buarque faz um desabafo exclusivo ao HITPOP, onde explica os malabarismos que é forçado a realizar, pra sobreviver com dignidade na cultura brasileira. E mais: fala de rock brasileiro, futebol e todos os temas que habitam o cotidiano de sua criação."
Segue abaixo a primeira parte da entrevista:
"Chico Buarque começa a falar. E começa pelo que há de mais polêmico, tentando situar algumas ideias a respeito de sua profissão de cantor, compositor, escritor, artista, enfim:
- Não gosto muito de definir as coisas nem de ditar regras. Acredito no artista que trabalha quase que dentro de um quarto fechado, elaborando sua arte. Isso mesmo, elaborando sua arte e, nada mais. Isso, no fim das contas, acaba tendo uma função social, ainda que o próprio artista não saiba. Não acho necessária uma preocupação permanente de dizer isso ou fazer aquilo, cantar isso ou aquilo Tudo vem e vai por si. E, se o artista trabalhar despreocupadamente, vai acabar refletindo a visão que ele tem das coisas, mesmo estando dentro de um quarto fechado. Se ele tiver uma visão distorcida, é outro papo. Mas não sou eu quem vai definir ou ditar regras. A arte é tudo.
No dia da entrevista, um final de tarde ensolarado na Barra da Tijuca, onde ficam os estúdios da gravadora Phonogram, ainda corriam boatos de que seu LP 'Meus Caros Amigos' poderia ser apreendido pela censura. Dizia-se também, que algumas faixas do disco estavam com sua execução proibida nas rádios. Chico se mostrava profundamente irritado, especialmente porque todas as suas composições haviam passado previamente pela censura federal. Ele comentava os boatos, as ondas:
- Isso está correndo porque, provavelmente, se trata do meu primeiro LP com músicas apenas minhas. Sim, porque 'Sinal Fechado' só tinha músicas de outros compositores, e 'Chico e Bethânia' foi uma gravação ao vivo, de um show que fizemos. Com tudo isso, só posso ficar perplexo, pois se existe uma censura prévia - que já liberou o disco, essa seria a maior garantia para uma vida mais longa nas lojas. O que está no disco foi aprovado pela censura.Censura prévia que eu considero uma aberração, mas ela existe. E, se ela existe, que pelo menos esqueça da gente, depois de dar o seu nihil obstat. Não deveria haver esse tipo de preocupação. Boato, boato, boato todos os dias! Isso me atinge e me chateia, é claro. mas não me pergunte porque. Fico intrigado com tudo isso. A censura prévia tem todo o tempo que quer para analisar as letras, e isso leva, no mínimo, dois meses. Acaba virando um problema de ordem industrial, pois a Phonogram tem que seguir seus organogramas. Agora, só falta a censura pedir para pedir a música com violão, pra depois achar que não é suficiente, pois a orquestra pode insinuar alguma coisa, ou aquele saxofone lá no fundo está com segundas intenções etc. Pode pintar tudo isso, sabe? Aí é uma coisa infernal, e não há indústria de discos e compositor que resista.
Mudando de assunto, Chico é convocado a analisar o tipo de música popular brasileira que tem feito sucesso nas paradas:
- Existe um certo tipo de samba, que realmente me deixa triste e cabisbaixo. A gente, ao ouvir, sente na hora o cheiro da máquina que o fez. Isso não é legal, e eu não gosto. Também, a quantidade de música estrangeira que está sendo imposta, é uma tristeza. O melhor negóicio é desligar o rádio. Mas acho que isso um dia tem um fim. Caso contrário, ninguém vai aguentar. Quanto a rock, e a esse tal de rock brasileiro, não sou muito chegado, mas não quero dar uma de censor de ritmos. Cada um faz o que quiser, mas aí se trata de uma questão de gosto, não de arte. A continuar dessa maneira, isto é, a garotada fazendo rock brasileiro, e ouvindo música estrangeira, dentro em pouco só vai dar rock no Brasil. Engraçado, não é?"  (Continua)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Fagner Fala de Robertinho de Recife - 1977

Robertinho de Recife já foi considerado um dos melhores guitarristas do Brasil. Na década de 70, ele surgiu, e teve em Fagner um de seus descobridores. Na melhor fase do cantor e compositor cearense, Robertinho esteve presente em vários trabalhos. Considero os três primeiros discos de Robertinho: "Jardins de Infância", "Robertinho no Passo" e "E Agora com Vocês... Suíngues Tropicais" três grandes discos. Depois Robertinho andou se enveredando num esquema mais comercial, mas seu talento como guitarrista sempre foi reconhecido. No Jornal de Música nº 34, de setembro de 1977, Fagner escreveu um depoimento sobre Robertinho, que começava sua carreira. Abaixo o texto:
"Em outubro de 1974 aconteceu em Olinda no Convento do Carmo, os '7 Cantos do Norte', uma invenção de Tiago Amorim e que reuniu toda uma rapaziada nordestina que já estava na batalha, cada um no seu caminho, mas todos intuitivamente buscando a mesma coisa: mostrar seu trabalho. Alceu, Geraldinho Azevedo, Ave Sangria e Marco Polo, Flaviola, Ricardo Bezerra, Robertinho e eu, fazíamos parte de um acontecimento que insinuo ser dos mais importantes já acontecidos no nordeste, e que serviu para dar um certo sentido no que poderia acontecer dali pra frente, levando-se em conta que alguns já haviam conseguido alguma coisa de concreto no meio, e outros iriam procurar mais ou menos o mesmo rumo, havendo assim naquele momento uma grande troca de energia, entre nós, coisa que reflete até os dias de hoje.
Jardins de Infância, primeiro disco de Robertinho
Deste encontro das pessoas, das ideias e propostas de trabalho, aconteceu minha aproximação com Robertinho. De cara, era ele quem mais se preocupava com o show, desde os ensaios, a acústica da igreja, e outros detalhes, que já me surpreendiam, pelo amor que ele estava enolvido com a coisa., tudo isso culminando com a sua apresentação que já foi da mais belas coisas que eu tinha ouvida até então, com músicos de lá mesmo, com Icinho, um grande baterista que inda está por lá, e Zé da Flauta, hoje no Quinteto Violado, com músicas belíssimas e tudo muito bem preparado e apresentado. Diante de minha surpresa, fiquei feliz em saber dele mesmo, que um dia havia pedido a Naná (o percussionista) para apresentá-lo a mim durante a Phono 73, quando ele havia tocado com Luiz Melodia, e nesta época eu trabalhava com o 'de Vasconcelos', mas todos os planos viraram farrapo, e nosso encontro se deu mesmo nos 7 Cantos do Norte.
Deste dia pra cá muita coisa já rolou, e muito mais, certamente irá rolar. Não seria o caso de saber quem ganhou mais, ou perdeu, o certo é que esta energia cresce cada vez mais no nosso trabalho de composição, instrumental, e acima de tudo no relacionamento que passamos para outras pessoas que estão ao nosso redor, procurando a mesma coisa e criando vários espaços.
Falar de Robertinho, é o mesmo que balançar a poeira de uma mala, que também me carrega pela vida afora. Robertinho de Olinda, dos conventos e mosteiros do Carmo, do frevo da descida da Sé, dos boleiros de Dona Cléa (a mãe) aos merengues de seu Carlinhos (o pai). Robertinho dos Bambinos à Menphis, da harpa de Neusa (a mulher) aos gritos de Bebé (a filha). Roberval sempre quis mais, desde moleque. Uma supercaixa beatlalenta de Maristone para sua manola, sua guitarra transparente dada de presente por um fã americano, ou um cenário tipo belo, de Tiago.
Pouca gente, que eu saiba, reúne uma formação tão rica de experiência diária e tão perto da música quanto Robertinho. Não uma coisa cerebral, estudada e consequentemente para dentro, mas uma coisa viva, seguida, sofrida, enfim, uma coisa que só ele está sabendo, e deixe as pessoas até sem entender direito sua intenção, aliada a uma prática, uma apropriação e um conhecimento da música e do seu instrumento principalmente, só visto nos grandes mestres.
Um recado pra ele: Roberval, calma, escuta, pensa, e ataca fundo que a porteira já se abriu. Pode fazer aquela careta linda, e um beijo do Fagnólia."

sábado, 9 de março de 2013

Thimoty Leary - Entrevista à Playboy

O Dr. Timothy Leary foi uma das mais polêmicas e marcantes figuras da contracultura. Psicólogo, neurocientista, professor e escritor, Leary se tornou famoso por ter desenvolvido experiências com o LSD, inclusive com seus alunos na universidade de Harvard, o que provocou sua expulsão da entidade.
Tudo começou em 1960, no México, quando Leary coloca na boca alguns cogumelos, e passa ater visões e alucinações. De volta a Harvard, ele começa a experimentar em centenas de voluntários os efeitos da psicolocibina (princípio ativo dos cogumelos sagrados mexicanos). Após sua expulsão da universidade onde lecionava, Leary organiza a IFIF (Fundação Internacional para a Liberdade Interior), no México, onde intensifica suas atividades com a mescalina, ahuasca, ácido lisérgico, e é convidado a retirar-se do país. Suas atividades, consideradas ilícitas mo levaram à prisão. Em 1966 ele afirmava: "O homem está pronto para utilizar a fabulosa rede elétrica que carrega no crânio e deslizar nesta corrente".Leary morreu em 1996, aos 65 anos, e no fim de sua vida se dedicava à informática, vislumbrando na Internet uma revolução tão fantástica quanto lisérgica.
Abaixo, transcrevo trechos de uma entrevista que Leary deu à revista Playboy, nos anos 70:
"- Quantas vezes o senhor tomou LSD?
- Até este momento passei por 311 sessões psicodélicas
- O que elas fizeram com você?
- Não é fácil responder. Eu estava com trinta e nove anios quando tive minha primeira experiência psicodélica. Era um homem agonizante. Minha alegria de viver, minha disposição sexual, minha criatividade estavam indo por água abaixo. Desde então, seis anos atrás, minha existência tem se renovado em todas as dimensões. A maioria de meus colegas na Universidade da Califórnia e em Harvard pensam que me tornei excêntrico. Creio que apenas 15% deles entendem e concordam com o que estou fazendo.
- Quanto dura cada sessão?
- De oito a doze horas.
- Com elas são? O que ocorre a você?
- Respondendo de uma maneira geral, as pessoas têm uma experiência de aceleração e intensificação dos sentidos e do processo mental, o que causa certa confusão àqueles que não estão preparados para isto. Através de milhares de sinais que eclodem por segundo em seu cérebro, em cada sessão de LSD você sintoniza mensagens que conscientemente nem perceberia. Isso pode levá-lo ao êxtase ou a um estado de confusão.. Em vez de uma, duas ou três coisas ocorrendo linearmente em sequência, você é arremessado subitamente num turbilhão de centenas de luzes, cores, sugestões e imagens. O LSD mostra que a visão normal é como a imagem de uma televisão mal ajustada. Sob o efeito da droga seus olhos tornam-se microscópicos e você vislumbra os radiantes detalhes de tudo que aparece. Tudo se anima nas iridescentes ondas de luz em seus olhos.
- A audição também é intensificada?
- Tremendamente. Com o LSD o órgão de Corti em nossos ouvidos interiores torna-se uma membrana tremulante vibrando com as tatuagens das ondas sonoras. As vibrações penetram fundo dentro de você. Escuta uma nota de uma sonata de Bach e ela continua soando suspensa, num tempo dilatado e interminável. Você orbita em torno dela. Então inicia-se a segunda nota e você desliza vagarosa e suavamente em torno das duas, contemplando a harmonia e as dissonâncias que se refletem na história da música. Mas quando seu sistema nervoso realmente sintoniza-se ao LSD e todos os fios se conectam, os sentidos começam a se amalgamarem. Você não apenas ouve, mas começa a ver a música emergindo dos alto falantes como partículas dançantes, como serpenteantes ondulações de pasta de dente.
- Experiências psicodélicas vão enriquecer a existência humana?
- Com LSD o homem estará apto para compreender que a história completa da evolução humana está impressa em seu corpo. Em vez de incorrer num conhecimento enlatado, estático e acabado, vai utilizar seus oitenta ou mais anos neste plano para vivenciar cada possibilidade de sua aventura humana e até sub-humana. Esta será a solução natural para o problema do lazer.

terça-feira, 5 de março de 2013

O Terço - Criaturas da Noite

Os anos 70 foram o melhor período para o rock brasileiro, embora não tenha sido o de maior projeção para as bandas em atividade, o que aconteceria na década seguinte. Dentre as várias bandas que se destacaram naquelas anos, O Terço era uma das melhores. Em setembro de 1975 a revista Pop trazia uma matéria sobre a banda, que estava lançando o disco Criaturas da Noite, um dos grandes discos de rock brasileiro de todos os tempos. Um texto em destaque dizia:
"Quando uma canção faz o público de um show ou de um festival dançar  e cantar junto com os caras da banda, é porque essa canção tem alguma coisa especial. E Hey, Amigo, do Terço, é uma canção especial: mesmo antes de ser lançada em disco, já era uma espécie de hino da nova geração rockeira do país. Agora registrada em LP, a música do Terço vai correr o mundo. O disco será lançado em toda a América do Sul, Europa e Estados Unidos. É rock do Brasil para o mundo."
Realmente as música Hey Amigo, um dos clássicos da banda já era conhecida antes de ser lançada em disco. Eu já a conhecia de uma apresentação na tv, e sabia da força da canção. Uma curiosidade é que Flávio Venturini é chamado de Flávio Alterosas. Abaixo a matéria:
"Para O Terço, chegou a hora da verdade. Depois de seis anos de dura batalha na escorregadia estrada do rock brasileiro, o grupo arrebanhou um público fiel, desenvolveu um trabalho vigoroso, conquistou muito prestígio e, o que é muito importante: colocou a canção Hey, Amigo nas paradas de sucesso, logo após o lançamento do LP Criaturas da Noite.
Não é para menos. Desde o ano passado, quando os caras do Terço começaram a correr o Brasil com seu show de rock elaborado e fluente, cada apresentação transformava-se numa festa alegre e descontraída. No fim de cada show, quando o baixo de Sérgio Magrão chama os acordes de Hey, Amigo, o público levanta das cadeiras e sai dançando, cantando a letra de cor e transformando a música numa espécie de hino da nossa nova geração rockeira.
Ao mesmo tempo que sedimentavam essa posição privilegiada junto ao público, através da apresentações impecáveis, os quatro caras (Sérgio Hinds, guitarra; Flávio Alterosas, teclados; Sérgio Magrão, baixo; Luis Moreno, bateria) do conjunto começavam a se preocupar com o registro, em disco, desse trabalho. E partiram para uma jogada corajosa e pioneira, que chegou mesmo a entravar os negócios com algumas gravadoras: a gravação por conta própria. Durante cerca de seis meses, apoiados pelo maestro Rogério Duprat, os caras do Terço produziram seu disco. Tudo foi feito por eles - desde a seleção das músicas e a elaboração de arranjos até a gravação final. Com a fita pronta, começaram a percorrer as diversas gravadoras. E ouviam sempre a mesma resposta: 'O nível do trabalho é excelente, talvez seja o disco de rock mais bem produzido do Brasil. Mas infelizmente...'
'A gente começou a achar que nosso tabalho estava sendo boicotado', diz Sérgio Hinds. 'Afinal, o lançamento do nosso disco abre um precedente. É o primeiro LP de rock brasileiro totalmente produzido pelo próprio grupo, sem interferência de gravadoras.' 
No fim, pintou a gravadora Copacabana, que, além de pagar os custos da produção, preparou outra jogada para O Terço: o lançamento de Criaturas da Noite no mercado internacional.
Isso, em princípio, pode parecer ousadia: afinal, como competir no exterior com um produto (o rock) que os gringos fazem e exportam tão bem? A isso os caras da gravadora contrapõem a experiência conquistada em trabalhos com Morris Albert, Benito Di Paula e outros brasileiros que já fazem sucesso no exterior. E, como dizem os próprios caras do Terço, 'se o rock alemão invadiu o mundo, por que o rock brasileiro não deve tentar? Nosso trabalho é sério, elaborado e profissional. E rock, todo mundo sabe, é uma linguagem universal, sem fronteiras.' "

domingo, 3 de março de 2013

Preciosidades em Vinil - Miles Davis/Charlie Parker

Um dos grandes discos de jazz de minha coleção de vinis, é sem dúvida esse álbum que registra duas sessões de  gravação que reúne dois dos maiores músicos de jazz de todos os tempos: Charlie Parker e Miles Davis, acontecidas em 28 de março de 1946 e 4 de novembro de 1947. O disco que possuo é uma reedição de 1982, da série "Everest Records - Archive of  Folk & Jazz Music", do selo Imagem. No texto de contracapa, o crítico José Domingos Raffaelli faz um belo comentário sobre o disco:
"Este é o melhor disco de jazz editado no Brasil juntamente com 'The Great Dizzy Gillespie'. Reúne faixas de duas famosas sessões do genial saxofonista Charlie Parker para a etiqueta Dial em 1946 e 1947, embora editado em nome de Miles Davis. São registros históricos, documentos musicais difinitivos da era do 'bebop' - um dos períodos mais férteis da história do jazz - executados pelo maior improvisador de todos os tempos e seus pequenos conjuntos. As composições originais do LP, com excessão do clássico A Night In Tunisia, de autoria de  Parker, tornaram-se parte integrante do repertório jazzístico: o extremamente melódico Yardbyrd Suite, o famoso Ornithology, o rítmico Moose The Moche, o incomparável Bird Of Paradise e o alegre Scrapple From The Apple. 
Charlie Parker
Escrever sobre Parker redundaria em em repetições enfadonhas. Seria melhor ouvir o 'breack' após a exposição de A Night In Tunisia' para constatarmos que ele fez 'o impossível': um turbilhão de de notas perfeitamente colocadas com total sentido musical. São apenas quatro compassos que abrigam a centelha musical fulgurante da marca de um gênio. O solo envolvente e preciso de Bird em Embraceable You é uma das maiores performances de balada em todos os tempos. Out Of Nowhere e My Old Flame são de grande beleza melódica, e Miles Davis preconiza uma nova direção pela frieza de suas linhas improvisadas - embora extremamente líricas - mais tarde definida nas célebres gravações do seu tenteto: o cool jazz. 
Este disco permite aos fãs brasileiros tomarem contato com três dos melhores músicos revelados naquele período: Lucky Thompson, Duke Jordan e Dodo Marmosa. Thompson é um solista completo, e em 1957 acrescentaria à sua bagagem instrumental o saxofone soprano, do qual viria a ser um dos maiores expoentes. Possuindo uma das maiores imaginações melódicas que se conhece, Lucky ombreou-se aos melhores de todos os tempos. Jordan possui um dos toques mais puros dentre os pianistas; seus pequenos solos são obras-primas de síntese e conteúdo musical, com a facilidade de saber condensar tantas ideias em tão curto espaço. Marmosa tinha muito talento, mas seu complexo de inferioridade, por considerar-se medíocre, terminou por afastá-lo do jazz  Max Roach, possivelmente o maior percussionista da história do jazz, expandiu o vocabulário do instrumento criado pelo pioneiro Kenny Clarke para a bateria moderna. Dos demais participantes, Victor McMillan e Roy Portes deixaram a música e Tommy Porter toca ocasionalmente. O promissor guitarrista Arv Garrison faleceu em 1960, vítima de epilepsia, deixando essas poucas faixas como legado musical. Miles Davis tornou-se um dos músicos mais influentes no curso do jazz, evoluindo como trumpetista e contribuindo com uma série de inovações para a ampliação do material temático. Em maio de 1974 seus concertos no Brasil motivaram fortes controvérsias pelas derivações do tipo de música que executou.
Miles Davis
Como afirmamos, este é o melhor disco de jazz lançado no Brasil ao lado daquele de Dizzy Gillespie. Curiosamente, ambos não foram editados em nome de Parker, embora contenham as obras-primas de Bird no ápice de sua carreira.
A Imagem orgulhosamente apresenta estas memoráveis e definitivas gravações em que o gênio inconteste daquele extraordinário músico deixou estampada indelevelmente o seu incomparável talento, do qual nenhum outro jazz man sequer aproximou-se."