Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Erasmo Carlos - Revista Pop (1975)

Erasmo Carlos foi um dos primeiros ídolos que tive na música. Quando ainda era criança, a Jovem Guarda me arrebatou, e Erasmo era um dos meus cantores preferidos, ao lado do seu parceiro Roberto Carlos. Mais tarde, já adolescente, continuei acompanhado a carreira de Erasmo, que nos meados dos anos 70 fazia o que havia de melhor no rock brasileiro daquele período.  Por isso, ao fazer a  milésima postagem desse blog, eu escolhi uma matéria com Erasmo Carlos. A postagem de número mil teria de ser com alguém muito especial pra mim, por isso escolhi essa ótima matéria, publicada em maio de 1975 na revista Pop, e assinada por Eduardo Athayde: 
"Um escravo do rock'n roll. É assim que Erasmo Carlos costuma definir sua posição musical. Não nega que tenha recebido diversas outras influências - o jeito de cantar de João Gilberto, para falar de uma. Mas a música que mexe com seu sangue, que o faz ficar todo arrepiado e que ele gosta mesmo de cantar - esta música é sem dúvida o rock'n roll.
Por isso, no ano passado, depois de superar uma crise de timidez, medo, desorientação e algumas doses de uísque a mais, Erasmo lançou um LP sustentado basicamente por rock: 1990 Projeto Salva Terra. O disco, além de de colocar uma faixa nas paradas de sucesso (Sou uma Criança Não Entendo Nada), revelou um Erasmo cheio de garra e energia, buscando forças inovadoras no rock brabo dos anos 50. Em questão de de algumas semanas, o amigo 'Tremendão' dos tempos da Jovem Guarda, que há dez anos atrás não podia sair na rua por causa do assédio das fãs, estava brilhando outra vez - agora como um dos maiores troncos da nascente 'floresta brasileira de rock', como ele mesmo gosta de falar.
Ele já tem 33 anos, muitos fios de cabelo branco, três filhos e uma mulher, Narinha, que é uma verdadeira fonte de energia para o seu trabalho. E, mesmo dizendo que é 'uma criança que não entende nada', revela grande lucidez, quando fala do rock e seu envolvimento com a juventude: 'Anos atrás, a maior dificuldade do rock era o descrédito: as pessoas não sacavam sua extraordinária importância como meio de expressão dos jovens e de afirmação de um comportamento social que busca cada vez mais a quebra de preconceitos. Ninguém admitia a possibilidade de existência do rock brasileiro, e a gente era chamado de alienado... Havia festinhas em apartamentos em Ipanema onde eu nem podia pensar em tocar violão - fatalmente seria linchado'.
Mas não era por isso que Erasmo iria deixar de ser um rockeiro. Quando a Jovem Guarda acabou e a  televisão já tinha desgastado completamente sua imagem, ele ficou um tempo parado. Então, em 68, apareceram os baianos e o tropicalismo, virando a mesa da música popular brasileira.
Ao mesmo tempo em que sua cuca ficou meio fundida com tudo o que estava acontecendo, Erasmo sentiu que só havia uma maneira de conseguir sobreviver como músico: seguir o caminho indicado pelo coração, isto é, o caminho do rock. Com a mulher Narinha conseguiu a estabilidade emocional, e com ela foi aos Estados Unidos sacar o que estava acontecendo por lá.
Quando voltou, estava mais seguro de seu trabalho: 'Ocorre que no meu trabalho sempre houve muita honestidade e sinceridade, e aos poucos fui firmando minha maneira de fazer música. O que pouca gente saca é que o rock não é só um som, e sim um todo refletindo os apelos existenciais da juventude, que encontrou eco para suas mais legítimas aspirações, tais como vestir-se descontraidamente, usar os cabelos como quiser, ser dona de si mesma.
Diferente do seu (ainda) parceiro Roberto Carlos, Erasmo permanece fiel às gerações mais novas. Hoje, seu público tem muitos daqueles caras que o aplaudiam no tempo da Jovem Guarda. Mas também tem muita gente da nova geração, com menos de 20 anos. Isso seria, segundo ele, resultado de uma identificação que vai além de simples padrões de comportamento: 'A vida de cada pessoa é um livro. Eu sempre fui bandido, jamais aceitei as coisas que tentaram estabelecer pra mim. Minha geração é do tempo do cuba-libre, festinha de formatura, namorinho e uma ou outra aventura na Barra da Tijuca. Não sou homem de dar conselhos, mas acho que fazer uso de tóxicos é malandragem de otário, embora cada um seja dono de si mesmo. E uma coisa é certa: o mundo é dos jovens, e eles já se aperceberam disso. A cada dia que passa há maior abertura e surgem novas chances para os jovens consertarem o que os mais velhos estragaram.'
E houve ainda outra mudança fundamental no rockeiro Erasmo Carlos: ele renunciou à imagem inatacável e sempre adorada de ídolo, que tinha no início da carreira. Preferiu descobrir o que sobrava dele mesmo depois da Jovem Guarda, assumir os grilos e aceitar, antes de tudo, que é um cara como qualquer outro: 'Antigamente as pessoas achavam que eu era um homem de acrílico, sem diarreia, vômitos, ressacas e muitos medos. Eu era pra eles um ser casto, puro, limpo e perfeito. Claro que eu não era nada disso, mas me acostumara à ideia de nadar a favor da corrente que me empurrava. À medida que os anos foram chegando, fui me convencendo de que não era nada daquilo que eu queria. E comecei a ficar enjoado. O sucesso não é uma boa, tira toda a tranquilidade da gente. O que realmente interessa é o prestígio do seu trabalho. Cara bonita e carrão são bobagens. Atualmente nem gosto de ser artista, quando estou fora do palco - sou um sujeito comum que ama sua família acima de tudo e que luta pelo reconhecimento de seu trabalho. Não posso dizer que repudio totalmente o comportamento das fãs daquele tempo, mas agora, quando saio na rua, as pessoas me reconhecem e me respeitam. Isso sim, é uma muito boa'.
E reconhecimento ao seu trabalho é o que não falta. Seu disco foi bem recebido por toda a crítica especializada e provocou uma enxurrada de convites para shows. Então, no começo deste ano, incentivado por Narinha, Erasmo deu um rolê na timidez e decidiu voltar a se apresentar aos palcos. Nada de televisão, como nos tempos da Jovem Guarda, 'porque não dá pé apresentar rock na televisão brasileira. Os técnicos não sabem gravar, você fica limitado a um espaço muito pequeno para se movimentar e o sonzinho nem dá para empolgar. É muito chato cantar pra uma máquina. Me amarro mesmo é em curtir um sonzão com a garotada vibrando, e isso só é possível em concertos, de preferência ao ar livre'.
Companhia Paulista de Rock
Assim, arrebanhou o baterista Dinho (ex-Mutantes), o baixista Sérgio Kaffa (ex-Scaladácida), o pianista Tuca (ex-Apokalypsis), o guitarrista Liminha (ex-Mutantes) e Ion Muniz, um cara que toca sax e flauta. Com esses cinco músicos fundou a Companhia Paulista de Rock, uma banda que prefere se divertir nas águas do rockão brabo a ficar se enrolando em fios e watts na procura do 'rock progressivo'. Com a banda, Erasmo fez ótimas temporadas no Rio e em São Paulo, participou de alguns festivais ao ar livre e quer correr o Brasil inteiro, este ano, levando para toda a moçada os recados e toques de um escravo do rock'n roll."
 



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