Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Rock Brasileiro Pós-Tropicália

Uma edição especial da revista Metal Massacre trazia uma longa matéria sobre o rock brasileiro, desde seus primórdios. A edição traz um bom texto, com muitas ilustrações. Como trata-se de uma matéria extensa, vou destacar o período que abrange o final dos anos 60, após o Tropicalismo, e os anos 70, um período bastante rico para o rock brasileiro. Segue o texto:
"Vamos deixar claro: os Beatles que serviram de inspiração à Jovem Guarda são aqueles quatro garotos de terninho, gravata e cabelo curto que viraram 'os reis do iê-iê-iê', que existiram até 1965. A partir daí, como que refletindo todas as mudanças que ocorriam no mundo, surgiu um outro grupo com o mesmo nome, cujos integrantes eram cabeludos, contestadores e experimentalistas...
Mas a nossa juventude roqueira, embora fosse bastante ativa, estava bem distante de se envolver com coisas mais 'sérias'; tanto que, em 1967, enquanto os Beatles lançavam o álbum Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band, que mudaria a história da música, Roberto Carlos cantava a rebeldia ingênua de 'Eu Sou Terrível'. Por isso, embora não seja propriamente um movimento roqueiro, o Tropicalismo deve ser levado em conta, pois trouxe consigo a contestação aberta ao sistema (herança direta dos hippies), 'batendo de frente' com a então ditadura militar que imperava no país, além de incorporar elementos da psicodelia do Sgt Pepper's... dos Beatles, tendo até mesmo introduzido um símbolo do rock (a guitarra elétrica) na MPB. 
Mas, a maior contribuição do movimento foi, sem dúvida, ter gerado em seu núcleo uma banda que se tornaria um capítulo à parte na história do rock brasileiro: Os Mutantes, formado em 1967 pelo núcleo Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, que registrou entre 1968 e 1972 cinco álbuns (houve também o Tecnicolor, gravado na França em 1970, e lançado somente em 2000), misturando MPB, jazz, música caipira, música clássica e, naturalmente, generosas doses de rock, desde o 'básico' aos Beatles em início de carreira, até o psicodelismo e o 'rock pesado', tudo regado a letras totalmente nonsense e cínicas e atitudes polêmicas, apresentando um trabalho irreverente e original. Com a saída de Rita, em 1972, Arnaldo e Sérgio passariam a fazer rock progressivo, fortemente influenciado por Yes e Genesis e registrariam um álbum, que permaneceria inédito até 1992, quando foi lançado em CD 'O A e o Z', gravado em 1973.
Rita, Arnaldo e Sérgio - o núcleo original dos Mutantes
Não tardou para Arnaldo também cair fora, mas a banda duraria até 1978, passando por inúmeras formações, sempre sob o comando de Sérgio, e cada vez indo mais fundo no progressivo, tendo registrado em 1974 um dos LPs mais apreciados pelos fãs do gênero, feito por uma banda brasileira, o Tudo Foi Feito Pelo Sol. Porém, após um álbum ao vivo e um compacto, encerram atividades definitivamente (*).
Enquanto isto, Rita prossegue em sua carreira, primeiro tendo como banda de apoio o Tutti Frutti, com a qual lançaria alguns bons discos de rock (o principal deles, Fruto Proibido, de 1975), tendo inclusive sido batizada como a 'grande dama do rock brasileiro'. No Tutti Frutti se destacariam os músicos Lee Marcucci. Luis Carlini e Lucinha Turnbull, que no futuro se envolveriam em inúmeros projetos de rock e MPB.
Lucinha desenvolveu uma carreira das mais curiosas do rock/pop brasileiros, tocando no espetáculo Rock Horror Show, participando de shows de figurões (e 'figurinhas') da MPB sempre como sidewoman. No começo dos anos 80, Lucinha gravou um álbum solo na Odeon (Aroma), cuja sonoridade, muito avançada para a época, o condenou ao esquecimento. Já Rita Lee, mais tarde, em parceria com o marido Roberto de Carvalho, enveredaria por outros estilos musicais, embora ainda mantivesse uma certa referência ao rock.
Módulo1000
Além dos Mutantes pós-Rita, houve muitos outros grupos que enveredaram pelo progressivo. Na realidade, o primeiro álbum do gênero lançado no Brasil foi o Não Fale Com Paredes, dos cariocas do Módulo 1000, que saiu em 1971 - embora sua essência fosse, de fato, uma mistura de psicodelismo com progressivo.
Em 1973, o Som Imaginário, banda criada para acompanhar Milton Nascimento no início dos anos 70, lança seu terceiro e último trabalho, o mais progressivo de todos, chamado Matança do Porco. No ano seguinte, sai o álbum de estreia de A Barca do Sol e o Snegs do Som Nosso de Cada Dia, um dos trabalhos mais característicos do Rock Progressivo brasileiro. Mas, sem dúvida, o auge do movimento aconteceu no ano de 1975, quando foi realizado em São Paulo o festival Banana Progressiva, que contou com alguns dos principais grupos da época, mesmo ano em que saíram o Criaturas da Noite, do Terço e o Lar de Maravilhas, do Casa das Máquinas, dois dos melhores trabalhos do rock progressivo brasileiro.
De Minas Gerais para o Brasil, surgiria no final dos anos 70 o grupo 14 Bis, inspiradíssimo em Beatles como toda a 'geração Clube da Esquina' (Toninho Horta, Lô Borges, Beto Guedes, o próprio Milton Nascimento, Tavito e outros). Durante uma década o 14 Bis fez discos bem elaborados com vários hits radiofônicos e razoável êxito comercial. Na época, até os fãs mais bem-humorados da banda a chamavam de '14 Bitols'...
Embora prossiga até os dias atuais, o movimento quase acabou ainda na década de 70, tanto que nenhum dos grupos surgidos na década se manteve fiel ao estilo. A grande maioria acabou migrando para a MPB, com exceção dos que registraram apenas um ou dois álbuns: caso do Moto Perpétuo (de Guilherme Arantes), o Terreno Baldio e o Recordando o Vale das Maçãs, que certamente detém o título de 'banda com nome mais pitoresco do rock brasileiro do passado' - pois, hoje em dia, a quantidade de nomes estranhos que surge é muito grande...
Sá, Rodrix & Guarabyra
Foi na década de 70 que se consolidou o rock brasileiro (ao contrário do rock feito no Brasil, com bandas gravando em português e adicionando elementos regionais em sua música). Foi também a época na qual, finalmente, o rock deixa de ser coisa exclusivamente para jovens, e passa a atingir o grande público.
Sem dúvida, um dos grandes responsáveis por isso foi o Secos & Molhados que, com seu álbum de estreia, conseguiu a proeza de vender mais de um milhão de cópias só no ano de 1973, fazendo uma mistura de MPB com elementos roqueiros, tendo sido, além de tudo, um dos pioneiros no visual andrógino que seus integrantes apresentavam - o mais famoso deles, Ney Matogrosso, seguiu, posteriormente, uma carreira solo de grande sucesso, abandonando definitivamente o rock.
Ruy Maurity
Outro movimento surgido no início da década foi o rock rural, que misturava rock com sonoridades regionais, tudo regado por uma certa temática 'hippie', podendo ser destacados neste quesito grupos com Almôndegas (de onde saiu a dupla Kleiton e Kledir), Ruy Maurity Trio e Sá, Rodrix & Guarabyra (que mais tarde se reduziria à dupla Sá & Guarabyra).
Entretanto, o roqueiro que mais marcaria a década seria Raul Seixas (Raul Santos Seixas), nascido em Salvador, que, embora tenha iniciado sua carreira ainda nos anos 60, só estouraria mesmo alguns anos depois, com canções como 'Ouro de Tolo', 'Metamorfose Ambulante', 'Mosca na Sopa', 'Gita', 'Maluco Beleza' e muitas outras. Depois de sua morte, a legião de fãs aumentou ainda mais, tendo ele se tornado definitivamente uma espécie de lenda do rock e da anarquia brasileira, cuja vida e obra é muito importante, merecendo por isso um estudo à parte. "

(*) Isso na verdade não aconteceu. A banda retornou a atividade outras vezes.

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