Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Clara Nunes - Revista Música Brasileira (1998)

Clara Nunes é uma das mais marcantes intérpretes de samba do país. Apresentada inicialmente como cantora de músicas românticas e boleros, Clara seria apenas mais uma cantora dentre tantas que seguiram essa vertente, e com certeza não teria uma carreira brilhante se não fosse produzida como cantora de samba anos mais tarde. Como intérprete de sambas, Clara ganhou projeção e se tornou uma grande estrela, tendo gravado vários álbuns que se tornaram clássicos e campeões de vendagem.
Em 1998, quando se completaram 15 anos de seu precoce desaparecimento, a revista Música Brasileira, em sua edição nº 11 trazia uma matéria com a grande intérprete mineira, em matéria assinada por Renata Alzuguir e Rodrigo Alzuguir, intitulada "Clara: Retrato do Brasil":
"Falar em Clara Nunes é falar em festa, beleza, força, garra, brasilidade, autenticidade, personalidade e vitória. É falar em qualidade aliada à popularidade, coisa rara hoje em dia. Clara sintetiza e traduz com dignidade e elegância o caldeirão cultural brasileiro, mestiço, agregador, sincrético. Celebrou como ninguém nossas raízes e nossa teimosa alegria de viver.
Clara é um marco na MPB. Uma unanimidade no meio intelectual e artístico. Primeira mulher brasileira a vender 'como homem', se equiparando ao 'rei' Roberto Carlos e pioneira no registro em disco de canções ligadas à religiosidade afro-brasileira. Quebrou tabus de que MPB genuína não vende e muito menos mulher. Bateu recorde que permanece até hoje no Canecão, quando fez, ao lado de Paulo Gracindo, a maior e mais bem sucedida temporada que a casa já teve, com o espetáculo Brasileiro: Profissão Esperança.
Clara abriu caminho para muita gente. Apostava sempre em novos talentos, sem nunca deixar de prestigiar compositores da antiga, revisitando-os. Partiu cedo, mas deixou um imenso legado. A coerência de seu trabalho, sua bandeira de resistência, sua voz cristalina e emocionante ('voz de mãe', segundo Marisa Monte) e seu repertório irretocável.
Clara Francisca nasceu no dia 12 de agosto de 1942, numa casa humilde na beira de um córrego em Paraopeba, a uma hora de BH. Caçula de sete irmãos, seu pai, Mané Serrador, era violeiro requisitado para festas, bailes e casamentos da região, e figura imprescindível nas Folias de Reis, quando se vestia de rei mago e liderava a festa.
Clara tinha em torno de 10 anos quando ganhou seu primeiro prêmio, num concurso de calouros, organizado pela comunidade de Paraopeba. Cantou Recuerdos de Ypacaraí e faturou o cobiçado vestido azul - prêmio para a primeira colocada. A partir daí começou a colecionar todo tipo de bugigangas ganhas naqueles concursos que eram sua alegria - latas de talco, sabonetes, lavandas e peças de tecido, entre outros artigos. Por essa época, Clara também mambembeou muito pela região com o grupo de teatro de uma das irmãs. Pegavam caronas em caçambas de caminhões e iam se apresentar nas fazendas próximas a vilarejos.
Tendo perdido os pais muito cedo, Clara empregou-se aos 14 anos como tecelã na fábrica da cidade, mudando-se dois anos após para BH. Ainda tecelã. Eis que entra em cena um certo Jadir Ambrósio. Como que num prenúncio de sua bandeira de brasilidade, a fada madrinha de Clara foi um senhor negro, elegante, esguio, com ares de entidade.
Jadir, compositor, violonista, a ouviu cantar A Noite do Meu Bem em uma barraquinha na Igreja Sto Afonso. Empolgado com a moça, passou a levá-la, com permissão da família, aos programas de calouros e concursos nas rádios, onde ela se apresentava como Clara Francisca.
Em 1960, Clara (já Nunes) venceu a fase mineira do concurso/programa de rádio 'A Voz de Ouro ABC', cantando Serenata do Adeus. Aos poucos a menina de 18 anos se tornava nome conhecido em Minas, com direito a programa ao vivo com seu nome na TV Itacolomy, onde cantava e recebia convidados. Entre eles, Ângela Maria e Altemar  Dutra, que a incentivavam a tentar a sorte no Rio.
Chegava a hora de se mostrar para o Brasil. Com  a cara e a coragem Clara veio para o Rio, conseguiu um teste na gravadora Odeon, foi aprovada, mas seu primeiro disco A Voz Adorável de Clara Nunes sairia somente um ano depois, em 66. Repertório romântico, arranjos de Lyrio Panicali. A gravadora estava decidida a fazer dela um 'Altemar Dutra de saias'. Logo quem...
Entre vagas em apartamentos na Barata Ribeiro e brechas em programas de auditório, acontece em 68 seu 1º sucesso, Você Passa Eu Acho Graça (Ataulfo Alves/Carlos Imperial), que ela defendeu num dos festivais da Record. Veio então uma fase de intensa participação nos festivais. Clara defendeu várias vezes a dupla César Costa Filho e Aldir Blanc, sendo a primeira a gravar Aldir, com De Esquina em Esquina (dele e de César).
Em 71, o radialista Adelzon Alves passou a produzir os discos de Clara, direcionando seu trabalho para o samba e ritmos brasileiros. A parceria gerou discos memoráveis e sucessos como Ê Baiana, Tristeza Pé no Chão, Ilu-Ayê e Quando Eu Vim de Minas. O quarto (e último) disco de Clara produzido por Adelzon, Alvorecer, fechou com chave de Ouro o trabalho da dupla, batendo o recorde feminino de vendagem no Brasil: em torno de 300 mil cópias. O carro-chefe do disco tornou-se inesperadamente uma canção escondida no lado B, talvez a música até hoje mais associada à Clara, Conto de Areia (Romildo/Toninho).
Clara e Paulo César Pinheiro
Clara só tomou consciência de que era uma paixão nacional quando visitou uma fábrica da Odeon que tinha parado para prensar exclusivamente o seu disco de 1975. Claridade vendia feito água e feito disco do 'rei' Roberto (se equiparou à vendagem de 400 mil cópias). Nenhuma mulher tinha conseguido isso no Brasil. Clara chorava uma lágrima de lavar a alma: 'Eu que trabalhei de tecelã em fábrica nunca imaginei que um dia ia ver uma fábrica produzindo só disco meu...'
Seguiu até o fim como grande vendedora, entrando para a história da MPB como uma das artistas de maior vendagem de todos os tempos.
A partir de O Canto das Três Raças (76), todos os discos de Clara seriam produzidos pelo poeta/compositor/então-marido Paulo César Pinheiro, até o último e genial Nação (82). O trabalho do poeta se deu no sentido de solidificar a imagem de Clara como cantora, aberta a todas as vertentes da música brasileira. Estrela da Odeon, os discos de Clara contavam com a nata dos músicos (Dino, Rafael, Jackson do Pandeiro, Marçal, Luizão, Sivuca, Hélio Delmiro...) e arranjadores (Radamés, Gaya, Vespar...). Era o popular feito com  a maior qualidade. Os discos passam a ser imperdíveis como um todo, entre eles: As Forças da Natureza (77), Guerreira (78), Esperança (79), Brasil Mestiço (80).
Casos engraçados e interessantes ilustram a personalidade espontânea de Clara. Como quando ela e Vinícius de Moraes, na turnê do disco Poeta, Moça e Violão, carregaram mendigos para dentro do hotel e lhes pagaram a diária, com pena do frio que passavam na rua. Ou quando Clara ia tomar satisfação de quem perseguia algum amigo seu. Casos não faltam...
Segundo Bibi Ferreira, que conheceu as duas muito bem, Clara e Carmem Miranda eram muito parecidas, elétricas, comilonas, carismáticas, sorrisos fáceis. Adelzon Alves também sacou esse paralelo entre as duas. Vide releituras que Clara fez de O que é que a Baiana Tem? e Arlequim de Bronze, antigos sucessos de Carmem.
Dez metros de altura. Esse era o tamanho de Clara no palco, segundo João Nogueira e Cristina Buarque. 'Entravam ela e mais vinte', diz Alcione a respeito. De Marisa Gata Mansa à Selma Reis, são todos unânimes quanto ao carisma impressionante de Clara.
Clara e Beth Carvalho
Ainda hoje, 15 anos depois de sua morte, Clara é homenageada em países como Japão, Suécia, França, Portugal, Cuba, Angola, onde foi, cantou e se tornou ídolo. Na França, foi matéria na Vogue, com seus vestidos de renda. Na Suécia dos anos 70, várias meninas foram batizadas de Clara, com C (lá é Klara), por sua causa, segundo a própria imprensa local.
Em agosto os assinantes do Multishow (GloboSat) assistirão em 1ª mão um Especial 'biográfico-musical' sobre Clara (produzido por Renata e Rodrigo Azulguir), da infância humilde da cantora em Paraopeba até a consagração no Brasil e no exterior. Entre depoimentos de amigos e familiares colhidos para a pesquisa estão os de: Bibi Ferreira, Paulo César Pinheiro, João Nogueira, Alcione, Artur da Távola, Marisa Gata Mansa, Sérgio Cabral, Hermínio Bello de Carvalho, Adelzon Alves e Monarco.
As homenagens da Alzuguir Produtora não param por aí. No segundo semestre deste ano estará no mercado um 'Álbum de Música' com 100 canções do repertório de Clara, uma publicação inédita no gênero por enfocar a obra de um intérprete, e que conta com incentivo de Paulo César Pinheiro. O álbum virá acompanhado de um CD do tipo play-a-long para a prática de instrumentistas e cantores. Quem lidera a equipe de músicos responsáveis pela transcrição das canções e arranjos do CD é o violonista Maurício Carrilho. "


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