Palavras Domesticadas

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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Neil Young - Entrevista Revista Qualis (1992)

Neil Young é um dos nomes mais importantes do rock. Com um trabalho extenso, e de grande qualidade, passando por várias fases, em grupos ou solo, Young angariou um respeito e uma admiração que poucos artistas de sua geração alcançaram. Em 1992 Neil Young lançava mais um disco, Harvest Moon, o 27º de sua carreira, uma continuação de um de seus álbuns mais clássicos, Harvest, de 1972. Na ocasião, a revista Qualis conseguiu uma entrevista exclusiva com o grande astro, quando ele falou do lançamento, e de seu desejo de tocar no Brasil, o que só viria acontecer em 2001, na terceira edição do Rock in Rio. A entrevista foi concedida a Jean-Yves de Neufville, e é reproduzida abaixo:
"Dono de uma voz única e de um estilo de tocar guitarra inconfundível, Neil Young participou de capítulos decisivos da história recente da música popular norte-americana - um deles ao lado dos parceiros Crosby, Stills e Nash -, numa trajetória que cobre quatro décadas. Mesmo com o passar do tempo, a estrela de Young nunca deixou de brilhar, sempre energizada pelo seu talento ímpar de compositor - na esteira de Bob Dylan, Young assina algumas das mais belas canções do repertório pop, transitando com desenvoltura entre o country, o rock, o folk, o blues e o jazz.
Ao contrário da maioria dos rock stars de sua geração, Neil Young envelheceu como um bom vinho e nunca esteve tão criativo como hoje, como atesta Harvest Moon, que marca uma nova guinada para o country e tem participação de Linda Ronstad e James Taylor. Infelizmente, discos como Freedom (89) e Ragged Glory (90), entre os melhores que gravou, foram editados no Brasil com meses e atraso. Outros foram simplesmente ignorados como o CD duplo Weld (91), ao vivo com a banda Crazy Horse, um registro fantástico do show que o Brasil não pôde ver no começo deste ano.
Qualis - Um ano atrás, o seu nome apareceu no topo de uma lista dos artistas participantes de um  importante festival brasileiro, o Hollywood Rock. Algum tempo depois os organizadores publicaram um comunicado dizendo que sua vinda estava cancelada, sem maiores explicações. O que aconteceu de fato?
Neil Young - Inicialmente estava muito feliz de tocar no Brasil. É algo que pretendia fazer há muito tempo. Achava que Holywood era  o nome do local do show ou coisa do gênero. Infelizmente foi um mal entendido. Não sabia que era uma marca de cigarro. Se eu soubesse disso nem teria iniciado as negociações com eles. Não quero que o meu público associe o meu nome ao ato de fumar cigarro. De resto, não há nada pessoal contra aquela companhia.
Qualis - Ainda existe alguma possibilidade de ver Neil Young num palco brasileiro com sua banda, o Crazy Horse?
Young - Com certeza. Espero poder ir logo ao Brasil, não com o Crazy Horse e sim com a banda que toca em meu novo disco. É um projeto que pode se concretizar em breve, com certeza no ano que vem, mas nada foi confirmado ainda.
Qualis - Este álbum que você está lançando agora, Harvest Moon, é mesmo uma continuação da álbum Harvest, de 72?
Young - Sim. É uma espécie de continuação. Não era  o projeto que eu tinha quando entrei no estúdio, mas a ideia de dar uma sequência ao álbum Harvest foi se tornando clara no decorrer da gravação.
Qualis - É verdade que foi gravado exatamente nas mesmas condições - com os mesmos músicos e cantores, nos mesmos estúdios?
Young - São praticamente os mesmos músicos mas não os mesmos estúdios. Quando compus as canções pensei imediatamente neles porque são os melhores para tocar o tipo de música que eu queria. Com isso a ideia de fazer uma continuação para Harvest tornou-se óbvia.
Qualis - Harvest Moon tem uma dominante country. Esse estilo voltou a imperar no gosto popular nos EUA enquanto o rock'nroll parece estar enfrentando uma crise de criatividade. Você confirma essa tendência?
Young - É a crise de meia-idade do rock'nroll (risos). De qualquer forma é tudo música. Pouco importa qual seja o estilo contanto que eu goste do que estou tocando e do resultado. Nem penso muito nisso. O importante é acreditar e gostar. Mesmo assim tenho visto boas bandas de rock surgindo por aí (não me pergunte os nomes, sou péssimo pra essas coisas). Também acho a música country em geral muito alinhada a um tipo fácil, que chamamos middle of the road. Por outro lado, a verdadeira música country, a antiga, original, nem é tão popular. Alguns ótimos artistas de country têm surgido nos últimos tempos mas não acho que o country irá substituir algum dia o rock'n roll. Atualmente o rock se retraiu. Refugiou-se no underground. Isso é muito bom para ele. É uma volta às origens para se regenerar.
Qualis - Qual é a sua atitude em relação ao passado? O fato de criar uma continuação pra o álbum Harvest é reflexo de uma nostalgia?
Young - Ao contrário do que você pode achar, não penso muito no passado. Prefiro me deter no amanhã. O que é interessante fazer é resgatar elementos do passado para retrabalhá-los. Na medida em que vou envelhecendo faço cada vez mais isso. Mas não me volto para o passado com um sentimento de nostalgia, querendo que as coisas voltem a ser como estavam, achando que estavam melhores. Qual seria o interesse disso? Prefiro estar atento ao que vai acontecer.
Qualis - O seu público mudou nesses últimos 20 anos?
Young - 20 anos atrás, tudo era novidade para mim. Me lembro de que achava extraordinário poder gravar discos e fazer shows, coisas que sempre adorei, e ainda poder viver disso! Agora isso se transformou numa certa rotina mas o que faço ainda me dá muito prazer. Nada melhor do que compor canções e fazer com que elas existam através dos instrumentos. O que mudou 20 anos depois é que vejo minha carreira, minha trajetória em perspectiva e também me tornei mais precavido. O resto, tirando o fato de estar mais velho, não mudou. Continuo tão envolvido no que faço quanto antes.
Qualis - Tecnicamente, você não acha que aprimorou seu estilo de tocar guitarra, por exemplo?
Young - Não gosto muito de falar sobre isso.  Digamos que toco um pouco melhor do que no começo. Tendo maior conhecimento do instrumento, os sons fluem mais naturalmente. Mas nunca fui um guitarrista muito bom tecnicamente.
Qualis - Qual foi a sua reação, ano passado, quando a imprensa inglesa o elegeu entre os cinco melhores guitarristas de todos os tempos?
Young - Não imaginava que fosse possível uma coisa dessa acontecer. Bem, gosto muito de tocar, não sou muito técnico, mas acho que consigo passar boas doses de feeling através do meu instrumento. De qualquer forma é uma honra. Tenho certeza de que os primeiros grandes mestres da guitarra, os verdadeiros, devem estar se perguntando: 'o que esse cara está fazendo no meio da gente?' (risos)
Qualis - Em 90, você também foi homenageado por um grupo de artistas, entre os quais Nick Cave, num álbum-tributo chamado The Bridge.
Young - Foi fantástico. O maior mérito desse disco foi que tornou possível a existência de uma escola para crianças deficientes, a Bridge School, em San Francisco, Califórnia, fundada pela minha mulher
Qualis - Qual é a sua reação ao ouvir versões de suas canções interpretadas por outros artistas?
Young - Gosto muito. É fascinante para mim ver o quanto essas abordagens de minhas canções podem ser diferentes e interessantes.
Qualis - Ao longo de sua carreira você alternou fases alegres, otimistas, como quando gravou o álbum Harvest, com períodos de profunda depressão refletida em discos sombrios, que chegaram a desorientar seus fãs. Com você, as coisas parecem funcionar por ciclos. Concorda?
Young - Sim, a vida é assim e minha música apenas reflete isso.
Qualis - Parece haver de um lado 'Neil  o rebelde', que aparece em discos de rara violência como Weld (91), e de outro 'Neil o tranquilo', que atua em discos bastante românticos, como este Harvest Moon. Os dois estão sempre brigando. Qual deles é o verdadeiro?
Young - Acertou na mosca. Sou realmente assim. Felizmente há duas bandas diferentes para tocar com os dois Neils. Até hoje não encontrei músicos capazes de tocar os dois lados de minha música. Então  é preciso mudar de banda toda hora. Mas em todos os casos é Neil Young que está tocando, com a sorte de poder contar com maior quantidade de músicos. Nisso acho que tenho muita sorte.
Qualis - Em maio de 88, o clip da música 'This Note's For You' - uma sátira hilariante à interferência no rock de multinacionais como Pepsi Cola, em que um clone de Michael Jackson aparecia com o cabelo em fogo - foi inicialmente proibido na MTV. Em setembro de 89, o mesmo clip recebeu o prêmio de 'clip do ano' da mesma MTV. O que você achou desse episódio?
Young - Foi... inacreditável (risos). Os fatos falam por si. As atitudes que a MTV tomou acabaram se voltando contra ela mesma. Fiz uma canção que tinha uma mensagem bastante divertida, Julian Temple teve a ideia de fazer um vídeo também divertido, e a reação da MTV foi séria demais  Foram eles mesmos que criaram o problema, se deram conta do erro e voltaram atrás.
Qualis - Parece que hoje o simples ato de ouvir música saiu de moda. O interesse musical dos jovens está condicionado à pergunta: 'existe um clip disso?' O grande lance agora é ficar assistindo música para dançar retalhada em imagens. Como você se sente diante dessa tendência?
 Young - Bem, as coisas estão mesmo indo nessa direção. Ainda dou preferência à simples audição da música. É  a coisa mais importante para mim. As pessoas não estão mais ouvindo música como antes, não apenas por causa da existência dos videoclips , mas também porque os discos não são tão bons quanto eram no passado. Não dá mais para ficar ouvindo e ouvindo um mesmo disco e ter tanto prazer. Não soam tão bem. Nenhum disco. É por causa do som digital. Os CDs não soam tão bem quanto os velhos LPs analógicos. Então, para compensar, o pessoal recorre ao vídeo. Isso é uma opinião pessoal. Gosto do vídeo. É mais um elemento do processo, uma nova ferramenta de criação. só que é preciso tirar o melhor proveito possível dessa ferramenta, o que está longe de acontecer.
Qualis - Numa recente entrevista, Frank Zappa disse que detectou uma 'conspiração contra o pensamento', explicando que, nas últimas décadas, todas as atuações do governo (dos EUA), em todos os níveis, contribuíram para minimizar a importância da educação e reprimir os indivíduos e grupos que quisessem exercer sua liberdade. Segundo ele, o objetivo é perpetuar um tipo de estupidez que assola uma nação inteira sentada na frente da TV engolindo comerciais, vítima do lema 'seja um parasita e cale a boca.'
Como Zappa, você é um dos raros pop stars capazes de pôr sua arte a serviço da conscientização das pessoas. Você concorda com o que ele diz?
Young - Frank é sempre muito espirituoso nos comentários que faz. Concordo com as linhas gerais dessa declaração embora não conheça o contexto em que foi feita. Cada vez mais a indústria controla os meios de comunicação e as programações de TVs e rádios. Estas por sua vez estão se tornando uniformizadas, inócuas. Na música essa tendência está sendo incentivada pelo número crescente de contratos de grandes companhias com artistas, o que está levando a uma diluição geral. A música que era feita nos anos 60, no espírito daquela época, foi desviada  de seu sentido pelas leis do mercado.
No entanto, para mim, a música continua sendo uma viagem fascinante; é um enorme prazer poder me comunicar através dela e sempre farei uso desse poder quando for preciso.
Qualis - O que espera do novo presidente dos EUA?
Young - Ele poderia começar a mudar alguma coisa, quem sabe? Não sei o que esperar. Torço para que ele faça o melhor e para que dê certo tudo o que pretende fazer. Vamos esperar para ver mas ele tem meu apoio por enquanto.
Qualis - Você está no momento supervisionando a edição de uma caixa de quatro CDs que deve reunir boa parte de sua obra. Mais uma vez um projeto que o envolve com o seu passado...
Young - É justamente por isso que está demorando tanto para ficar pronto (risos). Quero tirar o melhor resultado possível desse passado, só que não gosto muito de remexer nele, nem tenho tempo pra isso. Ainda bem que há um monte de pessoas trabalhando nesse projeto para mim. De vez em quando vou conferir o que estão fazendo e dou algumas diretrizes gerais. Mas é difícil. Quero montar essa caixa da melhor maneira possível e por isso não tenho a menor pressa para terminar o trabalho."


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