Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Jorge Ben Jor - Revista do CD (1991)

Em 1991 Jorge Ben Jor lançava o CD duplo Ao Vivo no Rio, com antigos sucessos e algumas inéditas. Naquele período a carreira de Jorge experimentou uma revitalização, com a descoberta de sua música pela nova geração, acompanhada de muitos shows, execuções em rádio e aparições na TV.  Em setembro daquela ano, a Revista do CD trazia uma matéria de capa com Ben Jor, destacando o lançamento e trazendo dados auto-biográficos. Entre as matérias, há um box especial escrito pelo crítico Tárik de Souza, intitulado "Artes de um alquimista", que fala do lançamento, de sua carreira, e traz algumas informações interessantes sobre algumas de suas músicas:
"Jorge Benjor tem discípulos confessos como Luiz Melodia e Skowa, da extinta banda Máfia; já recebeu homenagens musicadas de outros bambas (Jorge Maravilha, de Chico Buarque, uma citação em Podres Poderes, de Caetano Veloso) e durante algum tempo colecionou clones tipo Bebeto e Serginho Meriti. Mas ninguém consegue apontar antecedentes para sua obra fundadora. Ele puxa pela memória antes de citar os discos de cabeceira da infância (Nelson Gonçalves, Angela Maria, Luiz Gonzaga) até deparar-se com alguma possível influência emulada do swing de Jackson do Pandeiro, somada à descoberta de temas afros num antigo disco do baiano Camafeu de Oxóssi, com cânticos em iorubá.
Esse acrobata sem rede, esse Magritte tropical cria praticamente do nada seus sambas mântricos, como no caso de títulos de uma biblioteca encadeados em As Rosas Eram Todas Amarelas ou o 'release' que virou trilha sonora de sucesso em 'Xica da Silva'. Tudo inspira Jorge: de uma simples noite de chuva (Chove Chuva reaparece com nova roupagem reggae introduzida pela nova Selassié; Que Maravilha está cada vez mais mais blues) a uma ficção intergalática - a do Homem do Espaço, que de tão apaixonado que ficou por uma neguinha escultural, esqueceu até de desligar a aeronave.
Num showmício pela candidatura do vereador Gilberto Gil, na Bahia, surgiu Menina Sarará, que no CD Ao Vivo no Rio se transformou numa espécie de aperitivo energético da ancestral Mas, Que Nada. 'Esse tipo de mulher sarará só tem lá em cima e a menina dançava tão diferente que eu fiz logo o samba pra ela', dispara.
capa da revista
Frequentador de primitivas sessões de jongo, levado pelo pai, Jorge conheceu no morro o estilo sincopado que ele decupa em Miudinho. É a parte do show (e do CD) em que ele mais incita à dança, recuperando uma prática de velhos bambas, celebrada também por Paulinho da Viola. Em Ela Mora na Pavuna, outro flagrante comportamental, impulsionado como sempre por uma musa condutora ('Ela era uma graça, mas muito besta também', ri). Jorge descreve as inocentes domingueiras dançantes de um clube de subúrbio do Rio, onde ele costumava apresentar-se. No mesmo local que inspirou a primeira gravação de samba batucado (o clássico Na Pavuna, com Almirante), ele reunia cinco a seis mil pessoas em shows que se iniciavam pacatamente às sete da noite, mas acabaram suspensos por causa dos tiroteios dos bailes 'funks' das noites anteriores.
Outra inédita, W/Brasil, é descrita por Jorge como 'inteiro nonsense'. A figura rotunda de Tim Maia é convocada no refrão, como se fosse o síndico de uma bagunça poética que mistura aviões do Jacarezinho com a sigla da empresa publicitária de Washington Olivetto. Umbabarauma, a eleita de David Byrne para o primeiro picadinho tropicalista que editou nos EUA - e recém regravada pela dupla Ambitious Lovers, de Arto Lindsay - , foi escrita a propósito do primeiro jogador africano que apareceu no futebol inglês, 'lá por 73, 74'. Mais uma vez profeta, Benjor exaltou o futebol africano bem antes da explosão da equipe dos Camarões na Copa de 90.
Mas outro homenageado, o rubro-negro e hilário atacante Fio, foi destronado na revisão do clássico agora transformado em Filho Maravilha. Fio caiu na esparrela de processar Jorge pela homenagem. Assessorado pelo advogado João Carlos Muller Chaves, hoje presidente da ABPD - Associação Brasileira dos Produtores de Discos -, o compositor ganhou a causa e rompeu com o jogador, que fez seu Flamengo vencer o Benfica num torneio de verão no início de 70, com um gol marcado 'aos 33 minutos/do segundo tempo', como canta o samba.
Não foi a única vez que Benjor foi parar na Justiça por causa de uma música. Taj Mahal também foi recauchutada no medley que encerra o CD, fez o compositor chamar às falas o roqueiro Rod Stewart, que o plagiou em Do Ya Think I'm Sexy. Recentemente a canção valeu uma retro-homenagem do músico americano Taj Mahal, que se considerou lisonjeado pelo refrão com seu nome artístico. Ele regravou a música e só trocou o estribilho pelo nome do autor, entrando com isso de parceria. É mole ou quer mais? Ao menos, que as musas não lhe causem tantos percalços Uma das várias cultuadas no CD, Ive Brussel, tem uma história curiosa. Trata-se de uma fã de Bruxelas (daí o Brussel), que foi procurá-lo numa cidade belga com um disco para ele autografar. Mais que a assinatura, do ídolo, a fã ganhou um hit de presente. Artes de alquimista. "

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