Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Celso Blues Boy Encontra B.B. King - Revista Roll (1986)

Celso Blues Boy nunca escondeu sua grande admiração pelo bluesman B.B. King. O seu próprio nome artístico é uma homenagem a B.B. King (Blues Boy King). Em 1986 o grande mestre do blues faria uma de suas muitas excursões pelo Brasil, onde sempre teve muitos fãs. Na ocasião, a revista Roll promoveu o encontro entre fã e ídolo. Um texto que introduz a matéria, assinada por Manolo Gutierrez diz: 
"B.B. King no Brasil. É claro que todo mundo foi ver e ouvir o homem. Mas a Roll resolveu fazer um pouquinho mais: levamos nosso maior blueseiro, Celso Blues Boy, para encontrar seu ídolo. Veja a seguir como foi esse encontro e saiba as impressões e opiniões dessa lenda viva da guitarra: Mr. B.B. King."
Segue a abaixo a transcrição da matéria:
"Clara tarde de inverno no Rio de Janeiro e o tom do céu não poderia ser mais blues: rigorosamente sem uma nuvem. Subindo de carro pelo litoral, Celso Blues Boy, nosso principal bluesman e emérito roqueiro, já mal conseguia se conter, afinal agora só uns poucos quilômetros o separavam de realizar algo mais do que um mero sonho. Blues vai encontrar cara a cara seu maior ídolo e influência máxima: o rei do blues, B.B. King. O encontro teria lugar na piscina do hotel em que B.B. iria mais tarde se apresentar, e a própria imprensa especializada presente à entrevista, ao ver Celso no local, sentiu que aquela seria uma coletiva um pouco diferente das outras. Não demorou o tempo de um café: com a imponência de um verdadeiro rei, desembarcou do elevador sua majestade, acompanhada de um pequeno séquito. Uma verdadeira tropa de fotógrafos desaba em cima de King, logo apresentado a Blues Boy, que a essa altura, diante da fera, não conseguia emitir um som. Depois de um demorado e inesquecível aperto de mão, Celso entregou ao rei seus discos, os quais, humildemente, B.B. devolveu pedindo que os autografasse. Aí já foi demais pro nosso pobre bluesman, cujas mãos sempre tão firmes nas puxadas cortantes no fim da escala, tremiam qual vítima de esclerose múltipla. Realmente era emoção demais pra qualquer guitarrista e um raríssimo privilégio.
 Realizado o encontro, o mestre pega sua inseparável e endiabrada 'Lucille' (uma sempre negra e linda Gibson, que já sai da fábrica com o nome de B.B. estampado nela) e pede que Celso toque alguma coisa. Era emoção demais pra um dia só e ainda tremendo muito o mago da Fender, empunha a menina dos olhos do mestre. Celso, já então num tal estado de em que as lágrimas se confundem com risos elétricos, devaneia pela escala. À  sua volta, todos sentem a emoção que aquilo representou para o nosso príncipe do blues. Acostumado a muitas entrevistas e dezenas de coletivas, esta desde o início foi incomum e seu desenrolar só confirmou minha suspeita. O velho B.B. tem um alto astral de impressionar; realmente coisa de parapsicologia. Sua fala sempre mansa e sua simpatia contagiante, aliadas a uma fluente musicalidade, fazem deste encontro muito mais que um prazer, afinal Riley King, 61 anos, 37 de estrada, 50 discos e mentor da melhor safra de guitarristas que o mundo já viu, de Hendrix a Jordan, é uma lenda viva da música do nosso tempo. Aliás, vivo ele está e muito, pois com a idade que tem, King ainda toca 300 noites em cada ano, e apesar de ter se divorciado recentemente e ter passado por um período de certa desilusão com a instituição do casamento, parece já recuperado e está procurando uma nova rainha pras noites frias de Memphis. 'Acho que aqui é um bom lugar pra arranjar uma esposa, as mulheres são lindas por aqui.', confessa King com aquele olhar maroto que lhe é peculiar.
Celso dedilhando a guitarra do mestre
Egresso de uma infância muito pobre em Ita Benna, pequena cidade às margens do velho e cinematográfico Mississipi, King conta coisas, que chegam a impressionar, como a história de um de seus primeiros violões, que, quando as cordas se rompiam, eram substituídas amarrando um arame até a altura em que a corda tinha se rompido; amarravam então as cordas nesse arame e utilizavam apenas a parte restante da escala. Segundo ele, coisas como essa foram definitivas para os tons agudos de certos solos bluesísticos. Quanto a influências e referências, King se diz muito eclético: 'Gosto de tudo que é bom independente de estilo ou nacionalidade;  se você toca, e toca bem, então eu gosto'. Para .B.B. há vários bons músicos em atividade; cita Steve Ray Vaughan, define Stanley Jordan como duas mãos e 40 dedos ('É muito jovem, será grande'), adora o jeito de Andre Segovia... Nesta altura, Blues Boy interrompe e pergunta sobre Eric Clapton, ao qual, com fala e jeito de rei, B.B. responde: 'ele me ouviu muito quando começou, agora eu escuto ele'. Uma rápida observação nos rostos as mais ou menos 20 pessoas entre repórteres, fotógrafos, seguranças e inevitáveis curiosos, presentes à piscina naquela agradável tarde, revelava  um único resultado: todos, sem exceção, têm um sorriso estampado, parecem embriagados, e um clima de tranquilidade, misturado a uma euforia bem blues, toma por completo o ambiente, emanado pelas palavras de um homem como poucos, que, em cima do palco e a tiracolo com sua 'Lucille', é capaz de levar à demência plateias inteiras com seu blues definitivo, e exalar, com seu papo manso, uma serenidade e sabedoria de um rei de direito. Quase ao final, as invariáveis perguntas sobre seus conhecimentos de 'brazilian music', às quais ele responde que não conhece nada até o momento, mas que amanhã ele já conhecerá alguma coisa. Que responsabilidade, hein Blues Boy? É isso aí, viva o rei e viva o blues."

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