Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 20 de julho de 2016

João Gilberto Grava Disco ao Vivo no Japão - O Globo (2004)

O mercado japonês sempre foi receptivo à Bossa Nova, e à música brasileira em geral. Vários artistas ligados ao movimento já fizeram apresentações e gravações no Japão, e João Gilberto, a voz e o violão da Bossa Nova não poderia ficar de fora. Assim, em 2004, João deixou registrado em CD um show que ele fez em Tóquio no ano anterior. O perfeccionismo do cantor e músico brasileiro se adequa ao cuidado e a atenção aos mínimos detalhes que os japoneses costumam ter em todos os seus projetos. Assim, creio que não foi difícil a realização do show e CD João Gilberto Live in Tokio. Na ocasião do lançamento o jornal O Globo de 09/05/04 publicou uma crítica do disco, assinada por Hugo Sukman:
"Na aparência, todos os filmes do cineasta japonês Yasujiro Ozu (1903-1963) são iguais. A mesma câmera fixa, na altura do olhar de uma pessoa sentada num tatame; as mesmas pequenas comédias ou dramas do cotidiano mais banal de uma família média de Tóquio; quase sempre os mesmos atores e  o mesmo tempo, um irremediável presente que caminha lento, como a vida.
Mas, no fundo da placidez contemplativa de seus filmes, Ozu revela, como ninguém em nenhuma outra cinematografia do mundo, o turbilhão de transformações pelo qual passou seu país nos poucos mais de 30 anos (de 1927 a 1962) em que filmou sem parar. Enquanto a mesma família discute em torno do mesmo chá, no mesmo tatame, depois do trabalho na mesma fábrica, as rugas nos rostos dos atores, o neon vermelho que lá pelas tantas passa a piscar pela janela, o quimono que cede mais lugar ao terno, os trens que se tornam mais velozes, o relógio na parede que fica mais moderno denunciam a passagem do tempo, contam a história de um país. São pequenas transformações numa forma de arte de aparência rígida.
O mesmo se dá com João Gilberto, cantor de impossível classificação quando se busca referências no terreno da música popular - onde ele é, com perdão do clichê, único - mas conserva semelhanças formais com outros artistas do século XX. A observação do Brasil e do mundo através de um repertório quase que imutável, mas que nunca é cantado e tocado da mesma forma, parece o jeito de Ozu de contar a História do Japão através de uma história só (uma nota só?). As sutis transformações que cada show ou disco, João imprime nas canções são como a passagem do tempo no cinema transcendental de Ozu.
A comparação do cantor brasileiro com Ozu não é casual. Afinal, surge a respeito do disco 'João Gilberto in Tokio' (Universal), o registro do primeiro concerto de João na terra de Ozu, no dia 12 de setembro de 2003, cinco mil pessoas no Tokio International Forum Hall A, 25 minutos de aplausos de um público que, como nenhum outro, é apaixonado por música popular - quem também e, em qualquer outra parte do mundo, sabe da importância dos CDs japoneses de todos os gêneros para o prazer e a memória musical do planeta.
Em Tóquio, João parece especialmente ozuniano. Ou seja, as novidades são aparentemente mínimas, mas significativas. Em 'Bolinha de Papel' (Geraldo Pereira), por exemplo, resgatada de seu terceiro LP, de 1961, no lugar do verso 'Vou ao banco e tiro tudo pra você gastar', ele canta 'Vou ao banco e tiro tudo pra gente gastar'. Pequena atualização sociológica, do machismo dos anos 50 à relação mais solidária entre homem e mulher nos dias de hoje. Como um relógio novo, mais moderno do que o do filme anterior, na parede de filme de Ozu.
Há novidades mais fortes, como duas músicas inéditas em disco na sua voz, 'Acontece Que Eu Sou Baiano' e 'Louco'. Mas, mesmo assim, são de compositores de sua predileção, Dorival Caymmi e Wilson Batista respectivamente, e há muito habitam seu repertório de shows.
Mais rigoroso impossível na admissão de uma canção no seu repertório, todas as outras 13 músicas de 'In Tokio' já haviam sido gravadas por ele até 1986, metade das quais até 1961, nos três primeiros LPs que balizaram o que ficaria conhecido (à revelia dele) como bossa nova.
Mas, bem ao modo de Ozu, se as canções são as mesmas, a maneira de João cantá-las e, principalmente, tocá-las ao violão é sutilmente diferente. 'Rosa Morena' (Caymmi), do primeiro disco, 'Chega de Saudade' (1959), vem com andamento mais lento, o que evidencia mais as invenções harmônicas do seu violão, diferentes quase que em cada repetição. Ralentar o ritmo, como quem está tocando em casa curtindo muito cada acorde, cada sutileza da canção. Isso se dá também em 'Este seu Olhar' (Tom Jobim), 'Meditação' (Jobim/Newton Mendonça).'Aos Pés da Cruz' (Marino Pinto/Zé da Zilda), 'Wave' (Jobim), em sua primeira gravação voz & violão, bem distante do famoso arranjo grandioso de Claus Ogerman no disco 'Amoroso' (1977), e em outras. Tudo muito diferente, apesar da aparente semelhança.
Outra sutil transformação: 'Isto Aqui O Que É?' (Ary Barroso) perde o 'ô, ô' depois do primeiro verso, 'Isso aqui.../É um pouquinho de Brasil iá iá', e ganha muitas invenções harmônicas e rítmicas. 'Lígia' (Jobim) vem com aquela letra de Tom que só João sabe e canta (como fez em 'The Best of Two Worlds', disco de 1976 dividido com Miúcha e Stan Getz), muito diferente da letra consagrada nas interpretações do autor (em 'Urubu') e de Chico Buarque (em 'Sinal Fechado'), mais para um samba-canção pessimista ('Eu nunca te telefonei para quê se eu sabia) do que para uma bossa solar.
Como quem agradece a acolhida do público japonês, e a perfeição técnica colocada à sua disposição, João Gilberto canta e toca como sempre. Ou seja, como nunca. Como Ozu.

Repetições Originais

Rosa Morena: É a quarta gravação deste samba de Caymmi. A primeira foi em 1959.
Corcovado: Quarta vez da canção de Jobim. A primeira foi em 1960.
Meditação: Quarta gravação desta parceria de Tom e Newton Mendonça, registrada pela primeira vez em 60.
Aos Pés da Cruz: Terceira gravação do samba de Marino Pinto e Zé da Zilda. Primeira em 1959.
Doralice: De Caymmi e Antonio Almeida, chega à terceira gravação. A primeira é de 1960.
Pra que Discutir com Madame: Terceira gravação do samba de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa. Primeira em 1986.
Isto Aqui O Que É: Terceira vez do samba de Ary Barroso. A primeira é de 1986 sob o título 'Sandália de Prata'."


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