Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Belchior - Jornal de Música (1975)

Em 1975 o Jornal de Música, que vinha encartado na revista Rock, A História e a Glória trazia uma matéria com um promissor compositor cearense, que já desenvolvia um trabalho de peso, e estava prestes a estourar em todo o Brasil com um disco que virou referência para toda uma geração, e que até hoje, 40 anos após lançado, ainda é cultuado e item em várias discotecas básicas: Alucinação.
A matéria, que tem por título, "Desobedecer sempre, não reverenciar nada", é assinada por José Márcio Penido:
"Tem hora que ele parece Omar Sharif. Talvez por causa do bigode. Impossível, porém, imaginá-lo numa mesa de bridge. Ou, bem canastrão, suspirando pela funny Barbra Sreinsend. No Ceará não tem disso não. E foi lá que nasceu Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.
O nome quilométrico sugere berço rico, de latifundiário. Falso. Filho de lavrador, 13º  de 23 irmãos, Belchior (pronuncia-se Belquiôr, rimando com por favor) procede, como gosta de frisar, de uma 'família pobre mas honrada'. Resultado: começou a trabalhar cedo. Como era um dos meninos mais afinadinhos do coral da matriz de Sobral, logo foi requisitado por um tio para entoar melodias mais profanas nas feiras da cidade.. Ele solava, o tio recolhia a grana.
Quem não nasce rico tem que estudar. O pai de Belchior também pensava assim. E matriculou o filho no colégio dos padres. E pronto: está pintando o cenário artístico-musical, ou, se preferirem, as origens do moço. De um lado a igreja - o canto gregoriano, simplíssimo e lindíssimo, ponte sonora entre os homens e Deus. De outro, a barulheira formada pelos violeiros e cantadores do sertão, presentes em cada esquina da infância e da adolescência de Belchior, mais tudo o que despejavam os auto-falantes das quermesses que desde cedo o fascinaram, um bolo sonoro onde Billie Holliday cantava logo depois de Caubi Peixoto.
Música pode ser muito bonito mas não enche barriga. O pai de Belchior e sua sabedoria. E o filho na escola, aprendendo coisas de encher barriga. Ainda bem que gostava. Principalmente dos poetas. E como na música não se importava em saber se a tal de Billie Holiday tinha nascido no Massachusetts ou no Chelsea, deliciava-se sem preconceitos com Alfred de Musset e Casimiro de Abreu, Alfred de Vigny e Castro Alves. O cérebro atento às palavras, seu encadeamento, suas possibilidades e sua beleza. As palavras ganhando Belchior, irremediavelmente, pro resto da vida.
O que aconteceu na vida dele entre os 15 anos e os 29 que tem hoje, eu não acho muito importante contar. Aquela coisa de: saiu de Sobral, foi pra Fortaleza, trambicou, estudou, conheceu gente, sacou coisas, amou, foi mal-amado, os sopapos que a gente dá e leva na vida, desceu para o sul, Ipanema e Bexiga, Rio e São Paulo, madrugadas, aquela mulher, tudo mas tudo mesmo, a vida ameaçando virar letra e música em sua já meio cosmopolita, mas ainda e sempre cearense cabeça. E virando.
Belchior é um compositor novo, bom e importante. Eu dou os tópicos e ele fulmina. Vamos lá. A partir daqui, tudo aspas.
Ser artista -  É fundamental para o artista desobedecer sempre, não reverenciar nada nem ninguém. Nordestino é igual qualquer outro cara. As pessoas é que acham que pelo fato de você nascer no Nordeste fica obrigado ao chapéu de couro e ao pirão de leite. Isso é uma nobreza às avessas, um padrão de nordestinidade muito furado, visão turística e folclore. Eu sou um homem do meu tempo. Eu já achava, e acho agora, que não há condições de fazer um trabalho artístico com eficiência sem rebeldia, sem violência, sem desafiar a porra dessas convenções. Ser uma pedra de contradição a todo instante.
Marginalidade - Até hoje as pessoas dizem: ele é músico mas também é professor. Ele, compõe, mas estuda também. Quer dizer: o cara podia fazer a música dele, a loucura dele, mas tinha que dar uma satisfaçãozinha pro sistema, né? Eu achava, e acho, que o artista tem de ser marginal, estar por fora, contra, na margem. Pra ser eficiente, o artista tem que ser uma pessoa rebelada, renegada, revoltada.
Qual a marca da tua música? - As palavras. Fundamentalmente minhas músicas mostram minhas palavras, cantadas. Novas? Velhas? As palavras novas são as mais velhas dentro da gente.  As que falam mais radicalmente do que é humano. Não esconder o que se passa dentro da gente é sempre uma grande novidade. Eu não sei o que minhas músicas querem dizer. Sei o que dizem.
O comércio - Rapaz, eu me sinto decepcionado. A indústria do disco é essa tristeza que todo mundo conhece. É um absurdo um disco custar 50 cruzeiros. É constrangedor que um grande número de pessoas não possa ouvir o que precisa ser ouvido. Televisão. Quem não aparece tá ferrado? Não. Não sejamos tão radicais. Não existe uma coisa que sem ela você fique morto - a não ser viver mesmo, né? Eu levo meu violão e meu canto pra todo lado. É só chamar que eu vou. Você pode não estar no no jornal e estar na cabeça das pessoas. Não pode é tirar o corpo fora, malandro.
Ser jovem hoje - Existe uma dificuldade enorme de poder dizer e cantar com clareza tudo que é preciso ser cantado e dito. A juventude está ofendida, humilhada, dilapidada. Foi-lhe negada o dom  da palavra. Vivemos um tempo negro. Agora, por outro lado, é também uma geração com uma força de resistência incrível, capaz de transformar tudo isso em explosão, em mudança, em força. Não dá pra segurar sempre. Não dá pra sangrar sempre. Porque falta sangue.
O risco - Não há condição de criar sem risco. Sem pôr a vida a perigo.
Profissional - Mais tenho morrido de música do que vivido.
Fagner, Cirino, Rodger & Teti, Ednardo, Petrúcio Maia,, Amelinha, Fausto Nilo - São os cearenses que vêm? - Pode até ser. Mas fique você sabendo de uma coisa. Temperamento de cearense é muito sarcástico, irônico, anárquico. Cearense não é muito de partido, clubes, igrejas, curriolas. Nunca gostei desse lance de dar nome em função da geografia. Quando o Walter Silva produziu o disco do 'Pessoal do Ceará' (LP Continental) eu discordei de várias ideias. Caí fora. Entre outros motivos, eu achava o nome folclórico, diminuía a coisa. O que eu entendo por raízes é uma coisa amplíssima, é tudo que tá dentro de mim, não interessa de onde veio.
Os anos setenta (Belchior insistiu demais em falar sobre os anos setenta. E toma aspas) - Em 68 eu entrei para a universidade, começou outra barra. E o que havia no ar? Uma maravilhosa rebeldia universal contra todos os poderes paternos, maternos, políticos, partidários, universais, culturais, escolares. Era um levante encabeçado com grande força e beleza pelos jovens. E eu me comovia - era um deles. Os hippies pregavam: faça o amor, não faça a guerra. Porra, isso é um trabalho, uma coisa a construir com as mãos. Mas não deixaram. O sistema transformou isso em grana. Pegou nossa liberdade e deu-lhe uma bolacha. O rei da grana, e dono do mundo, pegou tudo isso e viu a possibilidade e transformar tudo em merda. Não deixaram a gente pagar a ideia e botar em prática. Ninguém deixou chegar na prática.
Que te parece a ideia de um desses malucos chegar um dia à Casa Branca? - Eu acredito que ele não vai chegar até lá. Todo mundo sabe que, se chegasse, as coisas mudariam. Mas ninguém quer mudar porra nenhuma. Como disse o Mick Jagger um dia desses, existem três forças muito poderosas nesse mundo: a igreja, o exército e o dinheiro. Todos misturados. Interpenetrados. E poderosíssimos.
O novo. O que é o novo? - É o que interessa sempre.
Gente fina - Marcus Vinícius e Rogério Duprat
Para quando é a explosão? - Não são as coisas que explodem. É agente que as faz explodir.

2 comentários:

  1. Sempre desobedecer, nunca reverenciar, como Belchior diz em uma de suas canções

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