Palavras Domesticadas

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terça-feira, 19 de julho de 2016

Candeia, Eterna Chama do Samba - Jornal do Brasil (1998)

Candeia é considerado um dos principais nomes do samba. Autor de sambas memoráveis, excelente partideiro, e um nome sempre lembrado e respeitado entre os bambas da Portela, Antônio Candeia Filho sempre fez questão de manter e preservar a essência do samba e suas raízes. Não é à toa que nos anos 70, insatisfeito com os rumos que os desfiles das escolas tomavam, resolveu, junto a outros sambistas insatisfeitos, fundar a escola de samba Tradição, uma dissidência da Portela, que como o próprio nome diz, procurava manter as raízes do samba tradicional.
Em sua edição de 11/10/98 o Jornal do Brasil trazia uma matéria com Candeia, por conta do lançamento de um CD em homenagem ao compositor, num tributo aos 20 anos de seu falecimento. A matéria é assinada por Lena Frias:
" 'Não, o surdo não disse fim com a marcação/ Samba são pés que passam/ Fecundando o chão'.
Os versos de Marquinhos de Oswaldo Cruz - que letrou uma melodia de Antônio Candeia  Filho recuperada duas décadas após a morte desse artista fundamental da  música brasileira - dá o tom de Eterna Chama/Candeia, o disco-homenagem que marca os 20 anos da partida de Candeia para o Orum, o céu nagô. Marquinhos - que assina três iniciativas muito importantes para a cidadania e a cultura carioca:  o Movimento Acorda Oswaldo Cruz, o Movimento Samba de Raiz e o Pagode do Trem, criados por ele há mais de 10 anos - resgatou a música numa fita gravada há 25 anos na casa de Candeia por Cristina Buarque. 'Quando ouvi a melodia pela primeira vez, fiquei  atônito, eu não podia acreditar que ninguém a tivesse letrado. E me perguntava: meu Deus, será que é mesmo pra mim?'
Era para ele sim, afinal Marquinhos tinha em Candeia um modelo de personalidade e de artista. Conhece a obra, abre a voz nas rodas de samba divulgando as músicas do compositor, aproximação espiritual que se completou na parceria inesperada. Luz de Verão, peça inédita que Marquinhos interpreta no CD-tributo, é um dos sambas mais bonitos produzidos pela nova safra de compositores do gênero. A outra inédita, é Vem pra Portela, gravado por Cristina Buarque.
Eterna Chama/Candeia é realização do selo Perfil Musical, a partir de ideia de João Baptista Vargens, amigo de Candeia e autor do primeiro livro sobre o compositor, lançado em 1987. Outra obra sobre Candeia está nos planos para o ano 2000 da Editora 34, de São Paulo, dentro da coleção Ouvido Musical, coordenada pelo crítico Tárik de Souza. O CD Eterna Chama, cujo lançamento será em 16 de novembro, no Canecão, em show dirigido por Paulo César Figueiredo, é produção bem cuidada. Inclui um álbum com traços do cartunista Lan e textos de Paulinho da Viola, Sérgio Cabral, João Máximo, Luiz Fernando Vieira, Mauro Ferreira e Arthur José Poerner, entre outros. Produção, direção artística e arranjos são do músico João de Aquino, que com o disco fecha um ciclo de estranhas coincidências. João foi produtor e diretor artístico do último trabalho de Candeia, Axé, um marco discográfico realizado em 1978, mesmo ano da morte do compositor.
uma das ilustrações de Lan
João de Aquino comenta a emoção do reencontro no presente trabalho e a personalidade de Candeia, que parecia presidir tudo, juntando pessoas que não se viam, interferindo em escolhas. 'Eu sonhava com o cara, pode? Ele estava presente todo o tempo. Tenho a certeza de que não fui eu que fiz esse disco. Foi ele, foi o cara lá'. Tudo é possível, em se tratando de quem se tratava.
Eterna Chama/Candeia tem, contudo, um tratamento bem diverso do fundamental Axé. Primou a parte instrumental e violonística. 'O conceito do disco partiu de uma frase de Candeia no samba Último Bloco: 'Quando eu ouvi passar o bloco eu não resisti/ peguei meu violão/ segui a multidão...'. Candeia citava e valorizava muito o violão nas músicas. Numa delas reafirmava: 'enquanto houver samba na veia, empunharei meu violão'. Na capa original de Axé, ele quis um violão. Eu senti que era por aí.'
O CD destaca violões competentes. Além de João de Aquino, tem Guaraci, da Velha Guarda da Portela, Carlinhos e o pinho de Paulão do Sete Cordas, 'uma pessoa incrível que ajudou em tudo, desde a concepção do disco à harmonização e a arregimentação dos artistas. Além de tudo, é um músico espetacular' reverencia João de Aquino.
Predominou nas gravações um clima de cordialidade e entendimento, os artistas tocando e cantando soltos, participantes, sem empostação de estúdio, entregues ao prazer de estar ali. Como acontecia nas reuniões na casa de Candeia, em Jacarepaguá. O resultado é que não há uma faixa de trabalho apenas. Cada uma delas pode funcionar de carro-chefe, dependendo das circunstâncias. Beth Carvalho, por exemplo, dá um show de voz e interpretação em Pintura sem Arte e O Mar Serenou. Alcione, amiga antiga de Candeia - 'No dia em que conheci mestre Candeia eu conheci uma luz e essa luz me guiou' -, recriou belamente o samba Vivo Isolado do Mundo (Candeia, Alcides Histórico, Manaceia). Zeca Pagodinho está demais em Expressão do Teu Olhar. O repertório do disco, oferece, aliás, de bandeja, a Pagodinho - herdeiro do que há de melhor no estilo interpretativo carioca - um samba no tamanho de seu talento e do metal de sua voz: Luz de Verão. Martinho da Vila canta Eterna Paz, sua parceria com Candeia. Coube a Dona Ivone Lara o calangado Peixeiro Grã-fino, parceria com Bretas. Nelson Sargento brilhou em Peso dos Anos (Candeia/Walter Rosa) e Monarco e Velha Guarda animam o terreiro em Portela, uma Família Reunida, 'minha com meu  compadre'.
Paulinho da Viola frequentava o afeto de Antônio Candeia, a quem retribuía com a delicadeza de atitudes tão marcantemente suas. 'Meu primeiro samba realmente conhecido foi Minhas Madrugadas, parceria com meu amigo Candeia'. E pontua o samba com seu violão tão único. Um violão singular como foi o de Nelson Cavaquinho, como é o de Gilberto Gil, o de Baden Powell, o de João de Aquino. O violão que Paulinho toca é carioca-suburbano, de um jeito que só Paulinho faz. João de Aquino lembra que na carreira de Elizeth Cardoso há três violões marcantes. O de João Gilberto em Chega de Saudade, no disco Canção do Amor Demais; o de Baden Powell em Carta de Poeta, no disco Falou e Disse; e o de Paulinho da Viola em Elizeth Sobe o Morro.
Esse disco-tributo é um CD de unidades em si, 13 vezes Candeia. Em cada uma é preciso sintonizar o  ouvido e a sensibilidade. Zé Luiz Mazziotti enfrentou Preciso me Encontrar e saiu-se bem. Essa música é um desafio, porque tem uma grande história. Candeia a compôs a pedido do falecido jornalista e escritor Juarez Barroso, que produzia o segundo disco de Cartola - de1976, para o selo Marcus Pereira -, talvez o mais belo do mestre mangueirense (nele Cartola apresentava As Rosas Não Falam e O Mundo É um Moinho). Juarez queria, além da canção, a voz de Candeia contracantando com Cartola. Essa voz foi o fagote de Airton Barbosa, numa ousadia criativa nunca superada. Dois instrumentos da mesma região, o sete cordas de Honorindo Silva - o Dino do Sete Cordas, que assinou os arranjos -  e a solene gravidade do fagote.
A ênfase instrumental de Eterna Chama tem seu ponto alto na primeira faixa. Dia de Graça tornou-se conhecida pelo manifesto da letra - 'Negro, acorda, é hora de acordar/ não negue a raça/ Faz de toda manhã Dia de Graça...' -, que desvia a atenção da fortuna que é a música. João de Aquino inverteu a mão: trabalha unicamente sobre a melodia rica e acidentada de Candeia. É o violão de João contracantando com piano (João Carlos Coutinho), baixo (Adriano Giffoni), flautas (Dirceu Leite), trombone (Zé da Velha), trompete (Silvério). Ao fundo a bateria de Adriano de Oliveira e os atabaques encantados de Carlinhos Ogã, afilhado espiritual de Candeia.
Nascido em 17 de agosto de 1935, Candeia morreu aos 43 anos, em 16 de novembro de 1978. Algum tempo depois de sua morte circularam notícias de mensagens psicografadas a ele atribuídas. Era como se a sua gente o quisesse de volta - ainda que magicamente, através dessas cerimônias -, o que em certa medida se faz agora com o CD Eterna Chama. "


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