Palavras Domesticadas

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terça-feira, 16 de abril de 2013

João Bosco e Aldir Blanc - Entrevista - 2003 (3ª Parte)

" - Como, a despeito da qualidade artística, explica-se o sucesso popular da música de vocês naquela época?
Blanc - É você dizer aquilo que as pessoas precisam escutar. Porque 'Carandiru' é um sucesso, 'Cidade de Deus'. Fazíamos 'Carandiru' em 1971 e, se não me engano, nunca li uma linha sobre isso. A gente escreveu isso 30 anos atrás.
- As parcerias parecem ter um ciclo. Tom e Vinícius fizeram toda a sua obra entre 1956 e 63, depois não fizeram mais nada juntos. A de vocês durou dez anos. Por quê?
Blanc - Tenho uma resposta elegante para isso. Vou parafrasear Marques Rabelo, que dizia ter saído da Zona Norte para sentir saudades de lá. Eu e João nos afastamos para ter o prazer do reencontro depois de todos esses anos. (Palmas dos presentes) Obrigado.
Bosco - A gente merecia a experiência de se afastar e ir por outros caminhos.
Blanc - E a gente merecia também, pra tantos pequenos detratores que já desapareceram, provar que João durou todo esse tempo sem mim, que eu durei todo esse tempo sem ele e que a gente tinha garrafa pra vender. Para profundo desespero de alguns, talvez a gente junte esforços de novo para irritar. Fundamentalmente o nosso objetivo é encher o saco.
- Do que sentiram falta nesses 20 anos de separação?
Blanc - De dizer 'estou com um verso aqui, vou arredondá-lo' e mexer na melodia, de ficar naquela combinação. Uma vez, fui na casa do João para fazer uma música para novela que acabou nem entrando. O negócio era o seguinte: o tema é esse, tem que ter o 'ogum-beira-mar' do Jorge Amado, coisa e tal. João botou a bunda na pontinha da cadeira e ficou fazendo a música. Doze horas depois, o dia raiando, e a gente estava fazendo a música. Quando isso for plenamente aprendido, a música popular da gente vai ter crescido de uma forma que ninguém mais vai segurar. Não tem gênero, só tem a pontinha da cadeira. Felicidade é concentração. Sem parecer literário, nesse tempo todo, compondo com outros parceiros, nós estávamos compondo juntos.
- O que caracteriza a dupla?
Blanc -  Nós fomos acertadamente chamados de caldeirão, pela ideia de misturar ingredientes e sempre remexer naquilo. Ao contrário de algumas acusações de ficarmos presos a um gênero, nunca houve isso. Fomos chamados de políticos, até de panfletários. É preciso desconhecer completamente a obra romântica e bem-humorada da gente para achar que a gente fez panfleto. E quem chamar 'O bêbado e a equilibrista' de panfleto, dou pessoalmente porrada.
- Qual o momento mais feliz?
Blanc -  Daqueles de voltar no táxi com a cabeça a mil letrando desesperadamente sem conseguir esperar para chegar em casa, foram 'Caça à raposa' e 'O bêbado e a equilibrista'. 'Caça...', por achar que não ia dar tempo, que era um monstro, e chegar no estúdio com tudo certinho. e 'Bêbado' por Chaplin, Betinho, o quebra-cabeça que vai sendo montado.
Bosco - Vários. 'Nação' é um que gosto, aquela cortina que se abre com Silas de Oliveira e Caymmi, aquele rio caudaloso que deságua na Bahia.
- Houve algum esgotamento da veia criativa de vocês?
Blanc - Não. O que houve foi a vontade de ambos de trilharem caminhos diferentes. Aí teve a famosa briga que não houve. Nunca houve briga. Você telefona para o cara uma vez por semana, depois de 15 em 15 dias, depois uma vez por mês, depois não liga mais. Foi isso. O cara tem que trilhar o próprio caminho, ter força para não recorrer ao outro. É como eu digo sempre, as outras 36 versões sobre a briga são todas verdadeiras (risos).
- Como foram os momentos seguintes ao fim da parceria?
Blanc - Fazer música com Sueli Costa foi fundamental. E também com Maurício Tapajós. E aí teve aquela coincidência absurda, que já está no folclore. Conheço um parceiro que mora no prédio há anos e que eu não sabia, e começo a compor com ele, Moacyr (Luz). E vem Guinga, através de Raphael Rabello e de Paulo César Pinheiro. E aí veio o mundo, até o mais novo deles, Jayminho (Vignolli). Aí está mais bonito, chego no songbook com o Jayminho para fazer o arranjo de 'O bêbado e a equilibrista' e João acredita na hora. É essa confiança, um negócio diferente, superbacana em música. Você não tem rabo preso, está aberto às pessoas que chegam. O que é o grande encontro dessa noite? É ver que ninguém deve nada a ninguém. Tem coisa mais bonita para se dizer aqui? Todo mundo deve tudo a todo mundo. Eu devo tudo a João, João deve tudo a mim e, no entanto, nossas carreiras prosseguiram e ninguém deve nada a ninguém. Nós podemos nos dar ao luxo de voltar sem dívidas. Quem pode dizer isso?
Bosco - O sogbook traz uma série de situações que vivemos e não lembrávamos. Estar aqui conversando faz parte desse processo. Tanto Aldir quanto eu sempre soubemos que num certo momento teríamos que tomar uma cerveja.
- E o que falta para retomar a parceria?
Bosco - É o trânsito (risos). Hoje, para se deslocar de um lado para o outro é um problema. A gente ia de avião para Manaus. Parávamos na Bahia, em Pernambuco, até Manaus, compondo. A gente tinha tempo pra isso.
Blanc - Nós temos grande respeito pelo tempo. Mas temos a pretensão de surfar nele. De repente a gente pega uma prancha e dá uma volta de novo aí na garotada."

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Entrevista João Bosco e Aldir Blanc - 2003 (2ª Parte)

" - A parceria de vocês não era uma obviedade. Aldir tinha uma porção de parceiros do Movimento Artístico Universitário (MAU). João compunha com o Vinícius. Qual foi a primeira impressão que um teve do outro?
Blanc - A gente procurava um parceiro, aquele cara que eu pudesse dizer 'posso escrever de uma forma que nunca escrevi antes'. E João também sentiu algo assim: 'Esse cara pode botar em palavras o que eu não sei colocar'. Eu escrevia muitas cartas para João em Ouro Preto, falando de como a parceria poderia se desenhar. A parceria não é, ao contrário do que as pessoas pensam, uma espécie de explosão intuitiva. A gente se correspondeu, conversou, armou as coisas muito pessoais para ela acontecer.
 - E o apoio de Tom Jobim, que escreve a contracapa do primeiro disco da dupla?
Bosco - Sim, Tom foi o primeiro cara a dar a maior força.
Blanc - João mostrou músicas na casa de Vinícius, onde estavam Vinícius, Flávio Rangel, Chico Buarque, Tom, e todos foram muito carinhosos.
- Então, vocês tiveram a benção da MPB logo no início?
Bosco - Quem mais deu força foram Vinícius, Tom e Elis.
- Como se aproximaram de Elis?
Bosco - Alguém ligou e ela ficou nos esperando no Teatro da Praia, onde estava em temporada. Mostramos as músicas e ela pegou 'Bala com bala' de cara.
Blanc - A Elis fez uma promessa ali que demonstra bem o caráter dela: 'Vou, neste disco, gravar 'Bala com bala'. No próximo, essas outras três. Eram 'Caça à raposa', 'Caçador de Esmeraldas', 'Cabaré'. Ela prometeu e cumpriu. Faço questão de dizer sempre sobre a Elis que quem quiser falar sobre maus-tratos em pessoas, sobre esporro no garçom, tudo bem, são depoimentos legítimos de quem viu isso. Eu não vi. Sempre fui muito bem tratado por ela. Só vi consideração e carinho.
- O que caracteriza a dupla de 'Bala com bala' até 'O bêbado e a equilibrista', é que as músicas parecem partir antes de ideias muito fortes, como misturar a morte de Chaplin com a anistia...
Blanc - 'O bêbado e a equilibrista' é um bom exemplo, depois de muita conversa. Ele tinha feito uma música pro Chaplin. A gente conversa primeiro sobre isso. Depois sobre a urgência de colocar uma mensagem para os exilados. Depois, conto da dor que eu via do Henfil e dos irmãos sobre o Betinho, que eu não sabia quem era. Era sempre 'o mano, o mano'. A música nasceu após a quinta conversa.
Bosco - A gente sempre esteve muito atento ao que o outro dizia. Lembro-me que contei pro Aldir sobre um Natal, que meu sonho de presente era um revólver de brinquedo. Mas meu pai era um securitário, que, pelo sangue árabe, às vezes trabalhava vendendo coisas. Nesse Natal faltou grana e não ganhei o revólver, e sim um macaco de um palmo de altura, que você dava corda e ele saía tocando tambor. Minha mãe passou horas naquela noite me convencendo de que o macaco era mais interessante que o revólver (risos). Isso foi o 'Falso brilhante'; 'O amor é um falso brilhante no dedo da debutante/O amor é um disparate na mala do mascate/Macacos tocam tambor'.
Blanc - O pai do João foi uma das pessoas que mais gostei na vida... Mas João tem um um negócio ótimo para o parceiro que é poder discutir uma ideia. Com todo respeito aos meus parceiros, depois do João, ou antes, até o ano 5300, isso é impensável. Eles estão voltados profundamente para o trabalho harmônico, melódico. Guinga, por exemplo, é um compositor brilhante, entrega a música pronta e você não pode mexer numa nota. Ao contrário do folclore, o Guinga nunca musicou uma letra minha. Eu letrava nota por nota. Com João nunca houve isso. A gente escreve, combina, muda uma nota ou outra. A gente arredondava coisas. Parceiro combina, ajuda um ao outro.
- Há exemplos disso?
Bosco - 'Nação', a gente tocando o samba lá em casa, pronto, esperando o almoço, e o samba começava: 'Gege, sua sede é dos rios...'. Aí falei para o Aldir se ele não sentia falta de uma cortina para abrir o samba, que estava pronto, batido à máquina, gravado. Mas faltava algo. E aí veio, 'Dorival Caymmi falou pra Oxum'.
Blanc -  Lembrava-me de coisas como 'Pour Butterfly', em cantoras como Ella Fitzgerald, com aquelas loucas introduções, características da época. A gente amava esse troço. Então por que não fazer isso num samba, uma espécie de introdução até cair no tema?
Bosco - Em 'Tiro de misericórdia', todos aqueles orixás vieram quase na hora de entrar no estúdio. Na hora da porta fechar. Tem que ter alguma coisa, e veio aquele hip hop, aquele rap.
Blanc - Aliás, não vou começar a ficar amargo, mas não deram para a gente o crédito do começo do hip hop. Na época não se notou a obsessão que a gente tinha com a violência. A cidade era uma pérola, não tinha violência... cidade maravilhosa. Então, nos chamem de profetas...
(continua)

domingo, 14 de abril de 2013

Entrevista João Bosco e Aldir Blanc - 2003 (1ª Parte)

João Bosco e Aldir Blanc formaram uma das mais criativas e marcantes duplas de parceiros da MPB. Durante muitos anos os dois compuseram algumas pérolas de nossa música, até se separarem em meados dos anos 80, quando cada um foi pro seu lado, buscaram novos parceiros e deram continuidade a suas carreiras. Muito se falou sobre brigas, desgaste e incompatibilidade entre os dois. Em sua edição de 07/09/03 o jornal O Globo reuniu os dois velhos parceiros para uma ótima entrevista, feita por Hugo Sukman, a primeira desde a separação. Intitulada "Galos de briga 20 anos depois" (uma alusão ao título de um disco de João Bosco e os 20 anos do início da parceria), segue abaixo a primeira parte da entrevista:
"Que Lennon e McCartney que nada. Dupla mesmo é João Bosco e Aldir Blanc. Pelo menos para quem nasceu para a música no berço de ouro da MPB dos anos 70. Para estes, os autores de marcos como 'Bala com Bala', 'Dois pra lá, dois pra cá', 'O bêbado e a equlibrista', 'Nação', oito discos antológicos entre 1973 ('João Bosco') e 1982 ('Comissão de Frente'), os mais gravados por Elis Regina (só perdem por uma canção para Tom Jobim e mesmo assim porque a cantora dedicou um disco inteiro ao maestro) são os maiorais. E não se falavam há 20 anos, na mais comentada das brigas entre parceiros da MPB.
- Nunca houve briga nenhuma - garante Blanc abraçado a Bosco, no primeiro encontro público da dupla desde a separação.  - Mas todos os 36 motivos alegados para a briga são verdadeiros. A tirada de humor tipicamente blanquiano marcou o clima ameno do reencontro. Que se deu num fim de tarde, numa mesa de bar à beira da mesma Baía de Guanabara onde, cem anos antes, o 'almirante negro' João Cândido desafiava o poder da Marinha brasileira como os autores da mais singela homenagem a ele, 'O mestre-sala dos mares', fariam com a ditadura militar.
Juntos, Bosco e Blanc parecem mesmo nunca ter brigado. Brincam como amigos de infância, concordam sobre quase tudo - menos em futebol, o primeiro flamenguista e o segundo vascaíno; e em viagens, Bosco frequentando a ponte Tóquio-Nova York, enquanto Blanc só saindo da Muda, a contragosto, para Saquarema.
Eles só voltaram a se falar depois de anos de tentativas de amigos comuns, em dezembro de 2001, quando os dois gravaram juntos 'O bêbado e a equilibrista' para o songbook de João Bosco, última produção de Almir Chediak, que será lançado terça-feira em festa no Teatro Rival. De lá pra cá, a relação esquenta aos poucos. 
- Nós nos separamos para poder sentir a falta um do outro - diz Bosco.
O encontro histórico, promovido pelo Globo, foi marcado por recordações do início da parceria, do incentivo de Tom e Vinícius, do encontro com Elis, do processo de criação e do acenso aos admiradores, a dupla pode voltat a compor.
- Demoramos dois anos de amizade para começar a compor e estamos vivendo momento semelhante agora - diz Blanc.
O Globo -  Desde que vocês chegaram, um não para de brincar com o outro. sempre foi assim?
Aldir Blanc - Sempre, sempre, sempre. Às vezes a gente parava pra brigar (risos). Mas brincamos o tempo todo.
- Como foi o primeiro encontro de vocês?
João Bosco -  Através de um amigo do Aldir, Pedro Lourenço, que tinha um amigo na minha cidade, Ponte Nova.
Blanc - O Pedro era uma das mais autênticas figuras da contracultura. Pesquisava antipsiquiatria. Eu fazia psiquiatria e ele me deu uma formação filosófica incrível. Foi lá que soubemos da morte do Jimi Hendrix. Minha praia era mais jazz, mas tinha um, dois discos dele, curtia toda aquela criatividade e senti na dor do cara que era como se tivesse perdido um parente. Em Ouro Preto, em 69, através do Pedro conheci João e foi um entendimento muito rápido.
Bosco - Não foi em Ouro Preto, não. Nessa épóca uns amigos estavam sendo procurados pelo Dops e alguém chegou pra mim e disse: 'É melhor você se arrancar, os caras estão vindo aí'. Eu estudava em Ouro Preto e fugi para a casa da mamãe em Ponte Nova. Mas deixei indicações em Ouro Preto para eles me acharem.
- Vocês começaram a compor logo?
Blanc - Não. Conversamos, escutei literalmente dezenas de músicas sem letra, o chamado caviar do letrista.
- Qual a que primeiro chamou a a atenção?
Blanc -  Eram dezenas. E me fixei especialmente numa, que ficou inédita, 'Condenado', sobre uma execução política.
Bosco - E tinha ali 'Agnus Sei', 'Angra' e 'Bala com bala'.
- A primeira gravada, 'Agnus Sei', no célebre disco do 'Pasquim', cujo outro lado era 'Águas de março', já estava nessa leva?
Blanc - Estava. Teve uma touca tremenda em relação a 'Agnus sei', que serve como lição para a crítica, para tudo. Ela foi ignorada. Por estar no outro lado do 'Águas de março', foi tratada como se não tivesse importância. Respondi na época em artigos, procurei as pessoas para conversar...
(continua)

sábado, 13 de abril de 2013

Show do Echo and The Bunnymen no Canecão (RJ) - 1987

Nos anos 80 o rock inglês dominava a cena. Bandas como Smiths, Sioux and the Banshees, The Cure e muitas outras surgiam com força. Dentre elas também se destacava o Echo and the Bunnymen, que em 87 veio ao Brasil para alguns shows. A revista Roll noticiou o show de estréia realizado no Canecão, no Rio de Janeiro, cuja matéria, assinada por Manolo Gutierrez, ganhou o título de "O ataque dos homens-coelho":
"Desde o primeiro acorde, já dava para perceber que esse seria um dos melhores shows do ano. Afinal não era pra menos. No palco ninguém menos que os Bunnymen, expoente musical de uma geração muito especial. O clima do espetáculo é francamente psicodélico. Na plateia meio rock Brasil, Charles, bateria dos Titãs, fotografa tudo. João Barone dança despreocupadamente com a esposa. Frejat rasga elogios à iluminação do show, segundo ele, 'habilmente esparsa, e de apurado gosto'. Até Zeca Neves gostou - logo ele, que tinha odiado o Cure. Mas quando se trata de Echo e seus coelhos, não há como. Capitulação incondicional. Foi isso exatamente que aconteceu ao público que lotava o Canecão na terça-feira, dia do primeiro concerto no Rio. 
O baterista Pete De Freitas
Ian McCulloch cativa a audiência com sua voz, seu copinho de 'birita bossa nova' e seu britânico 'obrigado'. A unanimidade fica por conta de Pete De Freitas, que faz um estrago nos tambores, justificando a demissão de Echo e a inatividade da banda por ocasião de sua viagem ao Caribe.
Will Sergent, meio fora de forma, parece ter sentido um pouco a abstinência dos palcos. Mesmo assim, mostrou mais que 'climas'. Outra grata surpresa foram as 4 cordas do bem-humorado Les Pattison, segurando a onda geral.
No repertório clássicos da banda, com destaque para 'Killing Moon', cantada em coro pelo público e surpreendendo até os músicos. Vários covers, dos Doors, do Velvet, dos Stones, e até uma apoteótica versão da eterna 'Twist and Shout', sucesso em qualquer lugar. Um concerto memorável, desde já um dos melhores deste conturbado 87. Até o show do New Order."

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Jeff Beck - Entrevista - 1976 (2ª Parte)

"CC - O seu último grupo (Max Middleton, Bernard Purdle e Wilber Bascombe) foi só um negócio temporário pra promover o Blow By Blow, né?
JB - Não sou do tipo de 'amigos pra sempre'. Não gosto da responsabilidade de ter um grupo permanente, gente dependendo de mim.
CC - Como muitos outros artistas, você saiu da Inglaterra por causa dos impostos e pretende passar um ano na Califórnia. O que é que você vai fazer enquanto isso?
JB - Tenho vontade de tocar muito ao vivo. Agora com Jam, tô sempre descobrindo frases novas. Mas, mesmo com outros caras, eu tinha um material muito bom e queria fazer shows.
CC - A grande ironia é que você anda tocando com grupos americanos que têm som inspirado nos Yardbirds. E muitas vezes grupos - Aerosmith, por exemplo - são uma atração maior do que o seu mentor. (Joe Parry, guitarrista do Aerosmith talvez seja o fã nº 1 de Beck).
JB - Não me preocupo se toco antes ou depois deles... Acho até legal. Às vezes penso que criei um monstro, mas enquanto não copiarem as coisas que tô fazendo hoje, tudo bem. Eles ainda tocam coisas do Yardbirds e tão ficando ricos com isso. Devem ser mais espertos do que eu. Uma noite eu toquei Train Kept A Rollin, e a plateia reconheceu e aplaudiu. Pensaram que era um número do Aerosmith, porque eles tocam isso no seu set. Mas o público deles deve ter uns 16 anos, e há dez anos não entrariam em concertos.
CC -  Quando o Jeff Beck Group era liderado por Rod Stewart, o baixista era o Ron Wood, agora Wood entrou nos Stones no lugar de Mick Taylor.
JB - Chegaram a me chamar e fui até Rotterdam para experimentar. Mas... não me dei bem. Durante três horas toquei três acordes. Preciso de mais energia atrás de mim. Eu seria apenas um empregado para eles continuarem mais um ano. Quando eu estava lá, pensei que o lugar devia ser de Ron Wood. Os Faces já deram o que tinham que dar, e quando ouvi que Ronnie tinha aceito, pensei que essa escolha seria a ideal.
CC - Os dois guitarristas que mais aprenderam com você - Jimi Page e Eric Clapton - ficaram mais famosos do que você. O que você acha disso?
JB - Isso aconteceu porque eles formaram grupos. Eu fui de um lado a outro e sou muito perambulante pro ouvinte médio me acompanhar. Você pode entrar numa loja e comprar discos do Led Zeppelin ou um disco como 461 Ocean Boulevard, mas hoje não sei o que quero fazer. Sou indeciso no que faço, e as pessoas preferem algo mais permanente. Sou muito móvel. Pode ser que eu tenha muito do som antigo dentro de mim, mas minha cuca tá longe disso.
CC - Você não mantém muito contato com esses músicos, né?
JB - Eu sou mais orientado pro jazz. Eles são rock & roll branco com vocalistas estereotipados com roupas enfeitadas, por aí. Quer dizer... tudo bem, não tô falando deles, mas não é a minha. Gosto de pensar que tô fazendo uma coisa diferente. Tô ganhando bem e não tô passando fome. Viver e morrer no mesmo grupo não é uma boa pra mim. A maioria desses grupos ficam juntos porque individualmente são inseguros. Se você é baterista ou baixista precisa de um grupo o tempo todo... A não ser que você seja como Billy Cobham, com tanto talento quer pode tocar sozinho.
CC -  Agora você vai pra onde?
JB -  Com meu grupo antigo eu tocava mais solos longos de blues e guitarra de Memphis. Pensei que minha carreira tivesse virando pra esse lado. Mas, com eles, ficava tudo sob controle e eu tava ficando chateado. Quero me esticar mais, sabe... Quando subo no palco não tenho ideia do que vou fazer na guitarra, nenhuma pista musical. Ponho meus dedos nos trastes só pelo ouvido. Não olho meus dedos. Isso é bom, porque mesmo se alguém furasse meus olhos eu ainda ia poder tocar."

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Jeff Beck - Entrevista - 1976 (1ª Parte)

Jeff Beck é considerado um dos melhores guitarristas do mundo. Em 1976 estava mergulhado no rock fusion, e desenvolvendo um trabalho instrumental da melhor qualidade, quando concedeu essa entrevista ao  ao jornalista Chris Charlesworth, do jornal inglês Melody Maker. Aqui no Brasil a entrevista foi publicada pelo Jornal de Música nº 24, em outubro de 1976. Segue abaixo a primeira parte:
"De todos os guitarristas-heróis que despontaram no movimento do blues inglês (meados de 60), Jeff Beck é o mais difícil de ser encontrado. Fica assistindo de longe ao 'Grande Páreo de Fama e Dinheiro dos Astros do Rock', e seu nome só aparece de vez em quando nas pesquisas de popularidade. Mas, se a votação fosse feita entre os guitarristas de rock ele venceria disparado. Ritchie Blackmore, por exemplo, cita Jeff Beck e Big Jim Sullivan como seus músicos preferidos, e até Jimi Page reconhece que o talento de Beck é maior que o seu.
E ele tem razão. Jeff Beck é um guitarrista brilhante, sempre à procura de ideias novas. Se formasse um grupo permanente seria maior que o Led Zeppelin, um supergrupo, faturando milhões de dólares. Mas ele garante que não tem nenhum interesse nisso e recusou até um convite para tocar nos Rolling Stones.
Beck desmontou o Jeff Back Band - formado para  promover Blow By Blow, seu penúltimo disco - e atualmente está fazendo um tournée com o grupo de Jam Hammer. Hammer é conhecido por seu trabalho na Mahavishnu Orchestra, sendo um artista mais de jazz do que de rock. Beck também anda tocando mais jazz, uma mudança natural para quem já disse tudo sobre o rock (influenciando toda uma geração de roqueiros). Hammer foi convidado para tocar nas sessões de Wired e Beck diz que continuam a trabalhar juntos por mais uns oito meses.
No palco, parece que a influência maior foi de Beck. O som que tocaram no Nassau Coliseum, em Nova Iorque, era mais rock pra mim. Beck deitou blocos seguros de acordes sobre o sintetizador de Hammer, seus solos cortando o estilo de tecladista com uma força que me estremeceu.
Jeff Beck -  Desde o tempo da Mahavishnu, gosto de ouvir Jan tocar. Eu precisava de um tecladista inventivo que nem ele pra caminhar numa nova direção musical. Não dava pra fazer outro álbum como Blow By Blow. Peguei Jan pra gravar em cima de uma música  de Wired e ele transformou a música exatamente naquilo que eu estava pensando. Foi um palpite que deu certo. Tive sorte porque ele não estava muito ocupado, gostou de tocar comigo, e assim começamos a tocar numa muito boa. No princípio ele ficou apreensivo porque não tinha gostado nada de Blow By Blow, não tinha nada para ele tocar em cima. Jan é conhecido como jazzista, mas gosta muito de rock. Quando toca bateria, dá um show em muita gente. O rock estava dentro dele, esperando alguém como eu. Quando conheci o grupo de Jan, eles tinham dificuldades em conseguir lugar pra tocar. Eles não tinham um mercado e eu não tinha um grupo. Então resolvemos nossos problemas.
Chris Charlesworth -  Nos seus shows Hammer apresenta três músicas antes de você entrar no palco e tocar uma sequência de Seven Days, de um disco dele.
JB - Jan faz isso pra mostrar que é o seu grupo. Eu não me importo. Às vezes me gritam e ele não gosta, acha que desperdiça seus números. Ele tem razão. Mas esses números são para dar um ambiente e resolver problemas do sistema de som antes da minha entrada.
CC - Em Nassau, a atração principal foi o Jefferson Airplane.
JB - Não ligamos pra isso. Podemos ganhar muito dinheiro sem preocupar em ser a atração principal. Nosso grupo é novo e não dá pra começar como a atração principal de um show de 60 mil pessoas. O importante pra nós são as pessoas que nos ouvirem.
CC- Os fãs mais velhos conhecem a tua música com os Yardbirds. Os fãs mais novos te sacam como uma pessoa ambulante, cuja música muda de ano em ano. Você não tem grilo com isso?
JB - Acho que as pessoas nunca esperam nada de mim, porque eu tô sempre mudando... Tô ficando mais velho, pode ser por isso que toco mais jazz. Tenho muita energia de rock & roll, mas não quero tocar rock. O problema do jazz é que as pessoas ficam ou muito rápidas ou muito perdidas. Quero continuar a tocar músicas que as pessoas possam acompanhar a assoviar. Ao mesmo tempo, quero um som que não possa ser acompanhado por assovios. Prefiro tocar num grupo sem vocal. Acho que até esqueci como é que se toca com vocalista."
(continua)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Afrika Bambaataa Já Passou Por Aqui

Afrika Bambaataa é um dos grandes representantes do hip hop e da música negra eletrônica dos anos 90. Em 1998, o jornal O Globo noticiava a vinda do músico ao Brasil para se apresentar como DJ em um evento. A matéria é assinada por Carlos Albuquerque e é intitulada "O rei do hip hop quer conhecer o funk dos ETs":
"Se o hip hop fosse um estádio, na entrada não poderia faltar uma estátua de Afrika Bambaataa. ele é o pai da matéria, o poderoso chefão, o mestre, o dono da ideia, o rei da cocada, o camisa dez, etc. DJ, produtor e militante de boas causas (como a Zulu Nation), foi graças a ele, e pioneiros como Kool Herc e Grandmaster Flash, que o hip hop e o rap vieram ao mundo. Sua influência pode ser sentida hoje em dia em áreas tão distintas como o drum'n' bass inglês ou o funk carioca.
E agora, a boa notícia: Afika Bambaataa se apresenta, como DJ, amanhã à noite, num lugar inusitado: o Rock in Rio Café. Ele é a primeira atração do projeto/festa THC, que pretende trazer nomes da música eletrônica ao local. Depois de Bambaataa, já estão programados para este mês Yves Derautier (dia 8),  Acid Junkies (dia 15) e Dimitri, aquele que tocava com o Dee-Lite (dia 22).
- Me falaram que é uma noite de techno e house. Então, vou preparar um set com isso e também drum'n'bass, electro e, claro, hip hop da velha guarda., além de algumas coisas novas. Na verdade, o que eu quero mesmo é que os brasileiros mexam a bunda - diz ele, por telefone, falando de Nova York.
Disso, como a história prova, Bambaataa entende. No começo dos anos 70, mais precisamente em 1973, no Bronx, ele, Herc e Flash começaram a usar duas pick-ups e um mixer (um formato pouco usual para a época, no mesmo ano em que Rick Wakeman lançava o grandiloquente 'As seis esposas de Henrique VIII') para criar um novo tipo de música. A ideia inicial era usar discos de soul e funk, tocados simultaneamente, descartando os vocais e quebrando em pequenos pedaços as partes instrumentais. Depois, MCs vieram cantar e deitar falação por cima dessas bases improvisadas. Dessa brincadeira, nasceu a cultura hip hop (acrescida da dança break e dos grafites) e a música rap. E o mundo nunca mais foi o mesmo.
- O que fizemos foi usar esses trechos instrumentais, o breakbeat, para criar um novo tipo de funk - conta ele. - No começo, James Brown era a base de tudo, mas depois vieram sonoridades novas, como as feitas pelo Kraftwerk.
Foi exatamente influenciado pelos beats marciais e roboticamente funky do Kraftwerk que Afrika Bambaataa criou seu maior clássico: 'Planet Rock', uma das músicas mais sampleadas de todos os tempos. Por conta do relançamento agora de várias músicas do seminal selo Tommy Boy, um dos primeiros a apostar no hip hop, 'Planet Rock' ganhou roupa nova, num remix do poderoso DJ Grooverider.
- Grooverider é legal, ele é funky - diz Bambaataa - Eu adoro drum'n'bass ou jungle. É mais uma variação do hip hop. Também adoro techno, que é black music na essência. Na verdade, tudo vem da África e de seus ritmos.
Ex-integrante de uma gangue, Bambaataa sabe como é dura e perigosa a vida nas ruas das grandes cidades. Por isso, criou a Zulu Nation, uma espécie de ONG black dedicada a tirar os jovens negros das ruas, dos traficantes e afastá-los da violência. A ZN cresceu, apareceu e hoje é um modelo de ativismo bem sucedido. E sempre atuante.
- O crack, as armas circulando livremente, a AIDS, o racismo, tudo isso tem que ser combatido, mas de forma pacífica, como sempre foi com a Zulu Nation - diz ele. - Temos contatos e associados em toda a parte, inclusive no Brasil. Nossa luta continua.
Em 1984, Bambaataa gravou com John Lydon a música 'World destruction', de batida hip hop e letra apocalíptica. Ele acha que, infelizmente, a canção continua atual.
- O mundo está cada vez mais estranho, sombrio, mas eu acredito na luz.
Místico, Bambaataa acredita também em discos voadores e diz esperar ansiosamente pelo novo milênio.
- Vamos fazer contato. E os alienígenas vão nos mostrar novas batidas musicais. Vai ser o novo funk."