Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Festival WattStax, o Woodstock Negro - International Magazine

Em 1972 aconteceu nos Estados Unidos um evento que pode ser considerado o maior festival de black music já realizado no mundo. O WattStax, que reuniu grandes representantes da música negra americana, para um público majoritariamente negro, serviu para chamar a atenção da força da black music que era produzida nos Estados Unidos, da mesma forma que trazia à população negra uma maior conscientização de sua luta contra a segregação racial e os direitos civis, tudo isso ao som da melhor black music da época. A grandiosidade do evento, do ponto de vista musical e de público, foi tanto, que foi inevitável a comparação com o mega festival de Woodstock, que aconteceu em 1969. E assim como Woodstock também virou documentário e disco. Em sua edição nº 117, de dezembro de 2005 o jornal musical International Magazine trouxe uma matéria sobre esse grande festival, assinada por Rodrigo Fernandez;
"Chega a ser impressionante a quantidade de coisas legais que você pode encontrar entre as prateleiras das lojas americanas da vida. Você chega e pergunta para o rapaz com reflexo no cabelo que, sem muita vontade, empilha dvd's numa gôndola. Ele tem que saber, ninguém usa um uniforme daquele à toa.
- Vocês tem aí o DVD dos Los Hermanos?
-Los Hermanos? Olha, moço, sei não... Dá uma olhada ali naquela prateleira do canto...
É aí que você se dá bem. Dia desses encontrei dando sopa, nada mais, nada menos, que um dos mais cobiçados cult movies dos anos 70: WattStax.
WattStax, ou o Woodstock negro, como ficou conhecido na época, é um velho conhecido da galera mais cascuda e já rolava há algum tempo no mercado negro da black music (sic!). Mas, bem diferente da cópia pirata, tirada de um seboso VHS importado, eis que agora temos o lendário festival legendado e com som e imagem digital, uma beleza. Diferentemente dos filmes de Monterey, Woodstock ou Isle of Wight, que se concentraram nas performances musicais e nas doidices das plateias,  WattStax foi formatado para ser mais que um simples musical. A ideia era criar um documentário, um manifesto, um happening a favor da negritude e dos direitos civis do povo preto, e foi com esse intuito que as câmeras começaram a rodar em agosto de 1972. Produzido pela gravadora Stax, uma das duas maiores usinas de soul music da hisória (a outra, óbvio, era a Motown) o festival conseguiu reunir no estádio Coliseu mais de 100.000 sortudos, que puderam ver um time musical de respeito em campo. Pois se a Motown tinha Barry White e os Pirralhos-Jacksons, a Stax tinha Isaac Hayes e Albert King. Se a Motown tinha a fama, a Stax tinha a alma.
Isaac Hayes se apresentando no WattStax
WattStax começa com o depoimento revoltado dos moradores de Watt, em Los Angeles, que no verão de 1965 tacaram fogo em suas próprias lojas e casas, transformando o distrito em uma grande fogueira de São João a fim de chamar a atenção das autoridades brancas pra o abandono do lugar (segundo alguns estudiosos esse incidente seria o detonador do movimento Black Power na  América). Mas o baixo astral fica por aí, pois o showmentário conta também com a participação do comediante Richard Pryor, que consegue fazer graça té com o descarado racismo da tera do Tio Sam (anos mais tarde, deprimido pelo ostracismo, Pryor tentaria se matar, tocando fogo no topete black). Mas independente do blá-blá-blá social é mesmo na parte musical que a porca torce o rabo.
Apresentado por um jovem reverendo Jesse Jackson - black power, black power!! - o bicho começa a pegar logo de cara com os frenéticos Bar-Kays, banda que trabalhara com Hayes na confecção da trilha sonora de Shaft, seguidos pelo grande bluesman Albert King em mais uma de suas memoráveis performances, e pelo pouco conhecido Little Milton com seus belos blues urbanos. Mas a coisa não fica por aí não, meu filho. Ainda temos Luther Ingram, Johnnie Taylor, The Emotions, Rufus Thomas (já coroinha, mas ainda mandando bonito no suingue), Carla Thomas e mais uma pá de gente boa, ou seja, o melhor 'lado B' da música negra norte americana, que tocaram funk, blues, soul, r&b e gospel por mais de sete horas sem sair de cima do palco. Mas a estrela maior do festival era mesmo Isaac Hayes, na época, uma espécie de semideus da música negra (havia acabado de ganhar o Oscar pela trilha sonora do policial Shaft). Não é à toa que o painel eletrônico do estádio o apresenta como o 'Moisés Negro', título de seu mais recente álbum. E realmente a galera vai ao cúmulo do píncaro da extremidade durante o show do negão, afinal, não é todo dia que se vê um homem comandando uma banda tenebrosa de boa e vestindo correntes. Um final apoteótico de um evento único, onde brilhou mais quem foi mais preto.
Apesar do dvd ser imperdível, a trilha sonora, atualmente disponível só em edição gringa, também é um cruzado nos tímpanos. Uma caixinha de três cds  somando 46 faixas, com algumas apresentações integrais (Staples Singers e Carla Thomas, que negra, amigo) e mais uma enxurrada de canções que por motivos contratuais não puderam entrar nem no documentário, nem na versão em LP da época. Pela mesma razão a bombástica apresentação completa de Hayes também só pôde ver a luz do dia trinta anos depois, em 2003, com o título de Isaac Hayes at WattStax. Se vale a pena? Só todo ouro puro do Fort Knox!"

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