Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Wagner Tiso: O Maestro Sai da Sombra (1977)

Parceiro e amigo dos primeiros tempos de Milton Nascimento na música, além de músico e arranjador dos melhores trabalhos do parceiro, Wagner Tiso é peça fundamental do movimento que ficou conhecido como Clube da Esquina. Aqui na matéria transcrita abaixo, a jornalista Ana Maria Bahiana fala desse grande músico, em 1977 num informativo do projeto Trindade, que reunia música e cinema, e gerou um ótimo documentário dirigido pela cineasta Tânia Quaresma:
"O Maestro: cigano, trespontano, vizinho, irmão, compadre, amigo básico de Milton Nascimento, sagitariano sombrio sempre se movendo, mineiro, muito nos palcos, nos estúdios. Aprontando: os arranjos brilhantes, a tapeçaria delicada que envolve a música de Milton, desde Clube da Esquina. E que brilha, tão clara, nos discos de Simone, Macalé, Sueli Costa, Paulo Moura. O músico, o criador: 14 anos de trabalho em silêncio, sonhando, arrumando, detalhando cada minúcia, com tanta obsessão de prazer 'que não tenho a menor dúvida, já está tudo completo na minha cabeça, é só sentar e escrever. É uma coisa vasta, sabe, que começa numa coisa de música de igreja, depois sai, já é música de fazenda, os cafezais... aquilo tudo é Minas.'
Antes de ser o maestro, Wagner é músico mineiro: o acordeom em família, o som dos tios, ciganos, no violino. Depois a amizade com o vizinho Milton Nascimento, os conjuntinhos de baile: Luar de Prata, o primeiro, W's Boys, o mais famoso já na cidade próxima de Alfenas, onde tinha ido, teoricamente, estudar  Farmácia. Em Alfenas havia bons músicos e novidades, como baixo, bateria, Milton era o crooner - com o pseudônimo de Wilton, para ficar de acordo com o nome do grupo - e cantava 'Sumertime', 'Exodus'...
Os amigos iriam se separar e se encontrar várias vezes. Separados de 61, por um curto estágio de Wagner nos juvenis da Ponte Preta, reuniram-se de novo na Belo Horizonte  de 1963, fervendo de música.
- Foi o Milton quem me escreveu, dizendo que em BH tinha músicos da pesadíssima, que só vendo pra crer. E era mesmo: era o Nivaldo, o Helius Vilela, muita gente boa. Foi lá que, pela primeira vez, me interessei por música clássica, passei a comprar partituras, ouvir, estudar. Foi lá também que eu ouvi jazz pela primeira vez, jazz free mesmo, de improviso.
Acho que essas coisas, mais os sons de Minas mesmo, de igreja, de fazenda, são os principais elementos do meu som. Ah, e tem o rock, é claro. Os Beatles. Jazz e os Beatles pra mim estão no mesmo plano.
Wagner foi um dos mineiros pioneiros na descida para o eixo Rio-São Paulo. Veio em 65, para trabalhar num disco do compositor Pacífico Mascarenhas - 'era a sensação mineira da época, o Milton daquele tempo' - e ficou. Seus conterrâneos não entenderam tamanha ousadia e o próprio Milton - que, dois anos depois, puxaria todo o trem mineiro com 'Travessia' - censurava Wagner cada vez que ele ia a Minas.
Mas Wagner não desistia. Começou pela noite, nas boates - 'era aquela história de ficar de smoking na porta das boates pra fazer a folga do pianista da casa' -, depois foi tocar com Paulo Moura, mestre de muita gente.
- Foi o Paulo sempre quem me salvou nos arranjos, porque eu nunca estudei música nem orquestração, não. Eu imaginava uma coisa, no começo, aí ligava pra ele e perguntava: escuta, como é que faz isso? E ele me dizia.
Mas o lançamento de Wagner no circuito Rio-São Paulo veio pelas mãos do antigo amigo Milton. Primeiro bicando os arranjos do LP Milton Nascimento (o de 'Beco do Mota', 'Sentinela'), depois fundando o Som Imaginário em 70, com seus velhos companheiros de boate, Luís Alves e Robertinho Silva. E, finalmente, em 72, Wagner se tornaria um dos principais responsáveis pela explosão de Milton, vestindo e apurando suas músicas com arranjos complexos, inteligentes, suntuosos, muitas vezes.
- A música de Milton é ótima para um músico. Dá espaço pra gente trabalhar. Mas eu sei que ela se enriqueceu muito com o meu trabalho. Ficou com mais nuances, mais climas... Antes não era assim não, o Milton fazia música que era a mesma coisa do começo ao fim, no mesmo andamento  e tudo.
De 72 até hoje Wagner tem sido, para grande parte do público, apenas o maestro: o orquestrador de Milton Nascimento. Para alguns, ele também é o músico, o líder incansável do Som Imaginário: 'Tentei mesmo levar adiante esse projeto, fui o único que participei de todas as formações, pensei que o Som tinha pegado uma parte do público do Milton, mas não era verdade. Bom, no fim, aí em 75, 76, já tinha uma plateia muito boa, muito grande, mas a produção era muito cara, dava prejuízo. Mas Valeu a pena, no fim  de tudo.'
Mas ele não é só músico e maestro - com experiência no exterior inclusive, coisas de prestígio como orquestrar e reger um concerto de Herbie Hancock, ou tocar nos dois últimos discos de Wayne Shorter. Wagner é compositor também, há 14 anos. É esse trabalho, minucioso, em silêncio, que ele elaborou por inteiro, nos mínimos detalhes e que está hoje esperando uma brecha para aparecer. Em Trindade - trilha do filme, com 'Tragicômico', sobre a situação do músico e show - ele fez uma pequena mostra  à guisa de estreia.
Mas ainda espera um prometido LP individual, e cava meios para se apresentar, solo, com mais frequência.
- Eu mesmo sou muito culpado por isso, mas, sabe como é, é a cabreirice mineira. Nós somos assim, meio arredios, enrustidos. A gente devia ter feito como os cearenses, como Fagner, aprontando o maior rebuliço, um puxando o outro. Mas somos cabreiros mesmo.
- Quando a gente está lá fora, fica doido pra voltar, acreditando que aqui tem movimento, que as coisas estão acontecendo. Depois chega e vê que não aconteceu nada. Mas tem toda condição de acontecer. Público tem, eu sei que tem, agora precisa investir, arriscar um pouco. E isso ninguém quer. "

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