Palavras Domesticadas

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terça-feira, 5 de maio de 2015

Alceu Valença Comemora 25 Anos de Carreira (1997) - 1ª Parte

Em 1997 Alceu Valença comemorava 25 anos de uma carreira que começou em 1972, quando lançou seu primeiro disco, em parceria com Geraldo Azevedo, ano em que também participou do Festival Internacional da Canção, com a música Papagaio do Futuro. Para comemorar a data Alceu lançou o disco "Sol e Chuva". No dia 07/09/97 o Jornal do Brasil fez uma matéria com Alceu, assinada pela jornalista Anabela Paiva, com título de "Imitador de si mesmo". Abaixo a matéria:
"Mais rápido que uma embolada de Jackson do Pandeiro. Mais malicioso que o Velho Faceta, o palhaço dos pastoris. Melhor nas imitações que Tom Cavalcante. Alceu Valença em "estado de entrevista" desafia o Super-Homem a acompanhá-lo. Há muito a rever em poucas horas de conversa na cobertura do Leblon. Passaram-se 25 anos de seu primeiro disco, gravado com o amigo Geraldo Azevedo pela Copacabana, e da sua apresentação no Festival Internacional da  Canção, com Papagaio do Futuro. Numa conversa-performance, Alceu se levanta, abre os braços, por pouco não dança. Canta: imita Orlando Silva. Imita Luiz Gonzaga, Walter Franco, Clementina. Mas  sua música continua, como vão comprovar os que forem ao show Sol e Chuva, que estreia no dia 17 no Teatro Rival, imitando a penas a si mesmo.
Incrementado pelo lançamento do disco Sol e Chuva, um álbum de regravações de sucessos pinçados entre seus 19 discos e quatro inéditas, o show certamente não vai lembrar em nada os tempos em que Alceu ia para a rua com um megafone de papelão para convidar os passantes a enfrentar o suadouro do Teatro Tereza Raquel e assistir ao show Vou Danado pra Catende, em 75. Há sete anos ele não fazia uma temporada solo no Rio, cidade que escolheu para viver quando não está em Olinda. 'Por amor ao Rio não canto no Rio. É a cidade das segundas-feiras, das terças. Minha relação com o Rio é a do andar.', explica o cantor, que já teve calo no pé caminhador. Aos 51 anos, ele faz uma média de dez shows por mês e se diz satisfeito quando vê o passado no retrovisor. 'Estou feliz porque estou na estrada', diz Alceu, ainda com vontade de chegar.
Sol e Chuva é uma síntese desta viagem iniciada na pequena São Bento do Una, interior pernambucano. Apresenta  o leque moleque que Alceu abriu ao gosto da classe média urbana: maracatu, caboclinhos, frevo, cirandas e os lamentos dos cantadores que ainda guardam e herança moura. Não poderia faltar uma parte dedicada aos tótens do sertão, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Clementina de Jesus é outra influência. 'Quando ela canta os pontos com aquela voz que vem do coração mais profundo, vai bater exatamente na música que meu avô cantava', diz ele.
Dono de uma fábrica de queijos, tocador de viola e flauta, Orestes Valença apresentou Alceu às canções populares. Na casa dos avós maternos, ouvia Vicente Celestino, Dalva de Oliveira e Orlando Silva, experiência que depois lhe permitia formular sua sua já afamada Teoria do Microfone e da Voz. 'Antigamente, os microfones não tinham muito poder de captação; por isso cantavam de forma quase operística. A voz está aqui', diz ele, apontando o meio do peito enquanto imita Vicente Celestino. ' À medida que os microfones foram melhorando, a voz foi subindo para a base da garganta' - faz a 'boca mole' de Orlando Silva. Nelson Gonçalves, diz ele, 'já cantava na língua'. A evolução continuaria com o canto minimalista de João Gilberto e desaguaria nos sussurros de Walter Franco."
(continua)

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