Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 1 de maio de 2015

João Bosco na Bronca - Jornal Canja (1980) - 2ª Parte

"Uma explicação. A matéria falava de um tempo em que Aldir e João deram um tempo na parceria e anunciava uma nova dupla pintando, Aldir e Sueli Costa.
Fiquei surpreso, não esperava que o tivesse magoado. Confesso que agora quem ficou magoado fui eu. Mas tudo bem, vamos a outra estupidamente que o Serginho Pinto, aqui do lado aproveitou a brecha e tomou a palavra.
- 'Você concorda com o  Aldir que no livro Patrulhas Ideológicas manifesta sua mágoa por não ter sido até hoje gravado pela Gal e Bethânia?'
- 'Concordo com o Aldir. O que ele disse não é uma bronca e sim uma constatação. E foi bom ter dito isso, a pessoa deve falar as coisas que acha, principalmente o Aldir que curte demais as pessoas, o ser humano. Talvez elas não gravem porque simplesmente não gostem do nosso trabalho, mas talvez existam outras explicações. Comerciais até... Veja bem, eu sou da RCA, não sou nem da mesma gravadora delas, que é do Guilherme Araújo. Talvez por isso. Talvez também pelo fato de outras cantoras tão importantes, é o caso da Elis, gravarem há muito tempo coisas nossas e isso provocar ciumeira ou coisa parecida.
Serginho insiste. 'Tem a turma de cá, a de vocês, e a turma de lá, não tem?'
- 'Tem, é claro, turma de cá e turma de lá em qualquer atividade. Eu não me considero nem de lá nem de cá. Se você achar que eu não estou numa de transar gente do tipo Gil ou Caetano, está muito errado. Curto adoidado, bicho. Fui ver no roller da Lagoa o Caetano cantando, a céu aberto, Lua de São Jorge e fiquei arrepiado.  Outro dia mesmo, em Salvador, numa festa da Funarte, estava cantando e o Gil subiu no palco e cantamos juntos o Ronco da Cuíca e o Bêbado e a Equilibrista. Sei que o Caetano falou várias vezes do meu trabalho, que elogiou muito Escadas da Penha. E tem mais, pode ser que eu seja de cá ou de lá, mas o Gil e o Caetano não dá pra classificar. Eles são eles, são fora de série. A cada dia surpreendem a gente. Eles têm uma capacidade de sentir o astral do momento, das coisas que estão pintando, que é incrível.'
- 'Quanto ao nosso trabalho -  prosseguiu João - está aí no disco. A gente fala das coisas que estão acontecendo. Tá lá a inflação, o imposto, o feminismo, o trem da Central... O Paulo Emílio não é coisa recente, muita gente se esquece que já no primeiro LP que gravei tinha duas músicas dele. No Bandalhismo só tem uma, mas ele e  o Aldir trabalham juntos há muitos anos.'
Quase seis horas e nós ainda na cantina. João daqui a pouco tem ensaio. Vamos saindo enquanto João fala do show que tá legal, do disco, do seu respeito pelo parceiro.
- 'Olha, bicho, ser parceiro do Aldir pra mim é uma honra. Um cara como ele não é fácil encontrar. Talvez seja o sujeito mais brasileiro  que eu conheça. Uma grande honra, pode acreditar.'
A gente se despede. Aparece lá no show; vou lá sim.
Vou sair agora e tomar a penúltima estupidamente. Não tô nem um pouco magoado, espero que o João também não.
PS: Ouvir o trabalho de vocês é uma grande honra, pode acreditar."

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