Palavras Domesticadas

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sábado, 20 de outubro de 2012

Show de Moraes Moreira no MAM - 1978

Após deixar os Novos Baianos, Moraes Moreira seguiu em carreira-solo, gravando excelentes discos e fazendo muitos shows pelo país. O frevo Pombo-Correio, seu primeiro grande sucesso, ajudou a alavancar sua carreira, e torná-lo mais conhecido pelo grande público. Em 75 gravou seu primeiro disco solo, um excelente trabalho pela gravadora Som Livre, e em 77 seu segundo disco Cara e Coração confirmava a boa impressão deixada por seu trabalho de estreia.

Em sua edição de janeiro de 78 o Jornal de Música trazia uma matéria sobre um show de Moraes no MAM, no Rio de Janeiro, escrita por José Emílio Rondeau. Intitulada “O Verão Interminável de Moraes Moreira”, o jornalista dá um panorama do que era um show de Moraes Moreira naquele período dos anos 70, dando um grande destaque a seu grupo de apoio, o recém-criado A Cor do Som:

“Dos muitos shows que abriram oficialmente a temporada de verão carioca, o esbaldante Cara e Coração, de Moraes Moreira, talvez seja o que mais se adéque ao clima reinante de euforia e descontração que o ambiente de carná próximo se evoca. Fruto da maturação de um percalço não lá muito árduo, desde que deixou os semi-senis Novos Baianos, Moreira está, e, ao que parece, eternamente será, Brasil – verão autêntico e permanente; divertido, malicioso, malandro e relaxado (no bom sentido, é claro).

Sem cair nos ismos e falsas liberalidades que andaram assombrando performances de muitos luminares do show-biz brasileiro, Moreira consegue, ao mesmo tempo, impor climas variados durante todo o show, desde a abertura acústica, um tanto longa e sonolenta demais (ele e o violão), até o efervescente grand finale de avalanches de frevos, culminando (só podia ser) por uma versão esticada de ‘Pombo-Correio’, enésimas vezes melhor do que no disco, cortesia do Trio Elétrico de Dodô e Osmar. O frevo supracitado, junto a até não tão batida assim ‘Preta Pretinha’, compõe a locomotiva propulsora do gorducho portfólio de Moraes Moreira no segundo fim de semana de dezembro, propiciaram o ponto alto do show.

O que não é, de maneira alguma, a minha opinião. Pela proficiência, pelo profissionalismo e pelo fôlego inesgotável, as toneladas de louros deveriam ser despejadas sobre os garotos geniais da Cor do Som, que contribuíram salutarmente com um brilhantíssimo espetáculo de pique, criatividade e maestria, cada um na sua jurisdição, que lhes vale o merecido título de Grande Revelação do Ano. Transformados rapidamente na coqueluche do público e nos enfant-terribles da crítica, na base do ‘até Tinhorão gostou’, Armandinho (cavaquinho e bandolim), Gustavo (bateria), Dadi (baixo), Ary (percussão) e Mu (teclados) formam o comboio mais forte do expresso Cara e Coração. Beneficiados por um P.A. potentíssimo e uma mixagem perfeita, os meninos não pararam de fumegar durante os poucos minutos que lhes foram concedidos para uma esticadela merecida, enquanto Moraes se refestelava a brincar com as crianças (não sei de onde saiu tamanha pivetada) que abundavam (epa!) o palco.

Honra seja feita à faiscante performance de Armandinho e seu bandolim elétrico que, por pouco não perfurou meus já massacrados tímpanos e escaldou minha massa cinzenta. Seus fraseados speedíssimos ultrapassaram o limite do crível e humanamente possível; um recado para ti, Armando: tu tocas com o desembaraço e a firmeza de Waldir Azevedo e ainda consegue meter Hendrix e Paco de Lucia na jogada, sem pisar na bola! Busto de bronze na Praça Castro Alves pra ele, donas autoridades. Ah, desculpe, leitores. Como ia dizendo antes de rude interrupção, Cara e Coração está um show forte, escorreito, límpido, alegre e profissional. Quando a troupe de Moraes Moreira retornar ao Rio, todos lá, sem pensar duas vezes.”



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