Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Milton Nascimento - 70 Anos


Falar de alguém por quem temos grande admiração é falar um pouco de nós mesmos, pois sempre acabamos relembrando de algum fato ou momento que nos remete a essa pessoa. Com Milton Nascimento, que hoje completa 70 anos, é um pouco assim.
Lembro da primeira vez que ouvi a voz de Milton, num disco do Segundo Festival Internacional da Canção, de 1967. Não se trata daquele outro festival, ocorrido no mesmo ano, retratado no documentário Uma Noite em 67, da Tv Record, mas a segunda edição do FIC, da Globo. Desde os meus 8 anos passei a conviver com a voz de Milton cantando Travessia e Morro Grande, que logo aprendi a cantar, embora, logicamente, não assimilasse a mensagem das letras.
Porém, somente na adolescência eu passaria a ter uma audição mais atenta do trabalho de Milton. Dois discos que me marcaram naquele período foram Clube da Esquina e Minas, que conheci quase na mesma época. o Clube da Esquina, apesar de ser mais antigo, eu só fui conhecer o álbum na íntegra alguns anos depois, quando peguei emprestado. Já o disco Minas, eu também não conheci de imediato, mas ouvi-lo foi uma experiência impactante. Para relembrar essa obra, transcrevo uma crítica que o jornalista Tárik de Souza fez do disco, ainda em fita-master, antes do disco ser lançado, e que talvez seja a primeira crítica a ser publicada sobre esse álbum histórico, numa audição privilegiada:

"'Olha/ a volta do rio/ virou a vida/ a água da fonte/ nossa tristeza/ o sol no horizonte/ uma ferida'. Ou ainda: 'Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada/ agora não espero mais aquela madrugada/ vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada'. Em suma, Milton Nascimento deixa o segundo plano (ainda que denso e alimentício) de sua carreira discreta de influenciador, por sua ofensiva postura de superstar, sem lantejoulas. É o mesmo Milton, com sua metálica voz flexível, tão cortante quanto emotiva, sob as luzes de um repertório intro e retrospectivo nas asas da memória. (Ou, 'da Panair', como quer a faixa 'Saudade dois Aviões da Panair'.
Não é um disco saudoso, o 'Minas', nem nostálgico, Deus o livre. 'Minas' tanto é passado, quanto representa as iniciais do nome principal, escrito a fogo, só hoje lido em voz alta. Poucos foram tão fiéis na descoberta de um clima universo regional. Milton, Minas e Espanha, rock e folk. Com uma voz lancinante, um lamento sem queixa, uma toada progressiva filha dos corais da igreja, como lembra a todo momento o (des) conjunto de crianças cantantes de 'Paula e Bebeto', convocado entre filhos e filhas de Três Pontas, que invadiram o estúdio da gravação do LP, em algazarra. O mesmo aconteceu com Nana Caymmi, Joyce, MPB4, os Golden Boys e tantos outros que juntaram-se ao disco, na linha 'littles help dos friends', que tem caracterizado tantos recentes discos dos super-astros internacionais/rockeiros. Acabaram-se as barreiras da concorrência, a defendida fome das linhas ou estilos, o não-me-toque dos gênios de marfim. Super Caetano parceiro com super Milton, em 'Paula e Bebeto', e outros vieram. Beto Guedes é a voz de flauta, em contracanto com o dono do disco, na faixa título. Nelson Angelo fez o arranjo da própria 'Simples', dividindo com Wagner Tiso a programação de cordas e metais, que se alterna com sabedoria em todo o 'Minas'. O Som Imaginário (Wagner, Toninho Horta, Novelli, Nivaldo Ornelas, Paulinho Braga) sustenta o clima candente da peça, o cenário azulado sujeito a relâmpagos dos ares de 'Minas'. 'Sinherê', de Edu Lobo, é sem cerimônia  e afetuosamente lembrado em 'Leila' (Venha Ser Feliz) homenagem à fulgurante atriz morta. 'Trastevere' tem pontas e beiras de música aleatória, com sua percussão e piano (de Milton: 'estou deixando o violão pelo piano') propositalmente saltados no espaço.
Ouço 'Minas' em fita, nos estúdios da Odeon, as duas caixas do stereo à frente, um osciloscópio pelo meio. A maquininha, com uma tela, poderia-se dizer, radiografa o som do disco. Forma um 'o' na maioria dos solos da voz prodigiosa do principal cantor. Tinge a pequena tela de verde, nos estrondos da bateria. Uma análise científica - por que não, uma radiografia - deixaria claro aos céticos o quanto é inventivo o coração desses músicos que pulsam nos traços verdes do 'Minas'. Uma paixão de batidas novas de cada momento das faixas; uma expansão de entes que não se repetem, mesmo no dia a dia nas limitadas voltas de um LP. Anunciam fanfarras: 'Vem chegando a lona suja/ o grande circo humano/ como a fome do palhaço e a bailarina louca'. Eu diria que 'Minas' é a definitiva aterrissagem de Milton, 'velho maquinista, com seu boné', ao porto do êxito, que tantas vezes mudaram de lugar no momento que o navio se atracar. Pousou, enfim a nave. Tomem assento."

2 comentários:

  1. Olá, gostaria de saber para que revista ou jornal foi escrita a crítica do Tárik de Souza sobre o álbum "Minas", do Milton Nascimento. Se puder, me passe a referência por favor (SOUZA, Tárik....).

    Obrigado e sucesso ao blog.

    Paulo

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  2. Caro Paulo, a crítica de Tárik de Souza foi escrita na revista Rock, a História e a Glória nº 11 (1975).
    Um abraço

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