Palavras Domesticadas

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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Peter Gabriel no Brasil - 1993


Peter Gabriel, quando deixou o Genesis, resolveu seguir uma bela carreira-solo, lançando grandes discos. Gabriel era o front-man do Genesis, e mesmo com o grande sucesso que a banda fazia na época, decidiu seguir carreira-solo, arriscando trocar um sucesso garantido por uma sempre arriscada empreitada individual. Em seu trabalho solo Peter Gabriel não se prendeu ao progressivo, gênero que o consagrou como vocalista de uma das  bandas mais representativas do estilo. Resolveu arriscar, e abrir o leque de estilos, sendo inclusive identificado por parte da crítica musical como um artista de world music, um rótulo criado para identificar músicas normalmente criadas por artistas de países que tem uma sonoridade própria, e que não se encaixam em referências musicais mais conhecidas, como países africanos, latinos, e a música brasileira, entre outros. Em 1993 Gabriel tocou Brasil, numa turnê intitulada Secret World Tour. O show que ele fez na casa de shows Imperator no dia 7 de outubro daquele ano, foi comentado no jornal A Clava do Som, em matéria assinada por Mario Marques Neto:
" 'Finalmente vim tocar no Brasil'. Mais apoteótica que as primeiras palavras dirigidas ao público por Peter Gabriel só mesmo sua entrada no palco. Singelo, misterioso e fascinante, o vocalista lança seus olhos azuis na plateia que retribui com os olhos fixos em todos os seus movimentos. O que parecia ser uma loteria - já que a poucas horas do show houve modificações no repertório - se transformou no melhor espetáculo do ano.
Com o Imperator lotado, Gabriel despreza o infeliz, fabricado 'world music' e mistura Música Progressiva, ritmos africanos e pop refinado, aliados à tecnologia de ponta. Não aquela coisa de 'chaka chaka' e derivados. Música trabalhada, característica rara num mercado onde a música fácil vende mais. E não poderia ser diferente. A banda infernal que o acompanha não desmente isso: Davis Rhodes (guitarra), Tony Levin (baixo), Manu Katché (bateria), Jean Claude Naimro (teclados) e L. Shankar (violino).
A Secret World Tour, que percorre a América Latina divulga seu mais recente trabalho, 'Us' (aliás, segundo disco com  título resumido em apenas duas letras. Superstição?), que contaria com a participação da polêmica Sinéad O'Connor. O desespero tomou contas dos fãs quando foi anunciado o possível 'backing' de Gal Costa em pelo menos três músicas, substituindo Sinéad já que a irlandesa teve que voltar mais cedo por motivos não divulgados. Graças a Deus não aconteceu.
Ao contrário do que a maioria esperava, o show de Gabriel foi mais progressivo que pop. Utilizando elementos básicos nas mudanças de clima outorgados pelo eficiente Naimro e sustentados por heroicas viradas de batera do africano Katché, Gabriel surpreendeu quando colocou à prova seus dotes vocais, íntegros e sem ruídos cômicos. 'Solsbury Hill', uma de suas composições mais inspiradas, foi distinta da apresentação em 'Plays Live', que foi amparada por Mr. Synergy, Larry Fast. 'Red Rain' também foi fundo na galáxia progressiva, esticando os módulos até o ritmo concreto. 'In Your Eyes', algo meio 'brasileiro', tipo 'forró-melodia', saltou do disco com mais alguns pontos, devido à presença do mestre Milton Nascimento, que deu uma 'palhinha' entremeando a canção com um refrão da clássica 'Carpet Crawl' (Genesis), e pelo jeito era uma das poucas coisas que ele conhecia do trabalho de Gabriel, face ao constrangimento a que foi submetido. Isso porque nas três músicas em que permaneceu no palco ficou mudo. Em 'Biko', balada progressiva com sangue africano, sua voz praticamente não apareceu. Ao final da  música, foi deixado de lado por Gabriel que abandonou o palco sem nem olhar para Milton. E ele foi atrás um tanto decepcionado. O grupo de meninos do Olodum foi um show à parte. Um pouco fora de compasso, valeu mais pela animação, o clímax.
Pra solidificar ainda mais essa praia progressiva, Gabriel teve o apoio do violino de Shankar como solo para sua voz e, hora ou outra, duelavam as vozes. Shankar fazia o agudo aportando o tom de Gabriel.
Peter Gabriel nos tempos do Genesis
Se o conceito de Peter Gabriel junto à crítica subiu nos últimos três anos, se deve à música 'Mercy Street', do disco 'So", que fez o nome do ex-Genesis frequentar as FMs brasileiras onde se encontra consignado. A projeção da música pop no Brasil é tão forte que entre a belíssima 'Come Talk To Me' e a fraquinha 'Sledgehammer' adivinha qual deu mais ibope? É. A segunda foi o pico de empolgação do show enquanto a primeira, que foi a abertura, ficou a ver navios.
As músicas de 'Us' ao vivo tiveram um tratamento instrumental que valorizou as performances dos músicos, explorando seu lado teatral. E nessa arte, Gabriel era melhor com o progressivo. É que o teor das novas músicas impõe ao cantor coreografias que nada tem a ver com sua personalidade. Pulinhos, rebolados, corridas ao redor do palco, caras e bocas, mão pro lado, braço pro outro. Estranho. Mas Gabriel se esforça para parecer natural. Quem já o prestigia há algum tempo, sabe que ele é sóbrio e às vezes, muito tímido. É o lado pop da coisa. "

3 comentários:

  1. O Milton Nascimento já é tímido,coitado.Mania de misturar alhos com bugalhos.

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  2. Verdade. O autor do texto é meio radical em termos de rock progressivo. Não concordei com a referência a Gal Costa

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