Palavras Domesticadas

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domingo, 11 de fevereiro de 2018

1974 O Ano do Rock - Revista Pop (1975) - 1ª Parte

No início de 1975 a revista Pop trazia uma matéria fazendo um balanço sobre o ano anterior em termos de rock no Brasil. Intitulada "1974 - O ano do rock", a matéria destaca vários aspectos relativos ao crescimento do mercado de rock no país. É um texto bastante interessante para se conhecer o panorama musical brasileiro, em especial o rock, que experimentou um impulso no país. Fala de shows internacionais acontecidos no país, como os de Alice Cooper, e outros artistas e bandas. Uma frase, colocada na página inicial da matéria resume bem o que o ano de 1974 representou para o nosso rock: "O ano passado marcou a entrada definitiva do rock na vida do público brasileiro. Foi uma grande festa!". Abaixo, a primeira das duas partes da matéria::
"A 25 de janeiro do ano passado, mais de cinco mil abnegados rockeiros de São Paulo passaram uma noite inteira no bosque do parque Ibirapuera, curtindo o som dos conjuntos Made in Brazil, Som Nosso de Cada Dia, Mutantes e outros. E só foram embora quando o sol do dia 26 já estava alto e os músicos quase caíam de cansaço. Duas semanas mais tarde, a 10 de fevereiro, um espetáculo fabuloso acontecia no Rio: o conjunto Secos & Molhados conseguia no Maracanãzinho um clima de delírio nunca alcançado por um artista ou grupo brasileiro. Pela manhã, os 20.000 ingressos postos a venda estavam esgotados. Às 7 da noite, o ginásio estava abarrotado de gente. Do lado de fora, os mais de 15.000 jovens que não puderam entrar depredavam carros, saltavam muros, brigavam com os porteiros e entre si. Os cambistas vendiam por 40 cruzeiros ingressos que valiam 10. No dia seguinte, o grupo estava consagrado e o empresário Moracy do Val juntava 250.000 cruzeiros aos polpudos lucros que o primeiro LP dos Secos & Molhados estava rendendo.
Secos & Molhados no Maracanãzinho
Talvez entusiasmado por esses sintomáticos acontecimentos, o veterano empresário Marcos Lázaro entrou em cena com uma bomba de altíssimo poder: trouxe ao Brasil, em março, o discutido Alice Cooper, um dos mais controvertidos e assustadores astros da galáxias do rock.  Em seu primeiro concerto, no parque Anhembi (SP), 70.000 jovens de várias partes do Brasil se espremiam para chegar o mais perto possível do palco. E criaram um tumulto tão grande que a própria 'Tia' Alice ficou com medo e chegou a interromper o show, temendo pela sua segurança. No fim, muita gente acordou no hospital. E Marcos Lázaro chegou a dizer que nunca mais se meteria com rock.
A verdade é que, bem ou mal, este foi o terceiro, talvez, o mais importante dos acontecimentos que deflagraram a explosão do rock em 1974 no Brasil. A partir daí, as coisas começaram a acontecer e nunca mais foram como antes. A começar pelos grandes empresários brasileiros, que trocaram o medo de perder dinheiro pela certeza do bom investimento, arregaçaram as mangas de suas camisas de colarinho duro e começaram a trabalhar. Enquanto Marcos Lázaro andava às voltas com Alice Cooper, Manoel Poladian tinha menos preocupações e muito lucro com o romântico Billy Paul e já transava a vinda do gordo Demis Roussos para maio. No Rio, os praticamente desconhecidos George Kosky e Alberto Ellis juntam seus capitais, fundam a KEP e anunciam a vinda dos afinados Jackson Five, que acaba acontecendo em setembro.
Alice Cooper
A essa altura, a especulação é tão grande que quase ninguém se entende mais: quem vai trazer quem, quem vem mesmo, quem não vem nunca? Guilherme Araújo, como quem não quer nada, vai a Londres e procura o Rolling Stone Mick Jagger, um cara que não esconde de ninguém que está louco para cantar na América do Sul. Kosky e Ellis, sempre combatidos pelos concorrentes, anunciam a vinda do conjunto inglês Traffic para novembro. Em cima da hora, o grupo cancela a excursão, provocando grande prejuízo para a gravadora Phonogram e decretando a morte da KEP, que estava com o prestígio abalado desde sua fundação. Com isso, disseram alguns empresários: 'Os aventureiros se assustaram, a euforia passou e o mercado tende a se profissionalizar de vez'.
E o ano acaba com um saldo favorável para os empresários, que ganharam um bocado de prestígio e muito mais dinheiro, trazendo atrações internacionais de sucesso comercial garantido: Stylistics, Supremes, Dione Warwick e George McRae, além dos já citados Jackson Five, Demis Roussos e Billy Paul. Além de Alice Cooper, só houve uma surpresa considerada realmente boa: a passagem atordoante do genial Miles Davis pelo Brasil, dando um verdadeiro banho de música em seus perplexos ouvintes.
Miles Davis
Tradicionalmente à margem dessa efervescência comercial, o rock brasileiro decidiu entrar também na festa. E, ajudado pela euforia geral em torno dos Secos & Molhados começou a se infiltrar no cenário. Enquanto os músicos se juntavam e ensaiavam a pleno vapor, com muito mais garra do que com aparatos técnicos, começaram a pintar os jovens empresários, cheios de ideias e de esperança. Caras tão jovens e pirados como os próprios músicos, muniram-se de pastinhas quadradas, contratos e passagens de avião e saíram para a briga.
Mônica Lisboa dedicou-se exclusivamente a Rita Lee e seu Tutti-Frutti, revelando a ótima guitarrista de óculos Lucia Turnbull. E chegou a comprar parte do equipamento de Alice Cooper para montar um espetáculo profissional: Atrás do Porto Tem Uma Cidade - um show muito bem produzido, com cenário belíssimo e som perfeito, que estreou em agosto em São Paulo e logo correu o Brasil, fazendo a garotada de Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre dançar como não fazia há muito tempo.
Mutantes


Antes disso, em abril, os Mutantes já haviam dado um concerto quentíssimo no cinema Super Bruni 70 (2.500 pessoas!), no Rio. A partir daí, com contrato assinado com o jovem empresário Samuca Wainer, começaram a dar shows isolados até a consagradora temporada no Teatro Bandeirantes de São Paulo, em outubro. Outro cara, Gabriel Neto, depois de investir em alguns concertos passou a cuidar exclusivamente do grupo O Terço, um conjunto de pés no chão e cabeça no lugar. Em setembro, depois de exaustivos ensaios, o grupo pôde comprovar a qualidade de seu som: na abertura da temporada carioca de rock, oportuna promoção da Toca (firma de Samuca e Gil), o público levantou e só parou de dançar depois que O Terço bisou várias vezes seus rocks. O entusiasmo foi incrível, e o grupo partiu imediatamente para a produção independente de um LP, que acabou tendo todos os seus direitos vendidos para a Odeon.

(continua)

2 comentários:

  1. ''Mutantes'' sem Rita Lee é como ''Secos e Molhados'' sem Ney Matogrosso,não foram avante.

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  2. A fase mais criativa dos Mutantes foi na fase com Rita. A fase progressiva da banda é até boa, mas não teve uma vida longa

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