Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

1974 O Ano do Rock - Revista Pop (1975) - 2ª Parte

"Outra saudável tendência que pintou desde o início do ano foi o aparecimento de novos grupos, injetando energias e vibrações originais na escorregadia estrada do rock brasileiro. Cheios de garra e disposição, grupos como Os Piratas, Apokalypsis, Veludo, Vímana, A Chave, Jazzco e Vaso Sanitário, entre muitos outros, ficam ainda confinados a uma certa marginalidade. Mas não se assustam com isso. Pelo contrário: extraem daí uma energia incrível e fazem dela sua verdadeira linguagem, despejando muito sentimento em seus shows. Fora do eixo Rio-São Paulo esta tendência pintou com o mesmo vigor. Só em Porto Alegre apareceram três novos grupos, formados por músicos do primeiro time que andavam meio aposentados: Bixo da Seda, Toque e Almôndegas. Em Belo Horizonte surgiu o Banquete 93 de Cogumelos e a Sopa de Minhocas. E em todas as outras cidades do Brasil os jovens passaram a se juntar para fazer som nas capitais e pelos toques precisos do consciente Gilberto Gil.
Odair Cabeça de Poeta e Grupo Capote
É claro que as gravadoras não podiam ficar alheias a esse movimento todo. 'Depois dos Secos & Molhados, sentimos que o rock é a grande aspiração do jovem brasileiro', diz Geraldo Lowenberg, gerente do Departamento Industrial da Continental, gravadora que se encarregou de levar os grandes grupos novos para as prateleiras das lojas e daí para os toca-discos dos jovens de todo o país. Assim, Odair Cabeça de Poeta e o Grupo Capote, Som Nosso de Cada Dia, Grupo Raízes, Ave Sangria, Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, Barca do Sol e o novíssimo Moto Perpétuo tiveram seus discos lançados. E já estão na fila Sé & Guarabyra (que saíram da Odeon), Piratas e outros.
Erasmo Carlos
Antônio Vasco, do Departamento de Publicidade da Phonogram, acha que 'o grande problema para a abertura do mercado do rock no Brasil é a falta de crédito dos lojistas: eles simplesmente não acreditam no rock nacional. Se compram, são sempre poucos discos; e muita gente deixa de ser atraída para comprar um disco de rock nacional apenas porque não o vê nas vitrines'. Mesmo assim, a Phonogram investe muito nos artistas nacionais e  procura dar toda a cobertura possível - até financia a compra de equipamentos. Assim, os discos de Rita Lee, Raul Seixas, Jorge Mautner, Erasmo Carlos e Gal Costa foram produzidos com muito cuidado.
Zé Rodrix
A Odeon lançou um LP de Sá & Guarabyra, um de Zé Rodrix e um álbum com a gravação ao vivo do concerto de Milton Nascimento no Teatro Municipal de São Paulo. E além de relançar toda coleção dos Beatles, lançou os primeiros discos gravados pelo Pink Floyd. Sérgio Leopoldo Rodrigues, divulgador da gravadora, garante: 'Nós vamos dar o maior apoio ao rock nacional em 75. Como incentivo, abrimos as portas da Harvest, selo onde gravam Deep Purple, Ron Wood e outros cobras. E já está tudo certo para o lançamento do novo LP do Terço.
Raul Seixas
Para que tudo isso pudesse acontecer, era preciso montar uma infra-estrutura capaz de enfrentar a concorrência dos produtos já consagrados do show-bizz. Por isso, o conjunto Made in Brazil recorreu aos serviços do veterano Mario Buonfiglio, o Moto Perpétuo aceitou a tutela de Moracy do Val, e foram criadas empresas dinâmicas para fazer qualquer tipo de assessoria aos conjuntos e concertos de rock.
Em São Paulo, nasceu a Rocka Rolla, de um grupo de técnicos de som liderados pelo competente Peninha Schmidt. E a Público, agência que fazia assessoria de imprensa para equipes automobilísticas, passou a dedicar-se ao rock, através do baterista Dinho (ex-Mutantes), um de seus diretores. Em Porto Alegre, foi criada a Arco-Iris Produções, que promoveu vários espetáculos de rock no sul e participou de um festival ao ar livre em Santa Catarina. No Rio de Janeiro, a Toca encarregou-se de dar um grande empurrão nos rockeiros da cidade.
Em outubro, a garotada de São Paulo foi de novo ao Ibirapuera, desta vez debaixo de chuva, e fez nova vigília de  louvação ao rock. Quando o concerto terminou, o promotor e apresentador Magnólio, um cara inquieto e imprevisível, anunciou a criação da Tenda do Calvário, um teatro que trabalharia exclusivamente com rock, desde o mais marginal até o mais industrializado. Com sua equipe de trinta jovens e o cadastro de mais de trezentos colaboradores, Magnólio transformou um velho teatro de igreja em templo do rock. Teve problemas externos muito sérios para botar a Tenda em funcionamento, mas superou-os através do trabalho incansável e despojado de sua apaixonada equipe de rockeiros.
Made in Brazil
Assim, nosso rock chegou, no fim do ano, aos últimos degraus da profissionalização definitiva, digerindo com paixão os grandes acontecimentos internacionais (excursão de Bob Dylan, volta de Eric Clapton, etc) e ouvindo frases otimistas como esta, do Oswaldo, baixista do Made in Brazil: 'O rock está se firmando cada vez mais. O apoio que faltava aconteceu em 74. Programas de TV, rádios e espaços que se abriram em jornais foram os responsáveis pelo grande sucesso do rock em 74'. Ou, como diz Guilherme Arantes, líder do Moto Perpétuo: '1975 será o ano da maturidade dos grupos de rock e da solidificação dos empresários. Será também o ano do alicerçamento completo do rock tupiniquim'.
Mas o mais importante de tudo é que, enquanto alguns de nossos músicos tentavam seguir os moldes ditados pelo rock internacional, Cat Stevens, Nick Taylor (dos Stones), Jim Capaldi e Chris Wood (do ex-Traffic) vieram a passeio e descobriram aqui a energia pura que já está faltando no rock industrializado dos EUA e Inglaterra. Capaldi chegou a ficar deslumbrado e fez uma profecia, que precisa vingar: 'Nas raízes da música brasileira está o sangue da música do futuro. Por isso, vocês não devem ficar só nos imitando' "

Um comentário:

  1. A Gal teve mesmo uma fase bem pop-rock,mas até o nome do Milton Nascimento apareceu associado ao gênero.

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