Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 27 de março de 2017

Jards Macalé Lança Seu Primeiro Disco (1972)

Em 1972 Jards Macalé lançava seu primeiro disco, que levava seu nome. Apesar de já atuar na música há um bom tempo, participado de festivais, como o FIC de 69, apresentando Gothan City, ter composições suas gravadas por outros intérpretes e lançado compactos, Macalé só lançaria seu primeiro LP naquele ano. O disco, que virou um clássico, foi muito bem recebido pela crítica menos tradicionalista e careta, como mostra essa resenha escrita por Maurício Kubrusly, no jornal O Estado de São Paulo:
"Este é o primeiro LP de Macalé, um músico excelente que precisou esperar mais de dez anos por esta oportunidade. Para os poucos que acompanharam sua atividade por todo esse tempo, o nível deste disco não representa uma surpresa, ao contrário, só confirma a seriedade do trabalho desenvolvido desde o início até a maturidade de agora.
Já se disse, em relação ao século XIX, que a música de câmara representa o ponto máximo da criação - uma peça para um quarteto de cordas, por exemplo, exigiria do compositor domínio técnico, inventividade e equilíbrio em grau muito superior ao necessário para a elaboração de uma partitura para orquestra, onde os recursos são muito maiores. O disco de Macalé sugere um paralelo com esta observação, pois representa o que poderia ser classificado como 'música popular de câmara'. (para que fique claro o sentido desta comparação é preciso abandonar preconceitos que geram separações como 'erudito-popular'). 
Esta 'música popular de câmara', que nada tem de hermética ou inacessível, surge a partir do momento em que Macalé deixa de lado toda a magia dos recursos eletrônicos, tão ao gosto da música pop de hoje. O LP foi realizado apenas por três músicos: o próprio Macalé (violão e vocal), Lanny Gordin (violão e guitarra) e Tuti Moreno (bateria). Esse limitação, a priori funciona como um desafio para cada um dos três músicos. E eles respondem com atuações de uma riqueza pouco comum, em todos os momentos do disco. O desempenho desse trio, também responsável pelos arranjos, resulta num LP com tratamento adequado a cada faixa e unidade no conjunto, contenção rigorosa no uso de cada recurso e equilíbrio absoluto até em cada emprego - surpreendente - das pausas.
O trabalho de Macalé como compositor já tinha sido divulgado no trabalho de outros intérpretes, mais recentemente por Gal Costa e Maria Bethania. Aqui estão músicas mais novas, como Revendo Amigos, ao lado de outras já gravadas, como Movimento dos  Barcos - todas com a força e originalidade que caracterizam as composições de Macalé e seus parceiros. E estes, apesar da exploração nos efeitos conseguidos com o jogo de palavras com sons semelhantes, também são excelentes. As letras quase todas marcadas por verbos no presente, contém versos muito bonitos, rompendo completamente com as limitações da métrica e da rima.
Como todo intérprete, Macalé nada fica devendo ao compositor. (Todo o disco é marcado pela 'postura' de Jards Macalé, seca e agressiva, identificada já na foto da capa, a mesma pose das apresentações em público). Explora sua voz rouca de maneira minuciosa, adaptando-a ao clima criado para cada interpretação, explorando cada verso, o som de cada sílaba.
É um disco que impõe uma audição atenta, cuidadosa, para a apreensão por toda a beleza que existe atrás da real secura e da aparente simplicidade deste trabalho. Por tudo isto, Jards Macalé é um LP magnífico, para ser colocado no mesmo nível dos melhores já lançados em 1972, um ano fértil para a música popular no Brasil - também porque, de Nelson Cavaquinho a Macalé, muitos estão conseguindo agora 'uma primeira oportunidade'. "

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