Palavras Domesticadas

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quinta-feira, 9 de março de 2017

Chico Buarque na Calçada da Fama (2004)

Chico Buarque, um dos artistas que mais combateram o regime militar instalado no Brasil em 1964, não poderia deixar de ser homenageado por sua obra e seu posicionamento político naquele período tão conturbado pelo qual o Brasil passava. Por isso, quando se lembrava dos 40 anos do início daquele período, e como uma forma de homenagear de quem ousou combater e desafiar a ditadura imposta pelos militares, Chico deixou suas mãos na "calçada da fama", um monumento de cimento fresco criado no bar Toca do Vinícius, em Ipanema, onde ele pousou as mãos, deixando sua marca. Isso aconteceu no dia 1º de abril de 2004. Na verdade, a data não foi uma escolha, e sim uma coincidência, mas que ganhou um significado especial. Em sua edição de 04/04/04, o jornal o Globo trouxe uma matéria sobre o evento, assinada por Cesar Tartaglia, e intitulada "Com as duas mãos na fama, Chico ri por último":
"Quinta-feira passada, primeiro de abril, com uma deferência devida a ídolos do seu porte, Chico Buarque de Hollanda deixou registrada a marca de suas mãos num quadrado de cimento fresco. Junto a ela, o jamegão do compositor também em relevo, formando um conjunto que foi recebido como uma figurinha carimbada pelo dono da Toca do Vinícius, Carlos Alberto Afonso, onde o troféu reforçará o acervo da Calçada da Fama de Ipanema.
Chico deixou para  Carlos Alberto a escolha da data, mas sem querer produziu-se uma deliciosa coincidência. Naquele dia, a imprensa registrava as lembranças das quatro décadas do golpe de 64, ano zero de uma ditadura que tanto perseguiu o compositor. A crônica do movimento de 64 registra o dia 31 de março como o do início de tudo, mas foi já na madrugada de 1º de abril que as tropas começaram a marchar. Quarenta anos depois, ficou seguinte: o regime finou-se, seus patronos saíram de cena e Chico continua gozando a fama que nunca perdeu.
As mãos do artista se juntarão a uma galeria de placas da Toca, com registros semelhantes de Maria Bethânia (que iniciou a série em 1969, no finado Pizzaiollo, de cujo acervo de cimento a casa se tornou donatária), Vinícius de Moraes, Elizete Cardoso, Pixinguinha e outras cobras criadas da MPB. Elas farão parte de um conjunto de 32 peças, com projeto do arquiteto Paulo Casé, chamado Tótens da Fama. A ideia é montar um monumento em frente  à Toca do Vinícius. Se tudo correr bem, as placas, suspensas por pilares de vidro, serão inauguradas no próximo dia 26, nas comemorações do 110º aniversário de fundação de Ipanema.
O convite a Chico passaria por um prosaico evento de um projeto cultural do bairro, não fosse a curiosidade da data. Ela foi escolhida ao acaso, uma brecha na agenda do artista, particularmente apertada neste dias de lançamento do filme 'Benjamim'. Mas, embora ele certamente rejeite qualquer segunda intenção na fixação do  dia, não há como se furtar a saborear o gostinho de quem riu por último.
Vítima número1 dos maus bofes do regime, Chico teve sua obra, não poucas vezes, clivada ao gosto dos censores. A perseguição foi tamanha que, no auge dos anos de chumbo, ele teve de adotar um pseudônimo (Julinho da Adelaide), para ludibriar os guardiões do index da época.
Cinco, seis anos depois do golpe militar, amargando um exílio que parecia levar para as margens do brejo boa parte de quem ousava criar no país, o compositor cantava da Itália: 'Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia(...)/Você vai se dar mal/Etecétera e tal/Laralá, laralalá...'.
Profético: decorridos 40 anos desde o golpe, produzindo como o finado regime não admitia, ele está onipresente na Calçada da Fama, nos cinemas, nas livrarias e nas rádios. Seus censores, no limbo. Pura coincidência o destino reservar tal homenagem ao maior dos nossos compositores para estes dias, quando a revolução volta a ser lembrada. Como previa a letra de 'Apesar de Você', hoje é outro dia, seus perseguidores se deram mal, etecétera e tal, e Chico riu por último.
Deixando suas mãos na placa
A mobilização de Carlos Alberto Afonso para capturar o valioso ícone começou domingo passado. Ele fizera algumas gestões, até que o próprio Chico telefonou-lhe no fim de semana. 'Quinta-feira ou segunda, pode ser?' Você acha que no campo fica longe?', perguntou o músico. Mesmo que fosse no fim do mundo, o fã, deferente, estaria lá, na hora acordada, com balde, cimento e uma boa dose de tietagem.
- Ele ainda me convidou para jogar na pelada. Não ia perder aquilo por nada. Cheguei junto com Chico no campo, ele de calção, chinelo e camisa pescando siri - delicia-se Carlos Alberto.
O campo em questão é o Centro Recreativo Vinicius de Moraes, um tapete verde mantido por Chico lá para os lados do Recreio, onde ele recebe os amigos para bater uma bola duas vezes por semana, com seu time, o Politheama. A pelada rolou macia, com craques da música (e não necessariamente do futebol) como o ex-MPB4 Ruy Faria e o compositor Carlinhos Vergueiro.
A um aviso da equipe da Toca do Vinicius, o músico deixa temporariamente o campo, vai em direção à arquibancada e tasca as mãos no cimento. depois assina a placa - e a galera fazia 'uhhhhh'. Chico brinca, voltando-se para uma plateia animada, divertida, tomando-a por torcedores.
- Estão vendo? Vocês não fizeram questão de ter meus pés no cimento. Pois agora estou gravando minhas mãos para a Calçada da Fama.
- Habemus placa - vibrou Carlos Alberto.
- Placam - consertou o homenageado, gastando cavalheirescamente o latim.
Chico volta a campo. Só faltava, para completar a festa, um gol do ídolo - e, como no mundo chicobuarqueano tudo é perfeito como o gramado do seu estádio particular, o compositor incorporou o craque. tomou uma bola na intermediária, driblou um adversário, avançou e soltou a bomba. Indefensável: não faltava mais o gol. E, para não fugir ao mote da tarde, de placa."

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