Palavras Domesticadas

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sábado, 18 de fevereiro de 2017

João Bosco Estreia Temporada no Teatro Rival - RJ (1997)

João Bosco é um dos grandes artistas de palco do Brasil. Tendo a capacidade de só com sua voz e o violão dominar plateias, esse formato de show sempre foi muito utilizado por João em suas apresentações pelo Brasil. Assim foi uma temporada em 1997 no Teatro Rival, localizado no centro do Rio. Tive a oportunidade de assisti-lo no mesmo ano e local, porém em um show único, também de voz e violão, que como sempre foi um grande show, como tantos outros desse grande artista que eu tive a oportunidade de assistir.
Nessa matéria publicada no jornal O Globo em 16 de fevereiro de 1997, e assinada por Mauro Ferreira, João fala do show, do novo disco que estava gravando, e especialmente sobre uma nova composição homenageando Pinxinguinha e Clementina de Jesus, com quem aliás, já havia dividido o palco e estúdio de gravações. Segue a matéria:
"João Bosco lembra com saudade de sua estreia no projeto 'Seis e Meia', do Teatro João Caetano, em 1976, ao lado de Clementina de Jesus. Ele tocava violão acústico e cantava com ela duas músicas de Pinxinguinha, 'Yaô' e 'Benguelê'. Os dois temas, de inspiração afro, são destaque no show que Bosco vai apresentar, a partir de quarta-feira, no Teatro Rival. É a sua volta ao Centro depois de 21 anos. Na temporada de um mês, Bosco vai apresentar uma música inédita que compôs em homenagem a Pixinguinha, 'Benguelô', referência aos dois temas que cantava com Clementina. Enquanto trabalha no conceito de seu próximo disco - a ser gravado a partir de junho - e na trilha que fará para um dos próximos espetáculos do grupo Corpo, o cantor e compositor mineiro festeja o show em que se apresenta apenas com seu violão.
- Cantar e tocar violão acústico é o que eu mais gosto de fazer - diz Bosco. - Preparei um roteiro conhecido para celebrar esta volta ao Centro. Meu encontro com Clementina despertou uma negritude que eu ainda não exercitava na época.
Bosco vai pôr negritude na pauta dos temas que entregará para o Corpo no segundo semestre  do ano. Conterrâneo do grupo, o mineiro Bosco recebeu o convite para compor para o balé quando foi ver, no Teatro Municipal do Rio, o último espetáculo do Corpo, 'Bach'.
- Estava muito a fim de trabalhar com o Corpo e já estou fazendo pesquisas musicais sobre o universo musical mineiro - conta Bosco. - O lado barroco de Minas é muito conhecido e exaltado, mas eu pretendo mostrar, com a trilha desse balé, um lado mineiro mais popular e mais negro, que é o das folias de reis e das congadas.
Nascido há 50 anos em Ponte Nova - cidade vizinha de Ouro Preto, para onde foi estudar engenharia - Bosco planeja adicionar outros temperos ao seu som no disco que lança em agosto.
- Quero experimentar sons de ambientes ciganos e flamencos e da região do Magreb, no Norte da África - anuncia o cantor. - Vou fazer um disco autoral, totalmente inédito, com músicas ligadas à magia das 'Mil e uma noites' e da região do Oriente Médio. Quero ser mais explícito na tradução desses sons para o Brasil. Minha ligação com eles é de sangue, de gens. Meu avô veio do Líbano para o Brasil aos 17 anos.
João e Clementina
A rota musical de João Bosco é, cada vez mais, internacional. Já habituado a fazer turnês anuais pelo exterior, o cantor tem seis apresentações agendadas para abril na casa Blue Note, em Nova York. Ele subirá ao palco ao lado do saxofonista Leo Gandelman.
- Quero ver se encontro algum músico que possa se juntar aos brasileiros na gravação do álbum - sonha Bosco. - Eu corro atrás do dinamismo da música, mas sem me preocupar com linha evolutiva. Só que, por mais que tenha me comunicado com outros sinais, eu jamais deixei de ser um músico brasileiro.
O violão - velho companheiro de Bosco desde os tempos em que ele, adolescente, formou um conjunto de rock para se apresentar nas vesperais dançantes de Ponte Nova - é o instrumento usado na hora de compor. E vai reinar absoluto na temporada no Teatro Rival, a primeira de Bosco na casa dirigida por Ângela Leal.
- Sou um compositor que faz músicas com versatilidade, mas é o violão que me dá sustento nessa diversidade - ressalta ele. - Meu violão exibe todas as faces que um violão brasileiro pode apresentar. Ele já passou pelos boleros, teve a sonoridade metálica do rock'n roll e cutucou as músicas populares vindas do violão de Dilermando Reis, conservando o toque de Baden Powell e sugerindo o ambiente decorativo do violão de Dorival Caymmi.
Foi com o violão que Bosco gravou um álbum praticamente ignorado em sua discografia, 'Esta é a sua vida', lançado em 1981 com um punhado de regravações de sucessos de artistas como Elis Regina. O Bosco intérprete voltaria a se manifestar com igual intensidade no recente 'Dá Licença, Meu Senhor', CD cujo repertório de standards da MPB é uma das bases do novo show.
- Vou fazer uma retrospectiva da carreira para deixar as pessoas felizes - diz Bosco. -  O charme é o violão, porque ele é parte fundamental e inseparável de toda  música que faço.
Bosco faz sua música plural, síntese de Rio e Minas, desde os tempos de Ouro Preto, onde chegou a esbarrar com Pablo Neruda, Miles Davis e Vinícius de Moraes. Na época, o violão já era  o amigo fiel e inseparável."

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