Palavras Domesticadas

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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Simone - O Globo (1977) - 1ª Parte

Em 1977, a cantora Simone começava a se firmar como um grande nome da MPB. Em agosto daquele ano, o jornal O Globo trazia uma matéria sobre a cantora, falando sobre um show do Projeto Seis e Meia, que acontecia no Teatro João Caetano, no centro do Rio, sempre reunindo uma dupla de artistas, por preços populares. No caso do show de Simone, o seu parceiro de palco era o consagrado cantor e compositor Belchior. A matéria é assinada pela jornalista Ana Maria Bahiana, e tem como título "Maravilhosa! Linda! Ótima! etc, - exclamou o delirante público":
"Pelo que os jornais contam, a Praça Tiradentes nunca mais será a mesma. Durante cinco dias, de 22 a 26 de agosto de 1977, ela foi tomada de assalto por uma brigada estranha, nova: cinco, seis, oito mil jovens de idades nunca superiores a 25 anos, vindos de todos os cantos e ocupações do Rio de Janeiro. Jovens pacientes, jovens inflamados, jovens capazes de suportar três, quatro e até seis horas de fila e tumulto e atritos rudes com a polícia. Tudo para entrar no Teatro João Caetano, pagar CR$ 12 e desfrutar hora e meia com Belchior e Simone. Belchior? Simone? Aí, o osso da questão. Como? Por quê? Certamente o Seis e Meia já atraiu multidões, mas não essas multidões, que a música brasileira toda vê desde os áureos tempos dos festivais. Muito menos para ver dois artistas de recente exposição ao público, para não usar o batidíssimo termo 'novos'. De Belchior, que é articulado e falante, a imprensa tem se ocupado com regularidade. Mas, e essa Simone que o público de TV recorda apenas como uma morena de voz rouca cantando 'O que será, que será' no Globo de Ouro? E essa Simone de quem o que se diz, comumente, é que é ex-jogadora de basquete, e só? E essa Simone que, com certeza, atrai pelo menos metade - e depois cativa o restante - dessa multidão inusitada?
Simone está chegando de Itaipu com o rosto ainda vincado de cansaço e uma certa tensão. Foi descansar algumas horas entre um espetáculo e  outro - além do Seis e Meia ela fazia temporada em Niterói, com seu trabalho "Face a Face' - na companhia de um personagem misterioso que chama apenas de 'meu guru'.
- É uma transa de meditação, sabe? - confidencia a empresária Monica Lisboa. - Aquele lado mais espiritual que todo artista precisa ter. Nem sei direito o que é, mas parece uma coisa não muito mística, sabe, mais na terra, mesmo.
Se há matéria que Monica conhece a fundo é essa estranha raça de artistas. Durante cinco anos ela foi a mentora e articuladora do sucesso nacional de Rita Lee. Portanto, nada mais significativo que seu interesse por Simone. Um novo ídolo estaria em gestação?
- A verdade é que o público precisa de ídolos - diz ela depois de longa meditação. - Disso não há meios de escapar. Principalmente agora, numa época de tanto sufoco, as pessoas querem extravasar tudo em figuras catalisadoras. E não aceitam mais os ídolos do passado, que, inclusive, não querem mais esse papel. O público cansou daquelas mesmas caras, quer gente nova.
Simone não gosta de falar em ídolos. Gosta de falar de música. E  de amor.
-Não gosto de mentiras. Isso de ídolo é uma mentira, uma coisa fabricada. Pra que esse invólucro, por que eu não posso ser no palco o que sou em casa, o que sou aqui? Quero sempre a verdade. O que é verdadeiro pra mim, agora, tem de ser verdadeiro no palco.
Estica as pernas compridas - botas, calças jeans - sobre a mesa, fuma, pensa. Tem claramente dois lados acentuados: um, incisivo, inflamado, sempre próximo da raiva pela veemência; outro, doce, introspectivo, muito perto do assustado pela contenção. Está obviamente tensa - mãos quase sempre crispadas, os ombros erguidos, sem ceder a relaxamento algum - embora aparente serenidade. Nas horas seguintes eu descobriria que, quanto mais angustiada, mais impassível é seu rosto.
Levar a conversa para o lado da idolatria, dos riscos e armadilhas do sucesso, e ver Simone se agitar e se encrespar, felina, tom de voz alterado, gestos rápidos.
- Esse papo de ídolo é todo muito estranho, é muita mentira que tem nisso.
E sucesso?
- Tinha que vir algum dia, não é? Eu estava esperando. Afinal, são quatro anos de trabalho, eu não apareci assim de um dia para o outro. Eu sempre acreditei no que fiz, sempre procurei fazer o melhor. Eu não tinha pressa, sabia onde ia chegar. Todo mundo que tem sucesso muito rápido acaba logo. Não conheço ninguém que dure. Diziam que eu era elitista, que era para um circuito fechado, e tal. Mas eu sempre queria fazer o melhor.
Eu sei que o público quer qualidade, um trabalho de qualidade. E isso eu sabia que estava fazendo. Esse meu último disco já saiu vendendo 25 mil cópias na primeira semana. Quero ver alguém dizer que isso é ser elitista.
Pergunto se ela não tem medo daquela multidão que se aglomera diariamente às portas do João Caetano. Ela responde imediatamente que não, claro que não, que só teme pela desorganização do espetáculo, pelo modo como as pessoas são tratadas. Evidentemente, não percebe o alcance todo da pergunta - queria saber, mais, se ela tinha medo do fato em si de trair tamanha multidão - ou, se percebe, foge dele. Volto ao assunto, mais especificamente: Não tenho medo da força, em você, que está chamando toda aquela gente? Não tem medo do que elas estão projetando em você, do papel para o qual a estão empurrando? Simone baixa a cabeça, baixa a voz.
- Não. Quatro anos de trabalho fazem a gente saber muito bem onde está nossa cabeça. "

5 comentários:

  1. Muito boa essa matéria! Raridade. Grata por postá-la.

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  2. Emocionante mesmo!lindo!

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  3. Ótimo texto. Matéria maravilhosa. Muito bom reler! Obrigado por postar!
    Compartilhei na Página que tenho em homenagem a Cigarra no Facebook: 'Simone Pedaços'. https://www.facebook.com/simonepedacos/
    Um abraço.

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  4. Essa é a Simone que a gente conhece verdadeira, autêntica, ousada qdo preciso for, e sabe o potência do seu esforço e perseverãncia nesse tempo de de 4 anos aí reverenciados por ela mesma. Deu no que no que deu, a melhor cantora que temos nesses últimos 43 anos, passando sempre uma simplicidade, um carisma no palco incontestável e de uma voz linda. Ótima matéria é obrigado por posta-la.

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  5. Obrigado a todos pelos comentários elogiosos. Realmente é uma bela matéria com Simone, quando ela começava a despontar com uma grande estrela

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