Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Fagner Lança Traduzir-se - Revista Música (1981)

Em 1981 Fagner lançaria seu sétimo disco - Traduzir-se, gravado na  Espanha, com a participação de artistas locais. Há tempos Fagner já flertava com a música latina, principalmente a espanhola, e ritmos como o flamenco. Traduzir-se é um disco diferenciado na carreira do músico, por ser um trabalho que fugia um pouco do estilo apresentado nos discos anteriores, embora não tenha se afastado por completo de sua personalidade musical apresentada até então. Na ocasião, a revista Música trazia uma matéria sobre Fagner e seu novo disco, assinada por Denise Ribeiro e com o título "Fagner fazendo história na Espanha":
"Não foi à toa que o especial da Globo, 'Raimundo Fagner Cândido Lopes', levado ao ar no último dia 2, teve como cenário uma reprodução do gigantesco quadro 'Guernica'. O telespectador sabe de toda a polêmica que a obra-prima de Pablo Picasso suscitou na Espanha e, automaticamente, fica consciente de que o último disco de Fagner tem muito a ver com coisas flamencas.
Indo um pouco mais além na analogia, e guardando as proporções devidas, pode-se dizer que o novo trabalho de Fagner, assim como Guernica, também entrará para para a história espanhola. Sua ousadia, perseverança e personalidade cativante lhe valeram esse mérito. Se em  Guernica, Picasso conseguiu retratar todo o horror da guerra civil espanhola, chamando a atenção do mundo para os desmandos do franquismo, o disco Traduzir-se presta um favor à música espanhola, na medida em que amplia suas fronteiras de domínio. 
É sabido que Fagner provocou muita emoção 'en las plagas de alla'. Em Lisboa, juntamente com Jorge Amado, Zélia (mulher de Jorge) e João Ubaldo Ribeiro, acompanhou os últimos dias de agonia de Glauber Rocha. Conseguiu que o compositor e cantor mais popular da Espanha, Juan Manuel Serrat, participasse, pela primeira vez de um disco alheio. Deixou bastante comovido Rafael Alberti, o maior poeta vivo da Espanha, ao incluir um poema seu, 'Málaga' (musicado por Ricardo Pachón), em seu recente repertório. Mercedes Sosa, então, só tem palavras de elogio, para classificar seu relacionamento com Fagner. Segundo essa incrível mulher, o que Fagner fez em Madrid é absolutamente inédito.
A novidade está em reunir tanta gente importante, dentro do contexto espanhol, num disco só. Bastava citar apenas um nome, para se avaliar o quilate dos escolhidos: Garcia Lorca. Lorca é um orgulho nacional, espécie de mártir do franquismo e, é claro, sua poesia nunca precisou de Fagner para ser eloquente. Ela já o é há décadas. Mas não deixa de ser bastante gratificante encontrá-la num disco. É muito alentador esperar que os excelentíssimos ouvidos tupiniquins descubram a beleza que são 'Verde' (Lorca e José Ortega Heredia) e 'La Leyenda del Tiempo' (Lorca e Ricardo Pachón).
Além de gravar os poemas de Lorca e Rafael Alberti, Fagner canta ao lado de Mercedes Sosa, em 'Años' (de Pablo Milanés); Joan Manuel Serrat, em 'La Saeta' (de Antonio Machado e Serrat); Camaron de la Isla, em 'La Leyenda del Tiempo' e Manzanita, em 'Verde'. São artistas que fortalecem a interpretação de Fagner, integrando-se a ela. Notem apenas a magnitude das vozes de Mercedes Sosa e Joan Manuel Serrat. São vozes cheias, empostadas, de um timbre arrasador. Fagner deveria ouvi-las mais e gritar menos.
Outra participação enriquecedora é a guitarra flamenca de Henrique de Mechór, em 'Trianeira' (de Fausto Nilo e Fagner), que todos puderam admirar no especial da Globo. Nessa música, o brasileiro Fagner conseguiu sintetizar as influências que sofreu na península ibérica e as recebidas por intermédio do pai árabe, numa unidade melodiosa tão expressiva que espantou até os 'gitanos' mais legítimos.
Houve ainda espaço para um grande poeta nosso, chamado Ferreira Gullar. Seu poema 'Traduzir-se', musicado por Fagner, mereceu o título do LP.
Também não faltou lugar para homenagens. 'Fanatismo' (Florbela Espanca e Fagner) é dedicada ao rei Roberto Carlos e 'Flor de Algodão', é uma tentativa de superar o célebre mal-entendido com Caetano Veloso. Aliás, em 'Flor de Algodão', Fagner retorna à simplicidade e ao lirismo de seus três primeiros e melhores LPs, quando não fazia concessões ao gosto médio, tão chegado a baladas gritadas e trêmulas. Naquela época Fagner era sério, mas em compensação mais pobre.
A banda que acompanhou Fagner, tanto no disco quanto no especial da Globo, é afinadíssima e valoriza todos os momentos musicais. Manassés é um mestre no cavaquinho. Fernando Falcão e Chico Batera são prodígios na percussão. Só para citar uns poucos.
Enfim, Traduzir-se deixa claro que a intenção de Fagner foi realizar um trabalho íntegro e coeso. O resultado está aí, bonito, histórico, poético, cheio de musicalidade e competência. Pequenas falhas, como a péssima pronúncia em espanhol e os famosos gritos lancinantes de Fagner são apenas detalhes comparados à proposta do disco.
Resta saber se ele será bem aceito pelo público consumidor de Raimundo Fagner. Creio que a galera está mais para 'Coração Alado' do que para Garcia Lorca. "


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