Palavras Domesticadas

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domingo, 16 de outubro de 2016

Os 50 anos de Aldir Blanc - Jornal do Brasil (1996)

Em 1996 o letrista e cronista Aldir Blanc completava 50 anos. A data foi marcada pelo lançamento do CD "Aldir Blanc 50 anos". Em sua edição de 17 de novembro daquele ano, mais de dois meses após o aniversário do homenageado, o Jornal do Brasil trazia uma matéria sobre o lançamento do CD, além do livro "Um Cara Legal na 19ª", de crônicas. A matéria é intitulada "Ourives do palavreado faz 50 anos". O texto sobre o CD é assinado pelo crítico Tárik de Souza, e o sobre o livro, por Moacyr Andrade:
"Logo na faixa de abertura do generoso disco auto-homenagem Aldir Blanc 50 anos (Alma), com 21 faixas do mais refinado lavor lítero-musical, o poeta, letrista, cronista e baterista recebe o aval do baiano-mor Dorival Caymmi. O buda nagô, que brigou até com o dono de seu estado pelo direito à dupla cidadania carioca, elogia o 'ourives do palavreado' numa sentença definitiva. 'Todo mundo é carioca, mas Aldir Blanc é carioca mesmo', bate o martelo. Além da voz de Caymmi e do pernil de Monique Evans, em relevo na foto da capa, ('ficou frontal e eu suava diante daquela calcinha azul', brinca o poeta), o disco de Aldir é uma festa de de adesões estelares. Participam Edu lobo, Paulinho da Viola, MPB-4, Leila Pinheiro, Ed Motta, Ivan Lins, Nana e Danilo Caymmi, Emílio Santiago, Fátima Guedes e mais  Carol Saboya, Clarice Gova, Arranco de Varsóvia, além de uma roda de samba campeã com Ney Lopes, Wilson Moreira e Walter Alfaiate, debulhando com o astro principal as finas grossuras de Mastruço e Catuaba, um glossário sobre a impotência sexual masculina. O disco fecha com um coral de amigos liderado por Betinho no épico O Bêbado e a Equilibrista, um hino do exílio que coloca o irmão do Henfil como personagem símbolo.
O decantado carioquismo de Aldir Blanc Mendes (lançado num remoto festival universitário via Amigo é pra essas coisas, com Silvio Silva Jr.) (*) conservado em formol suburbano, na zona do agrião entre a Tijuca (onde mora) e a Vila Isabel (onde foi criado), descende da linhagem dos cronistas da cidade ao lado de João do Rio, Manuel Antônio de Almeida, Lima  Barreto e Marques Rebelo. Reconhece influências na poesia de Manuel Bandeira (´pela falsa noção de facilidade de seus versos', destila), no seresteiro urbano Orestes Barbosa e na picardia de Noel Rosa, um de seus maiores ídolos na música ao lado do 'padrinho' Caymmi. A lupa psicanalítica de quem já serviu no manicômio do Engenho de Dentro ('tinha sempre 40 roupas para 80 internos, a metade andava nua', deplora) tem reflexos do épico burlesco de Nélson Rodrigues e do minimalismo perverso de Dalton Trevisan. A biblioteca onde ele se abriga para compor e ler no amplo apartamento tijucano, tem de Freud a mitologia grega, do poeta colaboracionista Ezra Pound a revolucionária Rosa de Luxemburgo. E não falta jazz contemporâneo na discoteca, destaques para o guitarrista Kevin Eubanks e o sax alto Antonio Hart. 'Essa história de que tudo parou em Miles Davis é furada', demole o insuspeitado jazzófilo Aldir.
O refinamento de quem venera de Bud Powell a John Coltrane desfila etéreo nas harmonias complexas de Crescente Fértil, parceria surpreendente  com Ed Motta. Também cintila nos recortes e dissonâncias do choro Pianinho, com Edu Lobo. Sonho de Válvulas, uma ode ao trombone de gafieira, prefacia a versão de Aldir (um cantor inclinado aos graves) para o clássico de Glenn Miller Moonlight Serenade. Desconhecido no Brasil, o Rolando que ginga no samba Na Orelha do Pandeiro é o da dupla Les Étoiles, de sucesso na França nos 70, e ex-integrante do MAU (Movimento Artístico Universitário), onde Aldir começou ao lado de Gonzaguinha e Ivan Lins. Da experiente Nana Caymmi (cortante no bolero Siameses, auto-retrato da dupla com João Bosco) à noviça Carol Saboya, filha do pianista Antonio Adolfo (sublime em Carta de Pedra), as bodas de ouro colhem um Aldir em plena forma & conteúdo. 'Aos 50 anos insisto na juventude', ensina o poeta na voz de Paulinho da Viola, na faixa título. "
A matéria traz ainda uma resenha do livro "Um Cara Bacana na 19ª", de contos, crônicas e poemas de Aldir, assinada por Moacyr Andrade, com o título 'Vida como é no Rio:
"Numa mesa do Acrópole, bar do início da Rua Barata Ribeiro onde os boêmios, no raiar dos anos 60 tomavam ao amanhecer uma sopa russa - ou grega - que em 100% dos casos prevenia a ressaca, o cronista Antônio Maria contou certa vez que escrevia as quatro laudas e tanto do JAM, Jornal de Antônio Maria, a coluna que então publicava num dos diários associados de Assis Chateaubriand, em menos de meia hora. É provável que Aldir Blanc não tenha - nem queira - esse pique.  Mas, tal como Maria, já trabalha sob a pressão (êpa!: quando se fala de Aldir o dialeto dos botequins aflora com  a maior naturalidade) das encomendas. Blanc, como o tratam com solenidade brincalhona os mais próximos, é colunista de dois jornais, um no Rio e outro em São Paulo, e para os dois escreve crônicas diferentes, nada de cópias xerográficas. E este Um Cara Bacana na 19ª foi concluído quase em simultaneidade com as memórias de Vila Isabel que Aldir lançou há pouco mais de um mês.

O livro reúne crônicas, poemas, contos e uma antologia de letras de canções. Em quatro formas de expressão, salta das páginas antes de mais nada o pulsar da cidade, o recalcitrante modo carioca de celebrar a vida, tantas vezes declarado morto e enterrado por um suposto cosmopolitismo compulsório. Do ponto de vista da criação literária, impressiona sobretudo a capacidade do autor de esculpir com uma só frase, uma bagatela de palavras, situações e personagens perfeitamente definidos. Está nesse caso, por exemplo, um tipo da letra de canção Negão nas parada (assim msmo, no singular), um certo Dunga, 'bandido joia e cana dura', o agente duplo destes tempos nos quais a separação proclamada por Lúcio Flávio Vilar Lírio, 'bandido é bandido e polícia é polícia', parece, essa sim, definitivamente enterrada.
Noutra letra de canção, agora um choro, Pianinho, Aldir registra uma advertência de Radamés Gnatalli contra a 'falta de medida' e promete acatar 'essa voz que me aconselha'. A jura evidentemente é fruto da admiração pelo grande maestro, pois Blanc às vezes, muitas vezes, afasta o equilíbrio e pisa fundo, com aquela crueldade santificada de Henfil, na indignação contra o comportamento escroque dos poderosos e, com o ardoroso despudor de um hipotético Carlos Zéfiro contista, na explicitação sem rodeios da anatomia dos amantes. Tudo, no entanto, sem perder o poder do estilo, a capacidade de transcrição da vida para a criação, a generosidade e a vocação do amor à cidade, flagrante até quando menciona os vira-latas de Catumbi. "

 (*) Na verdade, o lançamento de Aldir como letrista aconteceu dois anos antes, no mesmo festival, com a música "Nada Sei de Eterno", defendida por Taiguara


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