Palavras Domesticadas

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sábado, 30 de janeiro de 2016

Geraldo Vandré - Jornal O Dia (2005)

Mesmo tendo abandonado a carreira artística há muitos anos, e ter se tornado uma figura reclusa, Geraldo Vandré nunca foi esquecido. Em qualquer relato sobre a era dos festivais, ou o cenário da MPB nos anos 60, seu nome é sempre lembrado, por ter sido uma figura muito participante, tanto na condição de cantor, compositor ou mesmo um articulador de movimentos entre compositores, tanto pelo viés artístico, como também político. E foi justamente por seu posicionamento político que Vandré foi perseguido, preso e exilado no período mais violento da ditadura militar. Numa época em que ídolos musicais são criados pela mídia, manipulados, e fadados ao esquecimento daí a alguns anos, artistas como Geraldo Vandré, que abdicaram da carreira, ainda são lembrados e cultuados. Inclusive acaba de ser lançada uma biografia sobre ele. Em 13/02/2005 o jornal O Dia trazia uma matéria sobre Vandré, com depoimentos de Geraldo Azevedo e Marcelo Melo, do Quinteto Violado. O título da matéria é "A falta que ele faz", e fez escrita por Sabrina Wurm, e segue abaixo:
"Sem fazer shows nem lançar discos há mais de 30 anos, Geraldo Vandré e sucessos como Pra Não Dizer que Não Falei das Flores nunca foram esquecidos - mesmo que apareça um ou outro fariseu para chamá-lo de morto-vivo. Aproximando-se dos 70 anos (12/9), Vandré participou do primeiro festival, na TV Rio, há 50 anos, com o nome artístico de Carlos Dias (homenagem aos ídolos Carlos Galhardo e Carlos José, e Dias, seu sobrenome). Consolidou-se na carreira há 40 anos, já como Geraldo Vandré (abreviação de Vandresígilo, sobrenome do pai), lançando o segundo LP, Hora de Lutar, e assinando a trilha do filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos.
Exilado em 1968 e recluso desde que retornou ao Brasil em 1973, Vandré ainda emociona com a última música conhecida que escreveu no país antes de ir para o Chile: Canção da Despedida, censurada por 16 anos. Fãs e amigos de Vandré ainda esperam que o trecho 'Já vou embora, mas sei que vou voltar' se concretize de fato. Afinal,ele nunca retomou a carreira. 'O exílio dele nunca acabou. Ele saiu do exílio físico para o mental', acredita Geraldo Azevedo, aos 60 anos, que o acompanhou com o Quarteto Livre.
Por ter negado o passado musical, não autorizar regravações e ter se tornado frequentador das repartições da Aeronáutica, Vandré se tornou um mistério. Já disse que só cantaria novamente no país quando a sociedade entendesse que nunca foi torturado, e homenageou a Força Aérea Brasileira, em 1985, com a música FABiana.
 O amigo Marcelo Melo, de 60 anos, do Quinteto  Violado, garante que ele continua criando no apartamento onde mora na Rua Martins Fontes, em São Paulo. E, vez por outra, liga para propor novo trabalho: 'A última vez que me telefonou foi em novembro. Sempre propõe que a gente faça show na América Latina. Cantarola canções novas, fica de ligar depois, mas some'.
 Da turma das antigas, Marcelo é um dos únicos que com quem Vandré mantém contato. Mesmo assim, não se veem desde 1998. 'Na última vez, conversamos na casa dele, que é uma loucura. Livros, jornais, tudo no chão. Ele dorme num colchão', detalha Marcelo. 'Vandré sofre de esquizofrenia. Alterna momentos de lucidez com devaneios. Acredito que está em tratamento na Aeronáutica', diz
O Quinteto Violado teve a honra de gravar República Brasileira, única inédita registrada desde o exílio, lançada no álbum Quinteto Canta Vandré, de 97. Vandré acompanhou ensaios no Rio, e Duda Alves, tecladista do Quinteto, recorda de um jantar com o ídolo, em 94. 'Soubemos da morte de Ayrton Senna juntos. E Vandré soltou; 'O homem precisa ir para Imola para ser imolado', recorda Dudu.
Quando o Quinteto entregou a Vandré o tributo pronto, o compositor o classificou como uma droga. 'Mas depois ligou para perguntar se poderia ficar com o arranjo de República. Para ter falado isso, deve ter adorado', ri Marcelo. Geraldo Azevedo conseguiu permissão para regravar canções de Vandré apenas uma vez. 'Para minha antologia, ele negou. Então respeitei a decisão dele', diz Geraldo.
Dos velhos tempos em Paris, quando lançaram Das Terras do Benvirá, em 73 - último disco de Vandré - Marcelo elege o momento inesquecível. 'No caminho de um show na Bélgica, fomos presos. Vandré deixou haxixe no porta-luvas', lembra.
Com saudades do parceiro de palco, Geraldo Azevedo reencontrou Vandré só cinco vezes depois do exílio. Nenhuma nos anos 90. Uma delas foi num show, em São Paulo, de surpresa. 'No camarim, me elogiou, mas pediu para não dizer que ele compôs Canção da Despedida, conta Geraldo. 'Nunca mais voltei a ver aquele Vandré feliz, mas hoje ele é referência', diz Geraldo.
Da história de Vandré, o pesquisador Jairo Severiano destaca o festival de 1968, quando Pra Não Dizer que Não Falei das Flores ficou em segundo lugar, atrás de Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque. 'Vandré incentivou a maior vaia já vista nos festivais', recorda ele, já preparando-se para pesquisas no Arquivo Nacional. A instituição abre, até o fim do ano, acervo com 70 mil letras censuradas durante a ditadura, entre elas canções de Vandré. 'Hoje, você tem uma época de crônicas sociais', diz Marcelo Yuka, ex-Rappa. "O que mais me comove é que a dor social é mais sutil, mas não menos violenta do que a daquela época', continua Yuka. "

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