Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Cassiano - Jornal do Disco (1979)

Cassiano é um dos mestres do soul brasileiro. Nos anos 70 se destacou no cenário musical brasileiro com sucessos como A Lua e Eu e Coleção. Mas na época já não era um músico e compositor iniciante, já tinha uma carreira e dois discos gravados. Em 1979, o Jornal do Disco, que vinha encartado na revista Som Três trazia uma matéria com ele, assinada por Júlio Barroso, que anos depois se destacaria como membro da banda Gang 90. A matéria tem por título "O som da marginália do Rio", e faz um protesto contra o preconceito que a música dos subúrbios do Rio, que traziam uma batida black e soul, sofria por parte da crítica e da própria indústria fonográfica. Eis a matéria:
" 'Primavera, 'Murmúrios', 'Coleção', 'Ana, 'A Lua e Eu' - sucessos que foram cantados pelo povão, frequentaram com ótima presença as trilhas de novelas da Globo, e renderam bons royalties para a indústria fonográfica. Seu criador?
Pouca gente conhece Genival Cassiano, iniciador de uma escola musical consagrada pelo público, amaldiçoada ou simplesmente ignorada pela crítica, e sem dúvida com reflexos no comportamento das massas negras jovens, generalizadas pela sigla Black Rio, Sampa, Belô.
Cassiano, que iniciou sua carreira na época da Bossa-Nova, atravessou o período áureo da Jovem Guarda com o trio Os Diagonais, e gerou as bases musicais do suíngue negro brasileiro ao lado de Tim Maia e seus discípulos, é um paraibano que se pode dizer um homem com histórias a contar, muita coisa a cantar. Desprezado pela indústria, que o considera um perfeccionista extremado, mesmo desastroso, um verdadeiro Von Strohein do balanço nativo, é ignorado pela Kriptica musical brasileira que burramente o considera um arremedo da música negra americana. Eles não veem o gênio de Cassiano, elogiado por Caetano Veloso e Gal Costa, que o consideram um dos grandes cantores brasileiros. Compositor de melodias populares, cultor de harmonias refinadas, imagens românticas simples, vivências de um nordestino no perímetro Copacabana/Central do Brasil. A música de Cassiano é um mistério que o mundo não entendeu, e que a massa elegeu com sua sabedoria vinda do coração.
Chamar a música de Cassiano de influenciada, de xerox soul, é, primeiramente, má fé, além de muita burrice. Afinal, as duas andam de mãos dadas. No Brasil oitenta, pós-tropicalista (blá-blá-blá), tudo é permitido, aliás, nada mais cansativo do que repetir as palavras do mestre baiano: É proibido proibir... Temos hoje cearenses que que fazem country rock, pernambucanos que iniciaram seu rock xaxado, bem próximo ao locomotive breath do Jethro Tull: velhos e novos baianos fazem reggae, e até Chico Buarque fez versão de música italiana. E daí? Melhor pra todo mundo!
Mas mesmo assim, é engraçado notar que os puristas têm uma implicância toda especial pela escola carioca do suíngue black. Luiz Melodia, do Morro do Estácio, apesar de figura de culto, ainda não foi dimensionado a altura. Tim Maia recebe sempre um porém das pessoas ditas Kultas. Novos compositores como Tureko, Célio José, Paulo Roquete são simplesmente ignorados. E muita gente que aplaude a gravação de Melodia, 'Falando de Pobreza' nem sequer imagina que é uma autoria de um crioulo de Acari, o tal de Tureko.
Cassiano da Paraíba não grava há anos, seu último LP na CBS foi suspenso após um regime de verbas de produção altamente ridículo. Doura-se a pílula dos que cantam o Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste, gente geralmente de formação universitária, que canta as secas e a vida de gado. Tudo bem. Não é modelito reação, não. É só um toque, um lembrete.
A música dos guetos urbanos cariocas está no mesmo estágio focalizado por Nelson Pereira dos Santos em Rio 40 Graus. O compositor popular carioca recebe sua glorificação num esquema PIS-PASEP. Se nós fizermos a conta, levando em consideração o fato de Cartola, Zé Keti e outros terem recebido o seu PIS com décadas de atraso... Quando vai pintar uma brecha para os novos valores da margem do Rio? Mas vamos berrar pela cultura carioca efervescente dos morros, do subúrbio, do Centro. Para Cassiano cantar o ritmo da Central. E tirar o Rio dessa margem, traçar roteiros turísticos pela cidade. Pra balançar o povão com seu Funk Favela."

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