Palavras Domesticadas

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domingo, 23 de abril de 2017

César Costa Filho - Um Compositor em Busca da Coerência que o Público Exige (1977)

César Costa Filho foi um dos muitos compositores revelados nos antigos festivais universitários da TV Tupi. Participante desde o primeiro festival universitário, em 1968, quando ficou em terceiro lugar com "Meu Tamborim", Cezinha, como era chamado, logo seria um dos componentes do MAU (Movimento Artístico Universitário), do qual faziam parte também Gonzaguinha, Aldir Blanc e Ivan Lins. César foi um dos primeiros parceiros de Aldir Blanc, com o qual formou uma dupla que deixou grandes composições, até os dois romperem no início dos anos 70.
Em sua edição de 19/05/77 o jornal O Globo trazia uma matéria com César Costa Filho, assinada por Antonio Lima:
"Durante três anos o compositor César Costa Filho percorreu o itinerário dos festivais universitários, a porta de entrada aberta pela música brasileira a inúmeros artistas jovens. Ao lançar 'Bazar', seu terceiro LP, Cesinha fala sobre seu trabalho, que pretende manter dentro de uma linha de coerência exigida pelo público mais fiel que a MPB conquistou: os universitários.
Para esse público ele prepara uma série de shows que começam dia 26 em Curitiba e que farão o artista e seu violão percorrerem o circuito universitário de São Paulo e depois o Rio. Carioca de Vila Isabel, formado em Direito, Cesinha confessa-se influenciado pelos sambistas da Velha Guarda, mas sem compromissos com modismos ou estilos, uma atitude que já motivou polêmicas com estudantes.
Numa das últimas vezes em que se apresentou em Curitiba, Cesinha deveria fazer quatro shows, seguindo um roteiro musical previamente elaborado, em função de suas músicas. Logo no primeiro dia, um grupo de estudantes, sentado na primeira fila do teatro, permanecia impassível. Não aplaudia, nem se manifestava. Diante disso, Cesinha disse que ia tocar uma composição sua que não queria dizer absolutamente nada: 'Comigo Ninguém Pode', que considera um swing no estilo Gilberto Gil. Terminada a música, os rapazes da primeira fila levantaram-se e o compositor perguntou o que estavam achando do show.
- Lamentável - disseram.. Logo você que tem tanta influência da Velha Guarda, tocando essa música que não diz nada.
- Então - diz Cesinha - toquei o 'Samba do Estácio', meu e do Jair Amorim e desfilei todas as minhas composições influenciadas pela Velha Guarda. O público vibrou e fui obrigado a fazer o show em função dele e não do que eu pretendia apresentar.
Carioca, de Vila Isabel, 33 anos, Cesinha conta essa história para ilustrar uma teoria sobre seu trabalho, que é baseado, segundo diz, 'no que vejo por aí, mas sem compromissos com modismos ou estilos'.
Dono de uma voz parecida coma do violonista Toquinho, Cesinha não nega influências de Vinícius, Chico, Caetano e Gil, exatamente porque surgiu numa fase importante da MPB, em 1968, na época dos festivais universitários, quando apareceram também Gonzaguinha, Ivan Lins e Aldir Blanc, com quem já fez algumas músicas. No primeiro desses festivais, Cesinha teve a música 'Meu Tamborim' classificada em terceiro lugar. Era um trabalho dele e do Ronaldo Monteiro de Souza, defendido por Beth Carvalho. 
Musicalmente eu me considerava um amador, mas vi nos festivais uma porta de entrada em termos do que queria, isto é, atingir um público interessado no trabalho do artista. Fiquei um ano tentando colocar músicas no mercado, mas tive de esperar pelo segundo festival, quando fiquei novamente em terceiro lugar, com 'Mirante', minha e do Aldir, defendida por Maria Creuza. Aliás, nesse mesmo festival, eu e o Aldir também ficamos com o quinto lugar: 'De Esquina em Esquina', defendida por Clara Nunes.
Na época, Cesinha continuava inédito em disco, mas considerava importante a fase dos festivais, tanto assim que concorreu no FIC de 1969 e no seguinte. Em 69, 'Visão Geral', dele, Rui Maurity e Ronaldo, ficou em terceiro lugar. Em 70, entretanto, algo mudou: 'Diva' e 'Medo', ambas em parceria com Aldir ficaram entre as finalistas.
- Já tinha entrado no meio musical e perdi o acanhamento: mostrava músicas para Elis, Claudete Soares, Dóris Monteiro e a coisa começou a mudar.
Cesinha tem umas 70 músicas gravadas, algumas delas por cantores  como Elis Regina ('Ela'), Eliana Pittman ('A Ilha'), Claudete Soares ('Fraqueza'), Maria Creuza ('Um de Nós'), Dóris ('Um Chorinho'), Elizete ('Velho Amor'), em parceiras com Aldir, Paulo César Pinheiro e Ronaldo.
- Ao mesmo tempo eu desenvolvia um trabalho paralelo, fazendo trilhas sonoras para novelas como 'Minha Doce Namorada', 'O Homem que Deve Morrer' e 'O Preço de Um Homem'. Fiz também a trilha sonora sonora do documentário 'Eila', do Rui Santos, sobre uma tapeceira finlandesa que mora no Rio.
Como currículo, só falta citar os cinco ou seis compactos que gravou na RCA, além de outro, pela Som Livre, com as músicas de 'Minha Doce Namorada'. 'Bazar' é o terceiro LP que ele faz, desta vez com um só parceiro, o catarinense Heitor Valente, trabalho que motiva uma explicação:
- Eu pretendia incluir músicas de outros parceiros, como o Ronaldo, o Jesus Rocha ou o Walter Queirós, mas infelizmente não deu certo. O Heitor é um amigo meu. Mora no Rio e acho que por estar na mesma rua, nosso trabalho engrenou. A gente se encontra todo o dia, troca ideias e isso ajuda muito em termos de criação.
Apesar da falta de preocupação, demonstrada logo a seguir, Cesinha age como todo artista interessado na repercussão do seu trabalho. Informa que 'Consumatum Est' está sendo bastante tocada pelos disque jóqueis e fala sobre 'Amor Antigo', outro samba do seu LP. 'Amor Antigo' é a segunda música que faço para o Salgueiro, minha escola de coração. A primeira foi 'Vermelho e Branco'.
Capa de Bazar
Em 'Amor Antigo" está presente a duplicidade samba-mulher, bastante assídua na MPB, e que a letra de Heitor Valente apenas confirma: 'Parceiro, vamos ver o que acontece/ desse mal só não padece/ quem se isolou/ mas diga pra ela depois/ Salgueiro/ que esse nosso amor é antigo/ e não tem nenhum perigo,/ dividir por dois'.
Considero 'Bazar' meu LP mais agressivo, mesmo sendo ele a continuação de um trabalho que iniciei na época dos festivais. Isso porque me dá a oportunidade de me mostrar como um compositor descompromissado com modismo e estilos.
- Mas essa falta de compromisso não prejudica comercialmente ou, para usar um eufemismo, em termos de comunicação com o público?
- Contei a história acontecida em Curitiba, não? Pois é isso aí. 'Dose pra Leão' era um samba sofisticado, que foi sucesso nacional, mas sua estrutura melódica era tradicional. Tenho a impressão de que o grande público esperou que, a seguir, eu fizesse algo semelhante, mas no meu caso não é possível. Cresci ouvindo músicas da Velha Guarda, mas as coisas hoje são diferentes, pois para se ser reconhecido, a gente deve percorrer um caminho muito mais longo. E o importante é a gente estar alicerçado para o dia em que esse reconhecimento chegar. Por isso, acha merecido o sucesso do Chico, Caetano, João Bosco e Gonzaguinha. Hoje eles vendem discos e isso é importante, porque demonstra uma modificação na mentalidade do público.
Como exemplo dessa modificação, Cesinha cita o exemplo do público universitário que, segundo ele, questiona o artista, acompanha seu trabalho e exige dele.
- Isso é importante, pois é muito fácil fazer música para entrar nas paradas de sucesso. O sucesso fácil é passageiro e essa comunicação instantânea não me interessa. Sei que estou percorrendo um caminho muito mais longo, mas não tem problema. O importante é fazer um trabalho coerente, falando de coisas que sinto e sobre as quais o artista tem a obrigação de informar o público. "


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