Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Paulinho da Viola - Jornal O Pasquim (1973)

Em sua edição nº 192, de março de 1973, o jornal O Pasquim trazia uma matéria com Paulinho da Viola, assinada pelo crítico e jornalista Sérgio Cabral, intitulada "Ela é da família Viola". A matéria fala do início da carreira de Paulinho e a origem do seu nome artístico, escolhido por Cabral e Zé Kéti, entre outras coisas:
"1968, Paulinho da Viola já era um cara famoso, com uma certa experiência (já havia, até, morado no Solar da Fossa), todo o mundo gostando dele (talento, bom caráter e simpatia, ninguém podia odiá-lo) e começaram a atribuir-lhe uma posição que, absolutamente, não pretendia e nem fazia por onde conquistar: o de revolucionário do samba, o de autor de um samba novo, desligado de tudo que havia sido feito até agora. Isso aconteceu num momento em que se verificou uma rachadura na chamada MPB, quando uma turma equivocada na época colocou o samba na prateleira das coisas que precisavam acabar neste país. O samba. Paulinho da Viola, não, porque, afinal, ele estava noutra. Mentira, ele estava curtindo cada vez mais a velha guarda da Portela, tocando e compondo seus chorinhos, gravando sambas de Wilson Batista, Valzinho, Casquinha e Nelson Cavaquinho e fazendo não só a Portela, mas o Brasil inteiro cantar Foi um Rio que Passou em Minha Vida. E Paulinho pisava num chão tão firme que, depois, a turma entrou na dele e hoje está todo mundo maravilhosamente disputando o Carnaval.
Vascaíno, meia-esquerda do time da Portela, marceneiro amador, amigo de Canhoto da Paraíba, compositor preferido de Noel Nutels, jogador (razoável) de sinuca e tocador de cavaquinho e violão. Tenho-o na conta de um grande brasileiro.
Trabalhava na sucursal carioca da Folha de São Paulo e Zé Kéti quase todos os dias baixava por lá, sempre com sambas escritos a mão num pedaço de papel qualquer à espera que eu copiasse na máquina. (Por isso, servi de testemunha quando ele foi acusado injustamente de ter-se apropriado da marcha rancho Máscara Negra. Zé Kéti chegou na redação da Folha com alguns versos e completou ali mesmo, perto de mim. Fui eu quem datilografou pela primeira vez a letra de Máscara Negra). (Outro parêntese: um dia, a redação paulista da Folha fez um pedido pelo telex: 'localize o compositor Zé Kéti. Saiu no Le Monde uma nota sobre ele. Entreviste-o'. Respondi: 'Está legal. Percorrerei as favelas e os subúrbios à cata de Zé Kéti. Farei todo o possível para localizá-lo'. Zé Kéti estava ali ao meu lado às gargalhadas. Uma hora depois, a entrevista seguia pra São Paulo.)
Naquele dia, Zé estava achando que a gente deveria encontrar um 'nome artístico para o Paulo César, o rapaz que acompanhava todo mundo no Zicartola e começava a cantar alguns sambas de sua autoria.. Concordei com Zé Kéti.
Ilustração de Vilmar
- Um que tenha 'não sei o quê da Viola', - sugeri, me lembrando do Mano Décio da Viola, que é um nome muito bacana.
- Paulo da Viola - respondeu Zé Kéti.
- Então, Paulinho da Viola - completei, entrando nós dois num acordo e estabelecendo um nome definitivo para o Jacaré.
Já contei essa história uma vez numa revista, mas saiu tudo truncado, de maneira que estou repetindo e revelando pela primeira vez ao público como surgiu o nome do Paulinho da Viola, um dos vencedores do Carnaval de 1973 com um samba que leva o seu sobrenome: Guardei Minha Viola.
Conheci Paulinho numa reunião musical na casa de um amigo (ele não me era muito estranho. Acho que o já tinha visto na casa do Jacob do Bandolim). Havia algumas pessoas tocando um violão prafrentex e alguém lhe pediu que tocasse também.
- Deixa pra lá, eu sou quadrado -  e Paulinho não tocou.
Depois, ele foi aparecendo nuns  shows que a gente promovia em faculdades e foi numa dessas vezes que o vi pela primeira vez cantando: se não me engano, na Escola Nacional de Química da antiga Universidade do Brasil, na Praia  Vermelha. Em seguida, veio do Zicartola e Paulinho já era um cara indispensável como acompanhador do pessoal que cantava (Zé Kéti, Cartola, Ismael Silva etc. O Nelson Cavaquinho sempre se acompanhava). Saía da Folha com Zé Kéti e ia apanhar o Paulinho no Banco Nacional de Minas Gerais, agência Presidente Vargas, onde trabalhava. Às vezes, havia uns serões e ele só saía de lá dez horas da noite. Isso tudo foi no ano de 1964 e um pouco de 1965. Paulinho já cantava e fazia sucesso junto a um público ainda não muito numeroso.
Em 1966, ele já era razoavelmente conhecido e o contratei para a Casa Grande, no seu primeiro elenco permanente. Paulinho e Elto Medeiros (o pessoal escreve sempre Elton ou Eltom, mas o certo é Elto) cantavam seus sambas em meio a um show que, modéstia à parte, reunia os melhores sambistas brasileiros. Por essa época, gravava o primeiro LP (ele e Elto) na AGE, começava a estudar música com mais seriedade, teve um samba classificado no primeiro festival da TV Record, participou do espetáculo Rosa de Ouro e começava a profissionalizar-se.
Já ia longe o dia em que Paulinho conheceu Hermínio Belo de Carvalho (cito muito o Hermínio porque é um cara muito ligado) na agência do banco em que trabalhava, e começava praticamente aí sua carreira, quando foi inscrito na I Bienal do Samba, na TV Record, e aconteceu um troço do qual não sei se devo me envergonhar de ou não. Foi o seguinte: a sua música era a que talvez seja sua obra-prima, Coisas do Mundo, Minha Nega. Cantada por Jair Rodrigues, que mal conhecia a letra e a melodia, o samba não ficou para a final. Um ou dois dias antes de finalíssima, uma emissora de televisão de São Paulo, de pura safanagem (*) e de dedurismo, exibiu o filme Rio Zona Norte, no qual era cantado o samba que Zé Kéti inscreveu na Bienal e que ficava, portanto, impedido de participar, pois o regulamento só permitia músicas inéditas. Toda a comissão julgadora foi convocada às pressas e tivemos que escolher entre os desclassificados um samba para substituir o de Zé Kéti. Quando o gravador transmitiu o Coisas do Mundo, Minha Nega, cantado pelo próprio Paulinho, todo mundo ficou com cara de bobo, até que alguém perguntou: 'Como é que desclassificamos uma música destas?' E o samba entrou e acabou entre os primeiros lugares, só não me lembro exatamente qual. "

(*) Na época a palavra "sacanagem" era considerada um palavrão. Então se usava "safanagem", de proximidade fonética, e que tinha o mesmo sentido.

4 comentários:

  1. Excelente postagem, além de ter ótimas fotografias com uma estética bem retrô, deixando o blog bem cult. Amei.
    Também tenho um blog, fala de música, literatura, filosofia, posto contos, poesias e ensaios autorais, a quem se interessar: blog Eu Vomitando (http://euvomitando.blogspot.com.br/).

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    1. Obrigado pelo comentário, Matheus. Vou dar uma olhada em seu blog. Abraço

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